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Torres, RS, 30 de Abril de 2017.

Na crise, crie: esse é o lema de escolas da rede estadual em Torres
Seg, 23 de Maio de 2016 22:04

 



FOTO: Brechó solidário, realizado nos dias 13 e 14 de maio, é uma das alternativas para arrecadar fundos


Instituições buscam alternativas para enfrentar a crise econômica que afeta as escolas em várias esferas

 

Por Maiara Raupp
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Além dos cortes nos recursos para a área de educação no estado, a falta de valorização dos professores e parcelamento dos salários tem causado descontentamento da classe, o que provocou o início da greve na rede estadual na última segunda-feira (16). Os professores reivindicam aumento salarial e melhores condições de trabalho. Após o quarto dia de paralisação não existe prazo para o fim da greve. Em apoio aos professores, estudantes de várias escolas estaduais passaram a ocupar as instituições. A categoria pede o pagamento do piso nacional do magistério, reajuste de 13% retroativo a 2015, e mais 11% referente a 2016.
Por meio de nota, o governo do Rio Grande do Sul informou que é fundamental que as aulas sejam mantidas, que o acesso de professores e alunos deve ser liberado. O governo diz que mantém a postura de diálogo aberto com a comunidade escolar, além de dizer que está fazendo todos os esforços para recuperar o equilíbrio financeiro do estado.
 
Crise nas escolas também em Torres

Em Torres, as escolas da rede estadual aderiram parcialmente à greve nesta terça-feira (17). Mesmo que os professores queiram reivindicar seus direitos - sem querer deixar de pensar no ensino dos alunos - alguns pais não veem como bons olhos a greve parcial. De acordo com a auxiliar de serviços gerais, Raquel Evaldt, o período reduzido no fim só atrapalha. “Acaba que não rende para as crianças e desorganiza a rotina familiar. É preciso sair no meio da tarde para buscar o filho na escola. Eu até consigo sair rapidinho e depois trazer ela pro serviço comigo, mas e quem não consegue? Infelizmente era melhor a greve geral”, confessou Raquel, dizendo que essa é a opinião da grande maioria dos pais que trabalham.
Conforme explicou a professora da Escola Justino Alberto Tietboehl, Luciana Capovilla, a escola nunca teve a tradição de fazer greves, mas se chegou a uma situação caótica na educação. “As verbas do governo, tanto federal quanto estadual nunca foram altas e atualmente não acompanham a inflação. Tudo aumentou, menos os recursos. Atualmente, para manter uma casa com 3 ou 4 integrantes já não está nada fácil, imagina uma escola com mais de 1000 alunos? Além de valores desatualizados, enfrentamos o problema de atrasos nas verbas, sem falar na construção de um ginásio na nossa escola que nunca saiu do papel, a única coisa que recebemos foi uma pedra fundamental”, desabafou Luciana.
A docente disse, ainda, que a ação do professor é como uma peça de teatro, onde as pessoas só assistem o espetáculo, mas não fazem ideia do que foi necessário para a apresentação. “Primeiro se escreve um texto, procura-se um elenco, recursos materiais, muito ensaio para depois ter o espetáculo. O professor faz todo este planejamento para dar sua aula, que depois vai ser avaliada por ele os resultados. Porém, todo este trabalho de planejamento e avaliação, o educador faz em casa, privando-se do lazer e convívio familiar. As quatro horas que o aluno permanece na escola, assiste a apresentação do espetáculo preparado pelo professor”, disse Luciana.
A professora acrescenta, ainda, que não bastasse as dificuldades enfrentadas pelas escolas, agora esses profissionais (assim como muitos funcionários estaduais), estão sofrendo com o parcelamento dos seus salários, essenciais principalmente na atual crise que o país se encontra. “Todos temos despesas, precisamos manter nossas casas, nos alimentar e infelizmente contas essenciais, inclusive as do estado, que não podemos parcelar como água e luz. Além dos salários, muitos direitos dos funcionários estão sendo afetados, como plano de saúde e o plano de carreira, que interfere na vida funcional e aposentadoria. Como podemos trabalhar nestas condições? Com que cabeça o professor organizará este espetáculo aos educandos preocupando-se em como vai pagar suas contas e não sabendo quanto vai receber, em qual dia e se conseguirá cumprir com seus compromissos, pagar aluguel, financiamentos, alimentação e despesas diárias? Não existe outra forma de mostrarmos às famílias e ao governo o quão essencial é o nosso trabalho sem algum tipo de manifestação. A comunidade é fundamental nesta luta. Não é uma luta partidária, é uma luta por nossos direitos. Os salários e despesas dos parlamentares são exorbitantes e em dia. Somos nós que pagamos por tudo isso através de altíssimos impostos. Os governantes foram eleitos por nós apenas para administrarem o nosso dinheiro, então cabe a população fiscalizar e cobrar deles este resultado. Precisamos das famílias ao nosso lado nas passeatas, manifestações e protestos, pois estamos todos lutando por uma educação de qualidade. É direito do professor, é direito dos alunos, é direito da população”, concluiu a professora.
 
Brechó solidário é uma das alternativas para arrecadar fundos

Para enfrentar a crise econômica, que acarretou em cortes nas verbas destinadas à educação, escolas da rede estadual de Torres buscam alternativas para não deixar faltar material de expediente, papel higiênico e merenda escolar para os alunos. “A escola conta com projetos para arrecadações, como o brechó e festa junina, além da contribuição espontânea dos pais, juntamente com o Conselho de Pais e Mestres da escola”, explicou a professora Luciana.
De acordo com a diretora da Escola Justino Alberto Tietboehl, Renata Matos, o brechó arrecada a cada edição cerca de R$ 5 mil reais para a escola - verba que é destinado metade para a formatura do 9° ano e metade para as necessidades mais urgentes da escola. “Desta forma, mobilizamos alunos, professores e familiares. Todos se empenham e muita coisa boa é arrecada. Além disso, conseguimos oferecer peças a R$ 3 à comunidade” afirmou Renata.
A ideia do brechó solidário surgiu em um workshop com alunos do EJA e resolveu ser ampliado devido ao sucesso. Na época, em 2013, era realizado apenas uma vez ao ano. Em virtude da grande aceitação, em 2015 começou a ser promovido em maio, no projeto solidariedade, e em outubro, na semana da criança. A primeira edição deste ano foi realizada nos dias 13 e 14 de maio. Além do brechó, a escola promoveu no âmbito do projeto solidariedade, oficinas de corte e cabelo, manicure, massagem, sobrancelha, desenho, customização de roupa, cinema, tatuagem infantil, tie dye, odontologia, moda e design com desfile dos alunos com roupas do brechó e campeonato de futebol interséries. As roupas não vendidas são guardadas para o brechó de outubro, sendo que algumas vão para doação.

Contribuições dos pais
Todo o mês, vêm solicitado para os pais uma contribuição para auxiliar das despesas da escola, já que os recursos enviados são muito precários. No entanto, quem ajuda são os que menos têm condições para isso. “Pais que tem condições não ajudam e ainda reclamam. Isso acontece também nas reuniões de pais. Quem deveria comparecer não comparece”, confessou Raquel Evaldt, mãe de uma aluna.
 
 FOTO: Projeto solidário realiza oficinas com alunos

 

 

 

 

 

  

 
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