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Torres, RS, 30 de Abril de 2017.

Comparado há anos anteriores, número de baleias em Torres é menor nesta temporada
Dom, 04 de Setembro de 2016 21:24

 
FOTO: Divulgação instituto Oceano Vivo 

A redução se deve a fatores desde oscilações naturais até interferência humana

 

Por Maiara Raupp

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A temporada de baleias e de monitoramento desses animais no litoral gaúcho, especialmente em Torres, iniciou com poucos avistamentos dos principais protagonistas. De acordo com o presidente do Instituto Oceano Vivo, Thiago Nóbrega Lisbôa, o grupo já está há mais de 10 dias (a partir desta quinta, 01/09) esperando uma janela de condições meteorológicas e de mar para realizar o sobrevôo de censagem que vai dar uma ideia mais clara da quantidade de baleias.

“Estamos avistando um número muito baixo de baleias para a época. O que de certa forma já era esperado. As baleias tem um certo padrão de retornar a cada três anos para os mesmos sítios de procriação e cria. Em 2013 foi o ano de menor avistagens do período entre 2012 e 2015 – tempo em que estamos monitorando a costa. Também esperávamos ver menos baleias em Torres do que em Tramandai, Cidreira e Capão da Canoa. As baleias em fase de primeiros cuidados parentais tem preferência por substratos arenosos e aqui em Torres temos um mosaico de basalto e areia no substrato”, explicou Thiago.

Mesmo que existam algumas hipóteses para a redução, Thiago se surpreende com o número tão baixo. “Apesar de não monitorarmos as baleias aqui anteriormente, um estudo de mestrado da bióloga Silvana Bottini identificou que nos meses de agosto, setembro e outubro de 2012 e 2013 foram avistados 41 grupos de baleias com um total de cerca de 80 animais”, informou Thiago.

Com base nos dados de Santa Catarina, por exemplo, em 2006 foi o pico histórico, com 194 baleias avistadas entre Florianópolis e Torres. Em 2015 foram apenas 60. “São os extremos, não é uma diminuição constante. Em 2008, por exemplo, foram avistadas 156 baleias. Mas é considerável e, no mínimo estranho, esta diferença toda. Existia uma estimativa de crescimento populacional de 12% de baleias visitando a costa do Brasil ano a ano. Esta estimativa otimista não se confirmou e estamos novamente com muito poucas baleias em Santa Catarina e desta vez também no Rio Grande do Sul”, garantiu Thiago.
 

 

Fatores para a redução 


Segundo ele, é quase impossível dizer exatamente o que leva ao baixo número de baleias avistadas, no entanto existem alguns fatores que é preciso considerar:

·       * Pode se tratar de uma oscilação natural, se é que existe algo ‘natural’ em zona costeira;

·       * As baleias possuem uma grande plasticidade, ou seja, capacidade de se adaptar aos ambientes e as situações. Assim, podem perfeitamente abandonar ou modificar suas zonas de berçário e de acasalamento;

·       * É muito provável que as intensas atividades do Porto de Imbituba estejam molestando as baleias, seja pela poluição sonora ou pelo tráfego de embarcações - aqui se incluindo também as pesqueiras;

·       * O grande número de redes e o aumento de praticantes de esportes náuticos neste período; 

“Enfim, uma série de desafios que as baleias estão encontrando para o seu bem-estar e para as condições necessárias para os cuidados parentais e questões energéticas, que são necessárias para o sucesso em suas jornadas migratórias”, disse o presidente, acrescentando ainda que o tempo vai ajudar a responder algumas destas questões, sendo absolutamente necessário que exista uma mobilização no sentido de manejo e fiscalização dos ambientes costeiros marinhos. “Cabe lembrar que o Brasil é um ‘Santuário de Baleias e Golfinhos’ desde 2008 e infelizmente não vemos por parte dos órgãos reguladores nenhum movimento efetivo de proteção ao habitat das baleias”, concluiu Thiago.

 

Problemas com repasse de recursos 

O monitoramento de baleias também tem sofrido com a falta de recursos para a atividade. Conforme Thiago Nobrega, foi preciso readequar as atividades de monitoramento da temporada. “Tendo em vista o atraso inicial no ano passado - onde deveria ter começado as atividades em agosto e a liberação de recursos ocorreu apenas em novembro - inviabilizou tanto o monitoramento quanto as atividades de educação ambiental previstas. No verão também tivemos um novo atraso no pagamento da equipe, que se repetiu ao início desta temporada, sendo que não houve  contratação estagiários e a remuneração do pessoal de campo atrasou por mais de três meses, inviabilizando a continuidade da parceria com o Instituto Augusto Carneiro e consequentemente com a Fundação Grupo Boticário”, desabafou Thiago.

Considerando a situação, o monitoramento passou por uma fase de reformulação das atividades e das metas, passando a monitorar apenas Torres. “A grande novidade é a censagem aérea que vai nos permitir ter uma ideia mais próxima de quantas baleias frequentam a nossa costa, principalmente de fêmeas com filhotes, que são as que permanecem mais próximas da costa. Devemos realizar ainda em setembro a gravação dos sons das baleias com o apoio do Corpo de Bombeiros e sob a responsabilidade da especialista em bioacústica, Dr. Lilian Sander - uma das principais pesquisadoras do país no tema, que se junta ao time do Oceano Vivo. Estas pesquisas nos colocam em um outro patamar em termos de vanguarda. O sobrevôo vai nos permitir também fazer a fotoidentificação das baleias e conhecer mais sobre a história destes animais”, garantiu Thiago.

 

 

Centro de Integração Ambiental na Guarita

 

Com relação ao Centro de Integração Ambiental no Parque da Guarita, que há anos se arrasta para ser implantado, Thiago trouxe boas notícias. “Estamos em tratativas avançadas com um parceiro muito importante que, se concretizado for, irá trazer condições para realizarmos atividades a altura do nobre espaço que nos foi cedido. Esperamos até o final do ano terminarmos esta negociação”, falou Thiago.

Paralelo a isto, o Instituto Oceano Vivo tem prevista uma exposição chamada “Rota Internacional da Baleia Franca” que será realizada a partir da segunda quinzena de outubro e deverá ficar até o verão aberta ao público. “A exposição vai trazer um pouco da riquíssima biodiversidade de Torres, com a possibilidade de experiências auditivas com os sons de baleias e golfinhos. A intenção é finalmente dar um pontapé inicial neste projeto com a perspectiva de, na sequencia, dar um passo além com a chegada deste parceiro. Desta forma, tornar o espaço uma referência no estado e talvez no Brasil”, afirmou Thiago, ressaltando ainda que os desafios são enormes, a crise política e financeira é sem dúvida um obstáculo extra, mas estamos lutando para conseguir o melhor para Torres e para o litoral norte gaúcho, visando à conservação dos ambientes e animais marinhos e costeiros”, finalizou ele.

 

 

 
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