Meu surf, minha vida

23 de julho de 2010

 

 

 

 

Por Guilherme Rocha

   

Para muitos, o surf não é apenas um esporte aquático qualquer, mas um verdadeiro estilo de vida permeado por pensamentos de paz e felicidade. Trata-se do equilí­brio perfeito entre o corpo, a mente e o ambiente. Berço das mais belas praias gaúchas, Torres possuí­ ótimas bancadas para o surf, com ondas que vão se arredondando harmoniosamente de acordo com suas caracterí­sticas próprias, o marasmo do vento que sopra e a energia que emana do mar. A perfeita formação dos Molhes numa manhã de verão, os tubos ocos surgindo por trás do morro na praia da Cal, ou o mágico balanço das ondas num alaranjado final de tarde na Guarita. O fascí­nio está sempre presente na interação do surfista com seu habitat natural. í‰ o verdadeiro espetáculo da criação que vai se espalhando em nosso mar, fazendo florescer em milhares de pessoas aquele espí­rito indomável, o iluminado aventureiro do surf.    

   

A história do surf…

   

A restrita bibliografia sobre o surf aponta que seu surgimento é originário das Ilhas Polinésias, através dos povos nativos e em virtude de sua própria cultura de subsistência, no caso a pesca. Mais tarde, porém, nas ilhas do Hawaii, o surf começou a ser praticado pelos antigos reis havaianos com pranchas feitas de madeira, e lá se consolidou. Reza a lenda que, no século IX, um rei taitiano chamado Tahí­to Moikeha ficou sabendo da existência das ondas mais perfeitas do planeta no Hawaii, e então decidiu se aventurar pelos mares rumo ao seu destino de surfista errante. Quando finalmente aportou na ilha de Oahu, Moikeha encontrou em Kauai as ondas perfeitas que procurava. Ao surfar, impressionou as duas filhas do rei de Kauai, que o consideravam como um deus que pairava sobre as águas, e com as duas acabou se casando, tornando-se rei de Kauai. Desde então, o surf se instalou nas raí­zes culturais, artí­sticas e religiosas dos povos das ilhas havaianas.

 

 

Duke Paoa Kahanamoku, considerado o

pai do surf moderno, em 1920

 

Outros relatos dão conta de que, muito antes deste ocorrido, antigos povos peruanos já se utilizavam de uma pequena espécie de canoa, confeccionada de junco, para deslizar sobre as ondas. Como, etnicamente, existe a possibilidade de que os primeiros havaianos tenham sido descendentes dos Incas, que se aventuraram pelo Pací­fico em suas enormes canoas, a história até faz algum sentido. Porém, entre mitos e lendas, o primeiro relato concreto da existência do esporte foi feito pelo navegador inglês James Cook, em 1778, que aportou no Hawaii e descobriu o surf para o mundo, ao relatar a prática em seu diário. Na época, o navegador gostou do esporte por se tratar de uma forma de relaxamento com grande mí­stica espiritual, mas as igrejas protestantes desestimularam por mais de cem anos a prática de surfe, pois suas raí­zes estariam ligadas a hábitos pagãos. Os nativos havaianos possuí­am um complexo ritual religioso para a fabricação das suas pranchas, e consideravam as ondas e os prazeres de brincar nas águas do oceano uma dádiva divina.  

O reconhecimento mundial veio apenas com o campeão olí­mpico de natação e pai do surfe moderno, o havaiano Duke Paoa Kahanamoku. Ao vencer os jogos de 1912, em Estocolmo, o atleta disse ser um surfista e passou a ser o maior divulgador do esporte no mundo. Com isso, o arquipélago e o esporte passaram a ser reconhecidos internacionalmente. Na década de 1950 o esporte popularizou-se na costa oeste dos Estados Unidos, tornando-se uma mania entre os jovens, principalmente nas praias do estado da Califórnia. No Brasil, as primeiras pranchas, então chamadas de "tábuas havainas", foram trazidas por turistas. Em 1938, surge aquela que é, provavelmente, a primeira prancha brasileira, feita pelos paulistas Osmar Gonçalves, João Roberto e Júlio Putz, a partir da matéria de uma revista americana, que detalhava medidas e o tipo de madeira a ser usada. Pesava então 80 kg e media 3,6 m. As primeiras pranchas de fibra de vidro, importadas da Califórnia, só chegaram ao Brasil em 1964.

 

   

… e as histórias do surf

 

 

 

Daniel Cardoso, Guilherme Rocha e Vinicius Rodrigues

 

 

Torres é considerada a capital gaucha do surf, e por aqui a magia do esporte se espalha de diversas formas e por diversas histórias. Daniel Machado Cardoso, o Tucano, é o coordenador da Tucano Surf School, que atua em Torres com o objetivo de despertar naqueles que ainda estão começando no esporte toda a magia que fluí­ do surf. Surfista desde os 11 anos, Daniel busca passar para seus alunos no ensino do surf a melhor interação do esporte com noçíµes de respeito e consciência ambiental. O mar é como um santuário, e o surf traz o prazer das coisas boas, das vibraçíµes positivas. í‰ como o satisfy my soul que Bob Marley cantava, uma atividade que faz a alma sentir-se iluminada. Tucano conta que escolheu o surf não apenas como atividade profissional, mas como um verdadeiro estilo de vida cuja essência ele carrega por onde quer que esteja. Acho que, de certa forma, o surfista sente aquela ligação muito forte com o mar, fica difí­cil ficar longe por muito tempo, uma sensação quase enlouquecedora. Além disso o surf é uma excelente forma de terapia e recreação que não tem limite de idade. Não importa se você tem oito anos ou oitante, aquela sensação tranqí¼ilizadora que emana do mar está sempre presente, finaliza.

 

Para quem está acostumado com a rotina do surf, um dos maiores temores é ser forçado a ficar longe das ondas. Foi o que aconteceu com Vinicius Rodrigues, funcionário do hotel SESC e é surfista de bodyboard desde criancinha. O bodyboard, que é a mais antiga forma de surf que se tem conhecimento, consiste em deslizar sobre as ondas deitado em uma prancha, e foi trazida aos tempos modernos em 1974 a partir da prancha desenvolvida por Tom Morey. Enfim, Viní­cius teve de ficar nove meses longe do mar em decorrência de uma delicada cirurgia no joelho, tempo que para ele foi um verdadeiro tormento. Senti um vazio muito grande nesse tempo que fiquei sem poder surfar, como se estivesse inadimplente com a vida, devendo algo para mim mesmo. Ele conta que chegava a ter pesadelos com a situação, tão grande que era sua ligação com o esporte. Sonhava que estava toda a galera reunida na água pegando altas ondas, então, quando eu colocava o pé na água, tudo escurecia e o sonho acabava. Hoje, já podendo deslizar novamente com seu bodyboard pelas águas, ele ressalta a importância de um bom prepara fí­sico e alongamento na prática do surf. O surf é o contato com o divino, mas é preciso estar sempre em paz com a própria saúde para que essa ligação com o mar dure o quanto for possí­vel.

 

 

O universitário Bruno Heberle, rumo a mais  

um aguardado final de semana de surf

 

 

 

 

O estudante universitário Bruno Heberle, 24 anos, é mais um daqueles milhares de porto-alegrenses que fica contando os dias para que o final de semana chegue logo, quando então poderá colocar a prancha dentro do carro e partir rumo ao litoral, sempre com a esperança de boas ondas. Na minha vida o surf surgiu dos longos e bem aproveitados veríµes da minha juventude, e quanto mais eu surfava mais eu queria estar perto das ondas. Apesar de sua vida estar centrada na caótica rotina urbana de Porto Alegre, é nos aguardados dias de surf, seja em Torres ou Garopaba, que ele diz sentir-se realmente em contato com sua subjetividade mais pura. O surf é para mim como uma religião, minha válvula de escape contra o stress. Muitas vezes sinto que estou traindo meus próprios ideais ao estar vivendo minha vida tão longe do oceano. Sempre sinto inveja na segunda-feira pela manhã, quando vejo o pessoal local correndo entusiasmado para pegar altas ondas enquanto eu, cabisbaixo, tenho que voltar para o caos e correria de Porto Alegre Mas para compensar a dolorosa distância da praia, Bruno usa seu tempo em feriados e férias programando viagens com os amigos, sempre atrás das melhores ondas. Dentro da América do Sul, ele já fez trips para o Peru, Chile e Uruguai, além de ter morado dois anos na Austrália, onde aproveitou o embalo para surfar no Tahiti e na Indonésia Estas viagens são, para mim, o mais incrí­vel que o ritual do surf pode proporcionar, conhecer lugares lindos mundo afora na companhia dos amigos.  Mas em nenhum momento me sinto tão vivo e tão próximo da paz completa como quando estou na água, em algum pico paradisí­aco, vendo o poder das ondas se desenhando tão harmoniosamente no mar, e a interação do homem com o ambiente mostrando que o equilí­brio perfeito existe, conclui o universitário.  

 


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