Assinar do jornal impresso? Clique aqui.
Torres, RS, 26 de Abril de 2017.

Jornal A FOLHA entrevista o escritor Luís Fernando Veríssimo
Sex, 16 de Dezembro de 2016 16:04


 

 

Por Guile Rocha

_____________

 

Só pensar em como entrevistar Luís Fernando Veríssimo já é uma tarefa difícil. O cronista-romancista-poeta-músico-humorista impõe respeito: cerca de 60 títulos publicados e 5 milhões de livros vendidos. Com  textos publicados em 17 países e  vencedor de vários prêmios literários, Luis Fernando Verissimo é considerado um dos mais populares escritores brasileiros contemporâneos. Ele marcou (e ainda marca) gerações de leitores com suas crônicas do dia-a-dia, contos entre o inusitado e o tragicômico, relatos sobre os acontecimentos atuais, criação de personagens literários marcantes (como o Analista de Bagé, Ed Mort, a Velhinha de Taubaté).

Além do destacado sucesso como cronista e contista, Luís Fernando Veríssimo é cartunista, roteirista, tradutor. Já trabalhou como redator e revisor de jornais e também com a publicidade. Estará em Torres (na noite deste sábado, 17, na Pizzaria Panzerotti) com o Jazz 6, grupo onde por muito tempo foi saxofonista - sendo o saxofone outra grande paixão que lhe acompanha desde a juventude. Fora tudo isso, Luís Fernando ainda é filho de um dos mais memoráveis escritores da história literária brasileira:  Érico Veríssimo (autor do antológico 'O Tempo e o Vento').

Mas apesar de todo respeito que sua trajetória impõe, foi uma grande satisfação poder conversar por telefone com o tímido Luís Fernando. Uma pessoa que fala pouco - ainda que sempre tenha muito a dizer em seus textos. Confira abaixo a entrevista!

 

 

Jornal A FOLHA ENTREVISTA: Luís Fernando Veríssimo

 

GUILE ROCHA - São muitas décadas dedicadas ao ato de escrever e uma notoriedade pública conquistada com os méritos de muitos prêmios literários e milhares de fãs pelo mundo. Eu mesmo, por exemplo, sou grande fã...  na juventude afinei meu sarcasmo e ironia com teus textos! Que sentimento  você carrega por este legado que já criou (e que ainda podes vir a criar)?

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO - Eu estou com 80 anos e olhando pra trás acho que tive uma boa carreira. Acho interessante principalmente o interesse entre os leitores mais jovens. É sempre um sentimento bom saber que o pessoal gosta dos livros que eu escrevi.

 

Além do fato de ser seu ofício, o que mais lhe instiga hoje no mundo das letras?

Tenho lido muito sobre economia e história, e leio menos por prazer atualmente (romances, ficções, etc). Então, os tópicos que tenho prestado mais atenção ultimamente são a política, economia e história.

 

Se a saudosa velhinha de Taubaté (personagem clássico de crônicas, a última pessoa que acreditava no governo no Brasil) estivesse ainda viva, o que será que ela conversaria com o presidente Michel Temer?

Pois é (Risos)... a Velhinha de Taubaté era a última pessoa que acreditava no governo, então acho que hoje em dia ela não falaria com ele (Temer), não acreditaria mais em nada (da política do Brasil). Por isso mesmo acho que ela decidiu morrer (faleceu 'literariamente' em 2005, em frente a TV) porque ela não acreditava mais no que via da política, chegou a um ponto crítico.

 

Há algum tipo de livro que você gostaria de ter escrito mas nunca escreveu?

Um livro que já li várias vezes é o 'Grande Gatsby' (clássico de F. Scott Fitzgerald). Acho que é um grande romance, e seria um livro que eu gostaria de ter escrito, sem dúvidas .

 

 

No dia 17 de dezembro você vai estar com o Jazz 6 aqui na Panzerotti, em Torres. Coincidentemente, é a data do aniversário de seu pai (o renomado escritor Érico Veríssimo). Quais as lições que você carrega dessa sua relação de filho com Érico Veríssimo?

O pai foi um homem muito bom, afetivo, ligado com a família. Acho que a lembrança que carrego dele é esta, da afetividade. Era também um homem muito coerente nas posições dele, e acabo tentando carregar isso pra minha vida também

 

Aliás, sua relação com Torres é antiga, no passado veraneou por aqui com sua família. Traz alguma memória boa de nossa cidade?

Eu veraneava no começo da década de 50 em Torres, quando era jovem. Geralmente alugávamos alguma casa: o pai e a mãe vinham e passávamos quase 3 meses na cidade, entre dezembro e março.  Tenho boa lembrança da praia, dos bailes da SAPT, dos companheiros que fiz. São sempre memórias muito boas.

 

Quando o cronista dá vez ao saxofonista? Ou os dois se misturam?

Na verdade, pra mim a música foi anterior a escrita. Comecei a tocar quando tinha 16-17 anos, enquanto que a escrita só comecei a levar a sério bem mais tarde. Acho que são coisas separadas, os tipos de atividade não tem muito a ver uma coisa com a outra. Só que o jazz e o saxofone, assim como a crônica, requerem um pouco de criatividade. Nesse ponto a música e a escrita se parecem.

 

Que coisas mais lhe fazem sentir prazer em estar vivo?

Acho que seriam meus netos - a Lucinda  e o Davi. A grande alegria da família hoje são os netos

 

E o que lhe desanima neste mundo?

O Brasil desanima a gente. A política brasileira, todos esses escândalos, essa incompetência. Um sentimento de impotência, parece que as coisas só pioram.

 

Como Luís Fernando Veríssimo se autodefine hoje?

Olha, não me conheço muito bem. Acho que estou tentando enfrentar a velhice com algum prazer. Mas não me conheço muito bem.

 

Você foi uma das minhas grandes inspirações literárias, instigou em mim uma vontade de escrever continuamente e, fatalmente, me levou ao jornalismo. Com um misto de satisfação e amargura, lhe agradeço por isso (brincadeira).  Mas que recado você daria para a nova geração de escritores?

O recado que dou é, principalmente ler muito. Pois a gente só aprende a escrever lendo os outros, não há outra maneira de aprender. Também ficar atento as técnicas de escrita, se aprimorar. Mas principalmente ler muito.

 

 
Banner
Banner
Banner
Banner
Banner