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Torres, RS, 26 de Abril de 2017.

Neto mostra seu jeito de encarar com leveza enfermidades de seus avós em Torres
Ter, 03 de Janeiro de 2017 18:02

 

Francis sempre leva sua avó para passear quanto ela está disposta

 
 

A correria do dia a dia muitas vezes é tanta que vamos deixando de lado uma das coisas mais importantes: cuidar de quem amamos. Talvez, esta época do ano seja a oportunidade de você rever suas prioridades. 

  

Por Maiara Raupp

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A pesada carga de trabalho, as exigências de agilidade nos meios de comunicação, as múltiplas tarefas domésticas, a necessidade de interação social, o trânsito, a apreensão com a crise financeira, dentre muitas outras atividades que o ser humano se envolve e se preocupa diariamente tem sufocado um ato tão simples e prazeroso: cuidar de quem amamos. Atualmente o simples ato de sentar em uma mesa de jantar (sem celular), deliciar-se com uma comida caseira e contar como foi o seu dia tornou-se raro. Não há tempo!

No final de dezembro esteve em exibição nos cinemas o filme “O Vendedor de Sonhos”, baseado no livro de psicoterapeuta Augusto Cury. Quem teve a oportunidade de ver vai entender bem o que estou falando, e quem não teve, aconselho a ver. No filme ele faz exatamente essa reflexão “estar e cuidar daqueles que amamos enquanto há tempo”.

É exatamente isso que fazem o torrense e biólogo Francis Santos Custódio e sua mãe, a comerciante Sônia Nápole dos Santos. Há cerca de sete anos os dois se revezam para se dedicar em tempo quase integral a dona Edi Nápole dos Santos, 80 anos, e ao seu Manoel Domingos João dos Santos, 86 anos, avós e pais de Francis e Sônia, respectivamente. Manoel tem glaucoma nível avançado (apenas 5% da visão), e Edi sofre do mal de Alzheimer.

 

Família: a base de tudo

 

É acreditando na importância da família que Francis enfrenta diariamente os obstáculos das doenças dos avós com bom humor. “Família é a ligação, é nossa referência, é a base de tudo. Hoje em dia tudo é considerado mais importante do que a família. Não deveria ser assim. Com relação a doença, se não levar com bom humor e naturalidade não se consegue vencer o dia. É muito difícil. Só nós sabemos. Mas reclamar não resolve nada”, completou ele.

Francis, sua mãe e sua irmã moram com os avós há cerca de 20 anos. “Sempre partilhamos de muitas coisas com eles. Moramos no mesmo pátio. Atualmente é um pouco diferente. Antes meu avô ia no centro sozinho, minha avó cozinhava. Nos últimos sete anos se tornaram totalmente dependentes”, contou Francis.

Seu Manoel nos dias bons enxerga 5%. Apenas vê vulto e claridade. Não tem noção de dimensão e com isso começou a apresentar certo nível de esquizofrenia, já que vê coisas. A doença foi descoberta há uns 15 anos, no entanto já estava em um nível muito avançado. Manoel trabalhou 35 anos na Prefeitura Municipal de Torres, contribuindo em vários feitos como a construção do Valão.

Dona Edi descobriu o Alzheimer faz uns oito anos. Após começar a apresentar os sinais da doença, o avanço foi muito rápido. “Com o uso dos medicamentos a doença parou de progredir. Mas acredito que, além disso, essa interação e atenção que temos com eles contribuíram muito”, afirmou o neto.  Francis contou ainda que a avó fugia muito de casa no início da doença e se perdia, mas hoje não mais. “O que é mais difícil hoje é a demência. Devido a isso ela faz as necessidades nas calças, tira as fraldas, suja a casa. Tem que ter muita paciência”, disse ele.

 

Cuidando com prazer

  

Francis sai com a avó para passear quando ela está em um dia ‘melhor’. O avô já é mais difícil. “Ele reclama muito. A vó já não é tão reclamona. É alegre, pra frente, só é braba”, falou ele sorrindo. Dona Edi era cozinheira do Farol Hotel e depois de casas de família. “Hoje não consegue passar um café”, completou ele.

Francis conta que o que os avós mais gostam de fazer é ouvir música. “TV irrita eles. O vô não enxerga e a vó não gosta do barulho. O que eles mais gostam é de música. Ouvem rádio, músicas de igreja, antigas. Eles até dançam juntos”, relatou Francis, dizendo ainda que a avó fala umas 20 vezes em curto espaço de tempo que a música é bonita.

Outro passatempo predileto do casal de idosos é conversar. “Eles contam histórias, piadas, eu preparo o café da tarde e rimos juntos”, dissertou Francis. “Faço por eles enquanto estão vivos. Me esforço para fazer eles felizes, porque depois que eles morrerem não adianta chorar”, completou ele.

De família humilde, da roça, dona Edi e seu Manoel são analfabetos, mas sempre se dedicaram muito para a família que construíram: sete filhos, 17 netos e 4 bisnetos. “Mesmo diante de tudo vejo que eles são muito felizes. O segredo, na minha opinião, é não tratar eles com tristeza ou como doentes”, disse Francis.

O neto fala ainda que lidar com eles é como lidar com criança. “Tem que dar comida, levar no banheiro, dar banho, colocar para dormir. Eles fazem manhas e chantagens. É cansativo, mas prazeroso”, assegurou ele, dizendo ainda que é muito recompensador fazer tudo isso. “Quando eles partirem eu sei que fiz a minha parte. Porque a maioria do sofrimento das pessoas é pelo arrependimento. É claro que a saudade dói, mas o arrependimento de não ter cuidado e convivido mais tempo com aqueles que amamos é pior”, concluiu ele.

 


Foto: Cuidar da higiene pessoal do avô é uma das coisas que Francis mais se dedica

 
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