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Torres, RS, 30 de Abril de 2017.

O Homem e sua influência no PLANETA TERRA
Dom, 05 de Junho de 2016 13:41

 

 

A proteção e o melhoramento do meio ambiente humano é uma questão fundamental que afeta o bem-estar dos povos e o desenvolvimento econômico do mundo inteiro, um desejo urgente dos povos de todo o mundo e um dever de todos os governos.”

 

(Declaração de Estocolmo sobre o ambiente humano - ONU - 1972)

 

 

Por Guile Rocha

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Nosso planeta Terra, o terceiro mais próximo do sol nesse sistema solar que nos circunda. Formado por milhões de organismo vivos,  que interagem num complexo processo para a manutenção da vida, é um mundo que é berço de extraordinários espécimes da existência.

No ano de 1969, a primeira foto da Terra vista do espaço tocou o coração da humanidade com a sua beleza e simplicidade. Era a primeira vez que víamos este “grande mar azul” em uma imensa galáxia, e isto chamou a atenção de muitos para o fato de que vivemos em uma única Terra – um ecossistema frágil e interdependente.

Mas nós, os seres humanos, hoje autoproclamados senhores desse mundo, já vínhamos há tempo transformando a Terra com nossa ação. O planeta fornece recursos que são exploráveis pela espécie humana para fins úteis. Muitos locais onde a natureza prosperava livremente foram modificados, sujeitos à intensa ação de origem humana. Atualmente, a noção de nossa inconsequência é bem sabida:  intoxicação do ar e da água, chuva ácida e substâncias tóxicas, desmatamento,  perda da vida selvagem, extinção de espécies, degradação e esgotamento do solo. Mazelas e feridas que deixamos em nosso ambiente natural.

 

Histórico da relação homem x natureza

 

Não é de hoje que conseguimos verificar toda a influência do homem na natureza. Mesmo antes da descoberta do fogo, a humanidade já vinha transformando o meio ambiente para suprir todas as suas necessidades de sobrevivência. Há 10 mil anos atrás inventamos a agricultura e começamos a domesticar animais. Assim, a espécie humana conseguiu diminuir sua dependência em relação à natureza, tornando-se não mais nômade, e fixando-se em habitações. As relações ser humano x natureza mudaram de uma perspectiva de ‘’uma coisa só” para uma relação de domínio desta por aquele.

No pensamento antigo e medieval, a ideia que se tem de natureza é que vive-se nela e retira-se dela os recursos necessários para a sobrevivência. No plano simbólico, foi inspiração para criação de deuses em várias culturas. Utensílios e inovações tecnológicas surgiam, mas o desgaste da natureza não era tão grande. O pensamento daquela época era de que há uma durabilidade dos recursos naturais, não existe a preocupação com a escassez e o fim dos mesmos.

A partir do Renascimento (séc. XVI) e com a difusão de ideias antropocêntricas e racionais, a relação entre ser humano e natureza sofre também uma mudança bem significativa. Isso ocorreu pelo fato do ser humano passar a ser considerado o 'centro do mundo', um ser privilegiado por suas habilidades racionais. Esse pensamento fortaleceu a noção de que estaríamos aptos para explorar e nos apropriarmos da natureza - não mais como direito divino, mas utilizando a racionalidade que nos diferencia dos demais animais. Entretanto, a racionalidade parece ter ficado na teoria em muitos pontos.

Em plena revolução Científico-industrial o mundo natural passa a ser objeto de conhecimento empírico-racional, de uso do ser humano para bem de seu desenvolvimento de suas atividades. No século XVII, a partir da primeira revolução industrial, a relação do ser humano com a natureza é apoiada pela visão mecanicista do mundo - e confere a natureza o ‘’status” de meio de obtenção de lucro e 'recursos naturais infinitos'  para uso dos seres humanos. Assim começa-se a construir e intensificar uma relação cada vez mais exploratória da natureza pelo ser humano,  e esta foi transpassando os séculos num voraz uso dos recursos naturais, até que os recursos foram dando sinais de que não eram tão infinitos quanto se imaginava.

Identificando o atual cenário do século XXI, já existe uma boa parcela dos cientistas que defende a criação de um novo período geológico: o antropoceno. A mudança de período aconteceria porque, segundo cientistas, não há mais condições de se dividir as atitudes humanas às transformações do meio ambiente. A biologia, a química a genética e a agronomia são alguns dos campos onde os usos da natureza são exaustivamente desenvolvidos.  Cientistas e pesquisadores alegam que as transformações causadas pelo homem na natureza são irreversíveis e, por conta disso, estaríamos entrando em uma era definitiva - e que para muitos pode acabar num fim trágico.

 

Responsabilidade com o Meio Ambiente

 

Com a intensificação da ação humana nas últimas décadas, a responsabilidade de proteger a saúde e o bem-estar desse ecossistema começou a surgir também na consciência coletiva do mundo. Em 1972, durante a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o Dia Mundial do Meio Ambiente, que passou a ser comemorado todo dia 05 de junho. A data (escolhida para coincidir com a realização desta conferência, então inovadora) tem como objetivo principal chamar a atenção de todas as esferas da população para os problemas ambientais e para a importância da preservação dos recursos naturais.

Atualmente existe uma grande preocupação em torno do meio ambiente e dos impactos negativos da ação do homem sobre ele. O consumo exagerado dos recursos naturais, esgotamento do solo  (pelo uso abusivo para a agropecuária e industria) a poluição de grandes áreas, por exemplo, são alguns dos pontos que exercem maior influência na sobrevivência de diversas espécies. "Tendo em vista o acentuado crescimento dos problemas ambientais, muitos pontos merecem ser revistos tanto pelos governantes quanto pela população para que os impactos sejam diminuídos. Se nada for feito, o consumo exagerado dos recursos e a perda constante de biodiversidade poderão alterar consideravelmente o modo como vivemos atualmente, comprometendo, inclusive, nossa sobrevivência. Esses problemas e outros poderiam ser evitados se os governantes e a população se conscientizassem da importância do uso correto e moderado dos nossos recursos naturais", indica o professor de biologia da USP, Fernando Machetti .

 

 

Desmatamento acelerado  é  uma das principais responsáveis pela extinção de espécies

 

Extinção de espécies

 

Como o mundo é grande e complexo, a ciência descobre novas espécies o tempo todo. Mesmo com os grandes avanços das pesquisas científicas nesses 30 anos, continuamos descobrindo novos animais e plantas. Somente em 2009, em expedições científicas realizadas pelo WWF-Brasil, mais de uma dezena de novas espécies foram descobertas, inclusive de aves e peixes.

2010 foi o ano da biodiversidade, mas um estudo do mesmo ano mostrou números preocupantes sobre o assunto. Pesquisadores estimam que cerca de 150 espécies sejam extintas todos os dias no mundo. "Estamos perdendo nossa biodiversidade a uma taxa mil vezes maior do que a taxa normal. Até 2030, poderemos estar com 75% das espécies animais e vegetais ameaçadas de extinção (em 2010, esse número era de 36%)", indicava o então secretário sobre Biodiversidade Biológica da ONU, Oliver Hillel. Conforme a WWF-Brasil, os cientistas sabem que, em toda a história do planeta, houve cinco grandes ondas de extinção, como a que exterminou os dinossauros, por exemplo. "Acredita-se que, atualmente, vivemos a sexta crise de extinção. A diferença é que, ao contrário dos outros cinco episódios de extinção em massa da história geológica, dessa vez parece que uma única espécie – a nossa – é quase inteiramente responsável por essa crise". 

 

A questão do aquecimento global

 

O impacto do aquecimento global será "grave, abrangente e irreversível", afirma um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC, na sigla em inglês) divulgado no final de 2014. O relatório foi baseado em mais de 12 mil estudos publicados em revistas científicas, e conclui que,  nos próximos 20 a 30 anos, sistemas como o mar do Ártico estão ameaçados pelo aumento da temperatura em 2 graus Celsius. O ecossistema dos corais também estaria sendo irremediavelmente prejudicado pela acidificação dos oceanos.Na terra, animais, plantas e outras espécies vão começar a "se deslocar" para pontos mais altos, ou em direção aos polos.Um ponto específico levantado pelo relatório é a insegurança alimentar. Algumas previsões indicam perdas de mais de 25% nas colheitas de milho, arroz e trigo até 2050.

Enquanto isso, a demanda por alimentos deve continuar aumentando com o crescimento da população, que pode atingir nove bilhões de pessoas até 2050. "Na medida em que avançamos [as previsões] no futuro, os riscos só aumentam, e isso acontecerá com as pessoas, com as colheitas e com a disponibilidade de água", disse Neil Adger, da universidade britânica de Exeter – um dos cientista que assina o relatório. "Enchentes e ondas de calor estarão entre os principais fatores causadores de mortes de pessoas - também relacionados ao aquecimento global. Trabalhadores que atuam ao ar livre – como operários da construção civil e fazendeiros – estarão entre os que mais sofrerão. Há também riscos de grandes movimentos migratórios relacionados ao clima, além de conflitos armados".

No outro lado da balança, há pesquisadores como o professor de climatologia da Universidade de São Paulo (USP), Ricardo Augusto Felicio,que seguem defendendo que o aquecimento global é um mito, pois não haveriam provas realistas de que a ação do homem contra a natureza estaria provocando aumento significativo na temperatura global. "Falar em média (climática) é uma verdadeira abstração, que esconde uma gama rica de fenômenos e variações. Não se pode entender clima assim. Só no último século, as temperaturas subiram e desceram duas vezes. Isso faz parte da variabilidade climática e não há nada de errado".

O mesmo Felício cita estudos que mostram que o nível do mar não teve alterações significativas em relação ao derretimento de calotas polares, diz que o próprio efeito estufa é um mito e questiona eventos com cunho de defesa ambiental (como o Rio + e a ECO 92). "São todos eventos de carnaval fora de época, em que se discutem negócios, ou seja, quanto vai se levar nesse mercado fraudulento do carbono. Todos os países querem participar disto. Agora tem o lado obscuro de tudo isso, pois os direitos civis das pessoas começaram a entrar no jogo, bem como a criação de mais impostos e a formação de algo que ainda não conseguimos definir muito bem, entre um “eco-imperialismo” ou um “eco-totalitarismo”.

 

Agronegócio preocupa

 

 

Indústria da produção de carne, principalmente a bovina, envolve desmatamento, superexploração de recursos e uso abusivo de água

 

Pelo mundo todo, o agronegócio avança na trilha do desmatamento e da superexploração do meio ambiente. Segundo o Greenpeace, mais de 60% das áreas desmatadas no mundo são usadas para a agropecuária.  No lugar da floresta, grandes pastos para receber gado, lavouras de soja e algodão. O que restou das árvores alimenta madeireiras e carvoarias, ou servirão de insumo para a construção civil das grandes cidades. Esse é o alto preço que pagam países como o Brasil ao apostar na grande propriedade rural como alavanca para o desenvolvimento econômico. As ameaças ao Pantanal, Cerrado e Amazônia são apenas a face mais conhecida da destruição ambiental provocada também por grandes projetos de infra-estrutura que obedecem às demandas da indústria e da agricultura exportadora. E o termo agronegócio – utilizado para modernizar a imagem do latifúndio – não esconde que, por onde a atividade avança, crescem a degradação ambiental e a concentração fundiária. "O agronegócio também é insustentável do ponto de vista social porque expulsa os pequenos agricultores do local", afirma Sergio Schlesinger, do Fórum Brasileiro de Organizações Não-governamentais (Fbons).

Nos Estados Unidos, segundo levantamento recente da ONU, o consumo doméstico de água corresponde a apenas 5% do gasto total do país, enquanto a pecuária consome 55% destes recursos. O documentário "Cowspiracy" (disponível no Netflix) tenta expor os segredos por trás da indústria de produção de carnes e laticínios. Coproduzido pelo ator Leonardo DiCaprio, o filme sustenta que A indústria de carne e laticínios é a principal responsável pela produção de gases do efeito estufa e, consequentemente, do aquecimento global. O diretor do filme,  que a saída para a fome do mundo seria uma radical (e geral) mudança para a dieta vegana: "A produção de carne vermelha consome 11 vezes mais água e polui 5 vezes mais do que a de galinha ou porcos, mas mais do que cortar a carne vermelha, é preciso adotar uma dieta baseada em plantas. Só assim a comunidade internacional conseguirá em 15 anos encontrar meios para alimentar as quase 800 milhões de pessoas que passam fome atualmente no mundo. Comer é um ato político. Ao decidir o que compõem o seu prato, você também está decidindo alguns dos rumos que o planeta vai tomar", indica Kip Andersen, diretor do filme.

 

 

Doenças por degradação ambiental: 12 milhões de mortes/ ano

 

 

E a degradação ambiental provocada pelo ser humano não afeta apenas a natureza selvagem, mas também todos que vivem nas cidades. Aproximadamente 23% de todas as mortes prematuras no mundo são causadas por problemas de degradação ambiental, com número estimado em 12,6 milhões de mortes no ano de 2012. Os dados estão no relatório Meio Ambiente Saudável, Povo Saudável (Healthy Environment, Healthy People, em inglês), lançado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) no último 27 de maio de 2016.

O Pnuma ressalta que as diferenças regionais dessas mortes são grandes, indo de 11% nos países europeus que integram a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e chegando a 28% no Sudeste Asiático. A poluição do ar é a principal causa de mortes relacionadas a degradação ambiental. As causas evitáveis de morte que o Pnuma cita como ligadas ao ambiente são as doenças diarreicas, infecções respiratórias, lesões causadas por atividades de risco ou situação de moradia insalubre, asma, malária, lesões de trânsito, obstrução pulmonar crônica, doenças cardiovasculares, cânceres e doenças musculoesqueléticas.

 

 

A principal causa de morte por degradação ambiental, segundo o Pnuma, é a poluição do ar

 

Concluindo...

 

Como observadores nós podemos ver a história da humanidade sobre diversos ângulos dependendo do ponto de referência e da questão a ser analisada: como uma evolução no tempo, ou como uma autodestruição, isto é, evolução inversa. E quando se leva em conta a relação entre homem-natureza, estamos diante de uma linha do tempo notada de modificações. Nos primórdios tinhamos um vínculo de reverência, de temor e respeito, em que as leis da natureza estavam de acordo, em harmonia com a vida social e seus regramentos.Posteriormente, há uma evolução tecnológica, passando o homem a uma postura de domínio, controlador e transformador dos mecanismos e entendimento do mundo natural conforme suas vontades e necessidades.As leis morais agora nem sempre estão em harmonia do natural, paralelamente com o ordenamento jurídico, esse por vezes ligados a interesses políticos, a ordem econômica, como forma de buscar mais lucro e proveito. O terno selvagem, por alguma razão estranha,  não representa mais alguém que vem da selva, mas sim alguém que está em desalinho com a sociedade de consumo capitalista.

Entretanto, há luta para mudar para melhor. Algumas pessoas conscientes e preocupados com essa situação - do cidadão comum ao ativista, do pesquisador ao político - buscam proteção de nossa delicada natureza de forma ampla: através de normas jurídicas, de tratados, de políticas públicas, investimentos em medidas sustentáveis, dentre outros.Mas parece carecer nos tempos atuais  uma nova visão, mais ampla,  na construção do nosso pensamento responsável e definição do nosso conceito de natureza.Documentários e pesquisas pelo globo alertam para áreas verdes devastadas em nome da agropecuária, ilhas de plástico no oceano. O que se quer é uma nova compreensão da relação entre o homem e o meio ambiente, que se lute pela concretização do nosso paradigma de sustentabilidade, do nosso objetivo de proteção e preservação do meio ambiente.

 

 

 
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