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Torres, RS, 30 de Abril de 2017.

A decapitação do Monumento ao Surfista em Torres: Ou entre vandalismo, delinquência e descaso
Seg, 15 de Agosto de 2016 01:33

 

FOTO: Monumento localizado nos Molhes teve a cabeça e um braço destruídos

 

Por Guile Rocha

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O surf torrense está de luto. Não, nenhuma pessoa morreu, mas uma ação de vandalismo deixa uma marca profundamente negativa para as pessoas que acreditam numa Torres vocacionada para o turismo e  de cidadãos respeitosos com sua cidade. Conforme flagrou o jornal A FOLHA, o Monumento ao surfista - localizado na Praça dos Molhes (em frente ao Boteco do Bola) - amanheceu decapitado no dia 08 de agosto. A escultura de pedra intitulada 'O Tubo' -  criada em 1988 pela artista plástica Leda Christina Nácul, com patrocínio da Sapt (Sociedade Amigos da Praia de Torres) -  foi encontrada com sua cabeça (e parte do seu braço) estraçalhada no chão, em frente a escultura.

A danificação desta obra de arte carregada de significado - ela é considerada o primeiro monumento dedicado ao surfista em todo o Brasil - representa mais uma vez o quanto a ignorância e falta de educação de alguns indivíduos de nossa sociedade prejudica, brutalmente, a imagem da Torres que queremos. Uma ação de vandalismo, na raiz da definição que palavra ganhou: ataca-se a arte, nossa história, nosso legado municipal.A decapitação do monumento ao surfista me fez sentir tristeza, e serve de alerta para a recorrente destruição do patrimônio público torrense.

 

Guarda Municipal não sabia

 

Conversei na quarta-feira (10) com o diretor de Gestão Integrada e Segurança de Torres, Daniel Lobão. Ele responde pela Guarda Municipal, formada por 43 servidores de quadro responsáveis por zelar pelo patrimônio municipal. É a guarda municipal que toma conta dos prédios públicos (principalmente), além de fazer uma ronda por praças da cidade (eventualmente). Entretanto, por mais que o monumento ao surfista estivesse decapitado há alguns dias, o diretor Daniel Lobão confessou que ainda não sabia disso - nem tinha visto a estátua sem cabeça nem ninguém havia lhe avisado. Admito que fiquei um pouco irritado com isso: A guarda municipal precisa de ao menos 3 dias para saber, por meio de um jornalista,  que uma das únicas obras de arte em espaço público de Torres foi seriamente danificada? Além disso, nestes 4 dias (entre segunda e quinta) que passei atento às redes sociais e conversas da cidade, não ouvi ninguém falando sobre esta depredação ao patrimônio municipal. Uma pessoa, para quem falei da decapitação do monumento, me indagou: "Triste, mas quem é que se importa com uma estátua velha numa praça suja e com muros pichados?". Infelizmente, parece que tem muito cidadão torrense que pensa assim.

Enfim, mas após ficar sabendo do ocorrido, o diretor Daniel Lobão lamentou a depredação do Monumento ao Surfista, e disse que uma solução seria a efetivação de parcerias público-privadas para garantir o monitoramento da cidade por câmeras. Além disso, ele conta que já há um projeto que busca dar maior autonomia para a guarda municipal. "Em várias cidades a guarda municipal já tem poder de polícia (e pode andar armada). Aqui em Torres estamos no caminho para que isso aconteça. A segurança pública é uma grande demanda da sociedade, mas os governos estaduais não comportam mais (novos investimentos). Por isso é importante que as guardas municipais se adequem aos padrões de hoje", concluiu Lobão.

 

Entre a delinquência...

 

 

Lixeiras depredadas na Praia Grande

 

O dicionário Michaellis define delinquência como um delito, ato de insubordinação relativo a regras, padrões morais ou leis. Pelo senso comum, a delinquência e tido como um tipo de delito menor que,  apesar de ter também fundo criminoso, atinge comunidades principalmente no seu aspecto social.  Em Torres, vemos muito desta deterioração do patrimônio ocasionadas por ações delinquentes: Lixeiras e bancos danificados, quebrados ou arrancados de sua base, pichações em casas e prédios. Coisas que vemos em vários cantos da cidade.

Algumas destas ações inconsequente são ainda mais lamentáveis. Instalada faz poucos dias, no começo de agosto, a cesta de basquete da praça Pinheiro Machado (patrocinada pelo Sesc/Fecomércio), já foi parar no chão na quarta-feira (10), tombando de sua base. Ruim para os atletas do basquete em Torres - que perderam o único espaço público para praticar o esporte (mas, felizmente, dois dias após esta matéria ter sido publicada no impresso de A FOLHA, a cesta de basquete já tinha sido arrumada)

É difícil achar razões que possam justificar a delinquência e vandalismo. A psicóloga torrense Caroline Westphalen ressalta que há estudos relacionados a esse tipo de comportamento, que pode acontecer  por causa do que é vivenciado e interiorizado na criança. "Os pais ou aqueles que cuidam podem influenciar as crianças a serem assim,  alguns pais até "destroem" a criança psicologicamente. Existem também casos que estão relacionados a uma revolta interna, que os adolescentes desenvolvem por causa da ausência de atenção e do sentimento de pertença", explica a psicóloga, lembrando da importância de uma infância envolta por cuidados (por parte dos responsáveis) para evitar um crescimento baseado em rebeldia: " A criança precisa se sentir parte da família. Quando não há essa sensação de "acolhimento"  a criança, então, pode se tornar um adolescente revoltado e, às vezes, pode direcionar essa revolta ou raiva para a sociedade. E é ai que ele expressa seus sentimentos destrutivos. Em alguns casos, ele pode destruir a si mesmo", conclui Caroline.

 

 

Cesta de basquete na praça Pinheiro Machado:  havia sido arrancada de sua base... mas já consertaram

 

 

...e o descaso

 

Em alguns casos de destruição do patrimônio público, entretanto, não sabemos se trata-se de delinquência com o mobiliário urbano ou puro descaso. Na Prainha, um singelo exemplo:  uma placa de sinalização -  que antes servia para alertar sobre os perigos de se aproximar das pedras em áreas de banho - está atirada no chão junto a bomba da Corsan. Será que foi algum temporal que arrancou-a? Ou foi algum ser humano com baixo senso de civilidade? Não saberia dizer, mas o fato é que a placa está lá atirada já faz meses, se deteriorando... e ninguém toma uma atitude.  

Em situações como estas, a maioria de nós, cidadãos, fica no aguardo de alguma ação da prefeitura - que é quem deve zelar pela boa manutenção do patrimônio público, afinal. Mas em Torres, a demora em atender este tipo de demanda por parte do poder público já é algo tão comum que nos acostumamos. E por isso nós, cidadãos, somos cúmplices da delinquência de alguns imbecis, bem como do descaso por parte da administração publica. Olhamos, reclamamos, mas não fazemos muito além disso.

 Eu, refletindo nessa culpa indireta que temos com a falta de cuidado do patrimônio, ao menos, aproximei a placa de sinalização arrancada do calçadão da Prainha. Um hipócrita descargo de consciência. Quem sabe assim, bem exposto em nossa turística beira-mar, alguém veja o objeto, sinta um remorso parecido ao meu e tome uma atitude em relação a sustentação da placa. A estaca já esta lá. Um par de mãos, um prego e um martelo resolveriam a questão em minutos.

 

 

FOTO: Placa de aviso no chão e pichações na parede da Bomba da Corsan, na Prainha

 

  

Um playground (há tempos) destruído

 

Em 2011, a Praça do Curtume foi criada  em espaço as margens da Av. Independência, com o objetivo de tornar-se um ponto de lazer e encontro para os moradores das redondezas. Mas hoje esta muito mal conservada, o que desestimula seu uso. O playground desta praça é um exemplo extremo de delinquência e descaso: está todo destruído, figurativamente parece saído de um filme de ficção pós apocalíptico. Bancos virados e destroçados, grade retorcida, balanços arrancados, gangorra desmembrada. E isso não é de hoje: A cena já era praticamente a mesma em novembro do ano passado, quando estive por lá - a única diferença é que agora havia mais lixo, dezenas de panfletos pelos cantos, presos a grama mal cortada. A delinquência de uns, assim, perdura como uma obcena obra de arte, de muito mal gosto, que retrata o descaso com o mobiliário urbano. Enquanto parece que (infelizmente) nos acostumamos com essas cenas,  o poder público parece não achar as formas (ou recursos financeiros) para combater o problema da deterioração patrimonial: no geral a manutenção e conserto das praças ocorre em passo de tartaruga em Torres.

Mas também vemos em Torres algumas ações vão na contramão da destruição do patrimônio público, pessoas que mostram solidariedade e proatividade em nome da preservação nosso patrimônio histórico e cultural.  Na semana passada, por exemplo, um grupo de cidadãos limpou as pichações que manchavam o histórico Farol edificado nos anos 50 na Torre Norte (ou Morro do Farol, para os íntimos)

 

Playground da Praça do Curtume está todo destruído

 

Sobre o termo vandalismo

 

Vandalismo é o comportamento atribuído originalmente aos vândalos, pelos romanos, em relação a destruição cruel ou deterioração de qualquer coisa bela ou venerável.

O termo "vandalismo" como sinônimo de espírito de destruição foi cunhado no final do século XVIII, em 10 de janeiro de 1794, por Henri Grégoire. Bispo constitucional de Blois; ele cunhou o termo e o tornou comum através de uma série de relatórios para a Convenção, denunciando a destruição de artefatos culturais como monumentos, pinturas, livros que estavam sendo destruídos como símbolo de um ódio ao passado e presente de exploração desde o "feudalismo", durante o Reino do Terror. Em seu livro Memoirs, ele escreveu: "Inventei a palavra para abolir o ato".

Historicamente, o vandalismo foi definido pelo pintor Gustave Courbet como a destruição de monumentos que simbolizam "guerra e conquista". Por isso, muitas vezes é feito como uma expressão de desprezo, criatividade, ou ambos. A tentativa de Coubert, durante a Comuna de Paris em 1871, para desmantelar a coluna no Place Vendôme, por ser um símbolo do passado Império autoritário de Napoleão III, foi um dos eventos mais célebres de vandalismo. Nietzsche definiu a Comuna como uma "luta contra a cultura", tomando como exemplo a queima intencional do Palácio das Tulherias em 23 de maio de 1871.

Em uma proposta na Conferência Internacional para a Unificação do Direito Penal, realizada em Madrid em 1933, Raphael Lemkin considerou a criação de dois novos crimes internacionais (delicta juris gentium): o crime de barbárie, que consiste no extermínio de coletividades raciais, religiosas ou sociais e o crime de vandalismo, que consiste na destruição de obras artísticas e culturais desses grupos. A proposta não foi aceita.

 

 (Fonte: Artigo tido como confiável pela Wikipedia). 

 

 

 
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