1820: Saint-Hilaire e a Face Oculta da Expedição ao RS entrando pelas Torres

“Para a grande maioria, o nome do botânico francês é apenas uma nota de rodapé ou uma placa de rua. Mas sua passagem pelo Rio Grande do Sul, iniciada há 206 anos ao cruzar o Rio Mampituba, foi o evento que ‘abriu as portas do estado para o mundo’”.

Auguste François César Prouvençal de Saint-Hilaire (1779-1853) – Imagem de Prefeitura de Rio Pardo
8 de junho de 2026

Na penumbra dos silenciamentos históricos, reside uma estatística inquietante: estima-se que menos de 5% a 10% dos brasileiros com menos de 40 anos conheçam a obra de Auguste de Saint-Hilaire. Para a grande maioria, o nome do botânico francês é apenas uma nota de rodapé ou uma placa de rua, mas sua passagem pelo Rio Grande do Sul, iniciada há 206 anos ao cruzar o Rio Mampituba, foi o evento que “abriu as portas do estado para o mundo”.

Como pesquisador, convido você a olhar além do catálogo botânico. O que Saint-Hilaire registrou em seus diários não foi apenas a natureza exuberante, mas as contradições viscerais de um Brasil em formação – um relato onde o rigor científico frequentemente caminhava de mãos dadas com a naturalização da violência.

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  1. Não era um Aventureiro, era um Agente Oficial

É comum romantizarmos o explorador do século XIX como um andarilho solitário movido pela curiosidade. Contudo, Saint-Hilaire operava sob uma lógica muito mais pragmática: a biopolítica da Coroa Portuguesa. Ele não era um aventureiro; era um agente oficial portando “cartas de apresentação” de D. João VI. Ao chegar na Guarda e Registro das Torres, o Alferes Manoel Ferreira Porto após conferir minuciosamente seus documentos oficiais o recebeu seguindo os encaminhamentos registrados nas cartas de apresentação. Mais do que uma hospitalidade cordial se tratava de um dever institucional.

Para as elites locais, o francês representava um canal de interlocução com o centro do poder no Rio de Janeiro. Saint-Hilaire praticava a “arte de viajar” como um exercício de poder: inventariar o território, descrever recursos e mapear as gentes sob o prisma do interesse estatal. Sua ciência era uma ferramenta de estado, e suas opiniões, muitas vezes controversas, eram destiladas em conversas com quem detinha o mando e a propriedade nas paragens sulinas.

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  1. Torres em 1820: De Janelas para a Lagoa à Primeira Capela

Entre 4 e 6 de junho de 1820, o Distrito das Torres serviu de observatório para o naturalista. Alojado pelo Alferes comandante em uma pequena casa com janelas voltadas para a lagoa, Saint-Hilaire pôde contemplar a grandiosidade da Serra Geral enquanto preenchia cadernos com detalhes meticulosos. Ele foi o primeiro a registrar o que seriam os alicerces da ocupação urbana local: a estrutura base daquela que viria a ser a capelinha inicial comunitária. Seu olhar de cientista não perdoava detalhes geográficos ou botânicos, mas a paisagem que ele descrevia estava longe de ser um devaneio bucólico. Ela era o palco de uma engenharia social agressiva que os registros oficiais muitas vezes preferem omitir.

 

  1. O Lado Sombrio da Colonização: Prisioneiros de Guerra e Trabalho Forçado

A narrativa hegemônica sobre a formação das nossas cidades costuma apagar o trauma das populações originárias. Saint-Hilaire, porém, deixou as pistas da brutalidade. Nas Torres, ele encontrou cerca de 30 prisioneiros indígenas que haviam lutado ao lado de José Artigas – o caudilho uruguaio que desafiava a hegemonia lusitana na região platina. Estes homens, descritos pelo Alferes como “dóceis”, eram mantidos em cativeiro após a derrota militar, evidenciando que a “povoação” das Torres foi erguida sobre um sistema de escravização camuflada.

A violência não parava na captura. Sob a iniciativa do Conde da Figueira, promoveu-se uma perturbadora “experiência social”. Em 7 de junho, ao deixar as Torres, Saint-Hilaire cruzou ao se dirigir ao sul com outro grupo de indígenas das Missões sendo conduzido ao distrito. O preconceito do naturalista aflora em seus registros, ao descrever as mulheres do grupo como “muito feias e desavergonhadas”. A intenção por trás desse deslocamento forçado era clara: o Sargento Mor Paula Soares relata a formação de um arraial através do casamento compulsório de prisioneiros:

“[…] combinando as circunstâncias, determinou o arranjo de uma Aldeia de Prisioneiros por princípio de povoação, dando lhe para este fim as chinas que trouxe de Taquarembó em 1820 e estavam na capital […] as quais casei, arranchei logo com seus maridos em forma de arraial na margem da lagoa das Torres.”

O termo “chinas” referia-se às mulheres indígenas tratadas como mercadoria demográfica, trazidas para garantir que os prisioneiros imigrados compulsoriamente na força bruta da guerra criassem raízes e servissem de mão de obra permanente, longe de suas origens e cultura.

Título: RETRATO DE AUGUSTO DE SAINT HILAIRE
Autor: MANZO, HENRIQUE
Data: s/d
Técnica: ÓLEO SOBRE TELA
Coleção:FUNDO MUSEU PAULISTA – FMP
Foto: José Rosael-Hélio Nobre-Museu Paulista da USP
Acervo: Museu Paulista da USP (Direitos Autorais)

 

  1. Pedro: A Criança Guarani Levada como “Amostra” Científica

O episódio mais revelador sobre a alteridade e a objetificação humana na ciência do século XIX ocorreu em São Borja. Saint-Hilaire decidiu “adotar” Pedro, um menino guarani de oito ou nove anos, órfão de guerra. A motivação era puramente científica e de pesquisa: o naturalista já possuía um indígena do Norte do Brasil e desejava um exemplar do Sul para servir de “comparação” em sua volta à França. A frieza da transação é exposta quando o Conde da Figueira, participando ativamente do processo, oferece seu próprio pequeno servo indígena ao francês. Saint-Hilaire recusou apenas porque percebeu que o Conde tinha “grande afeição” pelo menino, preferindo então levar o órfão Pedro, sobre quem não pesavam laços afetivos que pudessem atrapalhar a sua “coleta”.

Sobre o menino, o naturalista escreveu: “a criança demonstrava a vivacidade e a curiosidade de um europeu, e soma a ternura e a docilidade característica de sua tribo.” Ao elogiar Pedro comparando-o a um europeu, Saint-Hilaire revela o paradigma científico de sua época: o indígena só era validado quando se aproximava do padrão do colonizador, mesmo enquanto era desumanizado ao ser transformado em uma peça de museu viva.

 

  1. O Que os Diários Ainda Têm a nos Dizer?

A obra de Auguste de Saint-Hilaire é um espelho desconfortável das contradições do Brasil Imperial. Ela flutua entre o brilho do rigor científico e a sombra da brutalidade social. Seus diários são fundamentais não apenas pelo que descrevem sobre a fauna e a flora, mas pelo que revelam sobre a construção deliberada da exclusão e da exploração no Rio Grande do Sul. Ao revisitarmos esses 206 anos de história, somos forçados a encarar os silenciamentos da narrativa oficial. Afinal, por que os detalhes sobre a “Aldeia de Prisioneiros” ou o destino de crianças como Pedro raramente chegam aos livros didáticos? A história que não incomoda é, muitas vezes, uma história incompleta.

 

Referências: SAINT-HILAIRE, A. D. Voyage Rio-Grande do Sul (Bresil). Paris: Orleans, 1887. GUSMÃO, F.D. P. S. D. Correspondência Ativa, Porto Alegre. IHGRGS. ** Retrato de Augusto de Saint-Hilaire, Acervo do Museu Paulista da USP.

 

* Diderô é pesquisador com especiais interesses tanto pela História quanto pela preservação do patrimônio material e imaterial, histórico, paisagístico e cultural. Colabora com o Centro de Estudos Históricos de Torres e Região – CEHTR. Defende que o progresso de uma cidade só é real quando honra sua memória e garante o futuro de todos os seus cidadãos.

 

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Publicado em: Cultura






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