EDITORIAL – Coragem para interferir

4 de abril de 2011

EDITORIAL A FOLHA

   

Nesta edição transcrevemos em nosso editorial o inteligente e corajoso

artigo do deputado Federal Paulo Pimenta.

       

Coragem para interferir    

 

 Por: Paulo Pimenta    

                      Passado o perí­odo do carnaval, os jornais brasileiros dividiram os destaques de suas páginas e editoriais entre os sambas-enredo vitoriosos e a situação de tragédia que se viu pelas estradas de nosso paí­s. De hora em hora, a mí­dia atualizava o "placar" das ví­timas, que aumentou em quase 50% em relação a 2010.    

                      A alegria dos desfiles contrasta, todo ano, com a dor daqueles que, após a Quarta-Feira de Cinzas, estão de "ressaca" pela morte de seus familiares. "Estradas nunca mataram tanto como neste carnaval", trouxe a edição de 11 de março, do GLOBO. A seguir, as estatí­sticas: 4.165 colisíµes, 2.441 feridos e 213 mortes nas estradas federais.    

                      Em 1996, o Parlamento aprovou lei que restringiu a publicidade de cigarro e de bebidas, como o uí­sque, a cachaça e outras. Entretanto, no texto do projeto, também estavam previstas restriçíµes í  propaganda da cerveja. Na época, as agências de publicidade trouxeram para o Salão Verde da Câmara cantores, artistas e desportistas conhecidos, e esse grupo de "especialistas" convenceu a sociedade de que era preciso colocar uma ví­rgula no projeto, excluindo a cerveja das restriçíµes. E assim foi feito: o Congresso foi tolerante com a propaganda de cerveja.    

                      De lá para cá, assistimos a uma queda no número de fumantes e a um aumento no consumo e na produção de cerveja, que cresceram em mais de 100%. Conforme dados do Ministério da Saúde, o í­ndice de fumantes no Brasil, que entre as décadas de 80 e 90 era de aproximadamente 30%, hoje apresenta taxa de 15,5%. O Brasil passou a ser um dos paí­ses do mundo com maior velocidade de queda no número de fumantes. Especialistas em cardiologia são unânimes em afirmar que esse fator positivo é resultado da restrição da publicidade do cigarro.    

                      No mundo, cerca de 1,3 milhão de pessoas morrem ví­timas de acidentes de trânsito por ano, e o gasto com saúde pública anual para esses casos é de aproximadamente R$100 bilhíµes. No Brasil, são 60 mil mortes por ano, embora a estimativa seja o dobro em virtude de só entrarem para estatí­sticas as ví­timas que perdem a vida no local do acidente. Os feridos são cerca de 500 mil e as despesa s médico-hospitalares e previdenciárias no paí­s são de R$40 bilhíµes por ano.    

                      Os mortos na maioria são jovens, homens, perderam a vida nos finais de semana e no geral beberam, e beberam muito. Pesquisa do Programa de ílcool e Drogas da UFRJ mostrou que o álcool está presente em 75% das mortes no trânsito.    

                      Em 2010, a Organização Mundial da Saúde aprovou estratégia para conter essa violência. Em texto assinado por 193 paí­ses, foram propostas medidas para pí´r fim a essa mortandade, como o aumento da tributação da cerveja e a restrição í  propaganda da bebida.    

                      Em muitos paí­ses, a propaganda de bebidas é regulamentada. Na França, ela é proibida na TV, e as mensagens publicitárias permitidas referem-se í  qualidade do produto, com ênfase em sua origem e composição. No Brasil, o Conar, timidamente, orienta para que não se vincule a publicidade das cervejas a esporte, carros, mulheres, sinal de ma turidade. Não é o que vemos por aí­.    

                      O Congresso não pautará essa matéria se não for pressionado pela sociedade, que por sua vez depende da mí­dia para se fazer ouvir. Tenhamos a mesma coragem que tivemos com o cigarro. Certamente, as estatí­sticas após esse perí­odo serão motivo de orgulho.  

 

 

   PAULO PIMENTA é deputado federal (PT-RS).    


Publicado em:






Veja Também





Links Patrocinados