Meu surf, minha vida (parte II)

30 de julho de 2010

 Por Guile Rocha

 

 

 

O surf fascina geração após geração de adoradores do mar, gente que enxerga na plasticidade de uma onda tubular, ou no espetáculo dourado do nascer do sol sobre o oceano, a real possibilidade de um mundo melhor, baseado em valores mais simples e nobres.  O surf guarda dentro de si muitos significados, não é simplesmente um esporte radical, mas um verdadeiro ritual sagrado que purifica a alma, te leva para a aventura e para a paz que emana da imensidão do mar. Entre o surfista e a onda, não há espaço para dor, preocupação ou hipocrisia, existem apenas boas vibraçíµes e a gratidão por estar vivo.    

 

A velha guarda se manifesta

 

César Krueger é uma das figuras mais marcantes do surf em Torres. Vice-presidente da Associação Gaucha de Town-In e da Associação dos Surfistas de Torres, é um verdadeiro idealista que não tem medo de dizer o que pensa. Pai de três filhos, (e a procura de uma namorada para aumentar a prole) Krueger começou no surf aos doze anos, aprendendo a pegar onda nas praias dos Molhes e da Guarita. Naquela época o surf ainda estava começando por aqui, era uma novidade trazida principalmente pelos veranistas que vinham de Porto Alegre, como o ˜Alemão™ Chaves Barcellos, o Marco Antí´nio ˜Macaco™ Collares, o próprio ˜Fão™ Calef. Era gente que tava crescendo junto com o surf, se apaixonando pelo esporte desde o iní­cio. De lá para cá se passaram mais de 30 anos, e novas geraçíµes surgiram para consolidar o nome de Torres como um referencial para o surf no sul do paí­s. Tem muito surfista bom por aqui, como o Zeca Scheffer,que foi o  grande divulgador da Ilha dos Lobos e que colocou o nome da cidade no mundo, o Daison Pereira e o Rodrigo ˜Pedra™Dornelles, que são hoje dois dos melhores surfistas do Brasil. Isso fora toda a gurizada local que ta se destacando por ai, muita gente boa mesmo indicou.

 

Bumbi entocado num tubo na Prainha, em Torres  

 

Para Krueger, o surf é um estilo de vida que independe da condição financeira, um estado de espí­rito mais marcado pelos valores que a pessoa carrega consigo. O que acontece é que hoje em dia muita gente só se importa em ganhar cada vez mais dinheiro, se apegam a cada vez mais bens materiais e se esquecem das maravilhas que o mundo oferece, como o mar, as ondas, o sol e as mulheres. O surf é como a resistência contra alguns valores podres da sociedade, mostra o quanto a vida pode ser boa apesar dos problemas.  Segundo ele, o desafio é se manter firme na defesa dos próprios ideais, lutando contra a maré, contra a acomodação num sistema que julga as pessoas mais pelas aparências do que pelo caráter. Na primeira vez que visitei o Farol de Santa Marta, no final da década de 70, percebi que uma vida simples pode ser mais feliz do que uma vida onde quem manda é o dinheiro. Na época o Farol era uma vila de pescadores e uma colí´nia hippie, e dava para ver que as pessoas tinham uma paz muito grande, mesmo sem ter quase nada de luxos, só o que a natureza oferecia. Quem conhece o Krueger não se surpreende mais quando, no auge dos mais frios dias de inverno, ele chega para surfar sem roupa de borracha, apenas com uma bermuda, seu pranchão e o espí­rito aventureiro de surfista. Mas por que passar tanto frio? Krueger responde: Isso é uma homenagem que o cara faz por tudo que tem, uma forma de agradecer pela maravilha que é simplesmente estar vivo.  

 

   

Krieger com os filhos: o surf atravessando geraçíµes

                  Alexandre ˜Bumbi™ Menezes é parte da história do surf gaúcho. Uma lenda torrense, considerado o primeiro surfista local do municí­pio, ele começou no surf em 1973, tempos em que a paisagem e os costumes eram bem diferentes por aqui. Naquela época í­amos surfar eu, o Carlos Henrique ˜Cadu™ Rover e o Maurí­cio Almeida. Os Molhes ainda nem existiam, e no inverno o banho tinha que ser no short mesmo, porque long também não existia. Free surfer de espí­rito, a aventura corre nas veias de Alexandre, que sempre gostou de desbravar novos picos a procura das ondas perfeitas. Passava por matas fechadas no Rio de Janeiro para surfar lugares que até então eram inóspitos, como Atafona e São João da Barra. Além disso, atravessava as dunas da Joaquina para dar o banho, na época que não havia nenhuma estrada por lá. Bumbi sempre considerou o surf como seu estilo de vida, e indica a possibilidade de conhecer novos picos pelo mundo como uma das melhores coisas proporcionadas pelo esporte. Motivado pelo surf, fiz trips para a Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Equador, Peru, Argentina e Uruguai, além de ter conhecido boa parte do litoral brasileiro. Entre todos estes lugares, o mais surreal para mim foi Pavones, na Costa Rica, uma esquerda longa e perfeita num dos ambientes mais paradisí­acos que se pode imaginar.  

   

     

Alexandre, com as filhas Luiza e Isabel e o neto Davi

 

Acordar bem cedo para ver o sol nascendo no mar de Torres. Alexandre considera este ritual como um alimento para a alma. O sol nascendo no mar, esta relação com a natureza que o surf proporciona, tudo isso te alimenta, recarrega as energias e faz com que o cara se sinta realmente integrado ao ambiente Para ele o surf é como um milagroso remédio natural, um canalizador de boas vibraçíµes para o ser humano. Quando entro no mar sinto uma tranqí¼ilidade muito grande, o surf é como uma religião que me dá paz de espí­rito, que revigora as energias para romper os obstáculos da vida. Enquanto tem gente que engole um monte de comprimidos para se acalmar, eu prefiro simplesmente pegar minha pranche e ir para o mar. Surfista respeitada no municí­pio, pessoa carismática e chefe de uma linda famí­lia, Bumbi dá o recado para todos aqueles que amam o surf e também para os que querem começar no esporte. O surf deve ser incentivado por tudo aquilo que ele proporciona de bom, toda a consciência e aventura que a atividade oferece. Para a gurizada que sonha em um dia fazer do surf uma profissão, minha dica é ficar atento para não se deixar prejudicar pelo álcool e pelas drogas, além de não esquecer jamais a importância dos estudos e da famí­lia, finalizou.

 

Palavras de um campeão

 

 

Rodrigo ˜Pedra™ Dornelles é o maior í­cone da história do surf no Rio Grande do Sul. íšnico gaúcho a alcançar a elite do surf mundial, o WCT, ele se consagrou no ano de 2007 como o melhor surfista brasileiro do mundo. Hoje, aos 36 anos, Pedra se mantém como um dos atletas mais competitivos do esporte, obtendo vários bons resultados nas etapas do WQS, divisão de acesso para o WCT, e se destacando como um exemplo de perseverança e vitalidade. E esta carreira vitoriosa teve iní­cio aos doze anos, quando Rodrigo dava seus primeiros deslizes com a prancha nos pés, influenciado pelo irmão mais velho, Ricardo. Começou como uma brincadeira, mas logo aos 13 anos eu já me tornei campeão gaúcho de surf, e a partir daí­ eu sempre imaginei que minha vida estaria voltada para o surf. Quando eu tinha 18 anos fui o primeiro gaúcho a integrar a equipe brasileira de surf no Mundial Amador, e isso impulsionou bastante minha carreira, me deu motivação para continuar.

 

 

Rodrigo com o filho Pedro

 

                    Para Pedra, o surf significa mais que simplesmente um estilo de vida, já que ele considera que sua própria vida foi construí­da em cima do surf. O surf é minha filosofia, minha diversão, meu exercí­cio, um esporte completo tanto para o corpo como para a alma. Me considero um abençoado por poder trabalhar no mar, o melhor ambiente de trabalho que eu poderia imaginar para minha vida. Atleta profissional dedicado, com empenho Rodrigo consolidou uma respeitável carreira mundo afora, e em 2000 passou a integrar o top 45 do WCT, no campeonato que reúne os melhores surfistas do planeta. No começo parecia um sonho mesmo, era difí­cil me imaginar surfando com í­dolos como Kelly Slater, Fábio Gouveia e Teco Padaratz. O WCT é a vitrine do surf em todos os sentidos, o verdadeiro ˜dream tour™, e por isso é preciso estar sempre focado ao máximo para encarar um circuito tão competitivo, com ondas de estilos tão diferentes.

 

Pedra: em ação no seu ambiente de trabalho

 

 

Muitas jovens vêem em surfistas como Pedra verdadeiros exemplos a serem seguidos, garotos e garotas que sonham fazer do surf sua atividade profissional e viajar pelo mundo atrás das ondas perfeitas. Mas, de acordo com o atleta, nem tudo no caminho são rosas, e é preciso superar inúmeros obstáculos para alcançar o sucesso. Para crescer no surf é preciso muita dedicação, tem que estar querendo sempre evoluir, porque existem muitos surfistas excelentes competindo contra você. Também é essencial estar na vitrine, buscar sempre bons resultados para conseguir apoio dos patrocinadores. Mas mesmo assim é difí­cil, pois existem muitos bons surfistas para poucas marcas interessadas em patrocinar. Além disso, Rodrigo destaca como essencial o apoio da famí­lia para alcançar seus objetivos. Casado com Joselane e pai de Yasmim e Pedro, ele encontra na famí­lia seu porto seguro.   Eu não cresceria no surf se não tivesse muito amor ao esporte e apoio total de minha famí­lia. Desde moleque meu pai já me apoiava, mesmo quando o surf profissional ainda era um tabu por aqui. Hoje eu conto também com a minha esposa e meus dois filhos, que sempre me dão força quando preciso e me ajudam a manter o foco no surf para treinar e crescer o máximo que eu puder.

Competidor internacional, constantemente Pedra está em viagens para surfar algumas das melhores ondas do planeta, mas mesmo assim valoriza a qualidade do mar que encontra aqui em Torres. Torres tem ondas muito boas, só o inverno rigoroso atrapalha um pouco. A Ilha dos Lobos é um pico de qualidade internacional, que quando encaixa forma uma das melhores esquerdas do mundo. Grande í­cone do esporte em nossa cidade, Rodrigo é uma pessoa simples, e dá o recado para a nova geração que está começando no surf. O segredo do surf é estar focado nos objetivos, ter determinação sempre. Além disso, a gente nunca consegue nada sozinho e, para mim, ter a famí­lia por perto me deu a tranqí¼ilidade para continuar evoluindo, por isso só tenho a agradecer pelo apoio.  

   

O hipnotizante chamado de Poseidon

 

Aquele som que emana das raí­zes do planeta, o chamado incessante de Poseidon que, com seu tridente em mãos, vai orquestrando a bela sinfonia dos mares. Um maestro imprevisí­vel, seu temperamento vai coordenando os ventos e correntes harmoniosamente. Assim, formam-se pelo mundo todo incrí­veis e diferentes ondas, no vaidoso gesto em que Poseidon exibe aos meros mortais a beleza de sua criação. E seu chamado perdura, o tranqí¼ilizante som que vêm do oceano e entra em nossos tí­mpanos, hipnotizando a mente do surfista com imagens de tubos perfeitos. Neste ponto, já não há meios para resistir.    

São 16h da tarde de uma fria quarta-feira de inverno em Torres quando os deuses do mar me chamam para brincar em seu playground. O termí´metro marca 16 graus e, mesmo que o sol brilhe no céu aberto, a visão de meu velho e furado long, com seus sete anos de exaustivo uso e ainda por cima molhado pelo surf do dia anterior, me causam calafrios na espinha.   Mas eu sei que vale a pena, sempre vale. Me enfio rapidamente dentro da roupa de borracha encharcada, pego o bodyboard,   o pé-de-pato e saio correndo de casa em direção a orla. Cruzo as dunas da Praia Grande dolorosamente, enquanto roseiras vão se fincando nos meus pés sem ao menos terem sido convidadas. Estas dunas que, por sinal, cada vez mais vão se estabelecendo como um novo habitat ecológico de Torres, atraindo novos animais e formando açudes em conjunto com a vegetação nascente. Mas voltando ao surf, passo as dunas e enfim encaro a imensidão do mar, onde as ondas de até um metro parecem uma charada entregues a sorte do vento norte que sopra. Faço meu alongamento e então entro na água.

Entrar na água gelada do inverno é sempre um arrepiante desafio e, quando submerso para o primeiro mergulho, meu rosto parecer estar literalmente queimando de tanto frio. Mas eu sei que vale a pena, sempre vale.   Vou remando pacientemente rumo ao outside, enfrentando a força das ondas com os chamados joelhinhos, e aproveito os momentos de maior calmaria para avançar no perí­metro. í€s vezes o mar me parece como um cavalo selvagem, nunca se sabe ao certo se ele vai se deixar ser domado ou não. Por isso é preciso ter persistência quando ele se mostra revolto, continuar tentando vencer a série para, depois, aproveitar o prêmio deslizando mansamente nas harmoniosas curvas do oceano. Enfim alcanço o outside, e vão se descortinando sobre mim ondas com uma boa formação, melhor do que a primeira observação do alto das dunas indicava. Vem a série e dropo minha primeira onda, que vai se enrugando, ficando cada vez mais cavada. Posiciono-me para o tubo e a massa de água se dobra sobre mim, me envolvendo no seu interior em uma sincronia perfeita. Eis o tubo, momento de maior magia no surf, quando o homem e o mar se tornam uma mesma coisa, uma energia que flui de todas as coisas boas da vida. O tubo que vai rodando hipnótico, os raros segundos onde podemos ver o mundo com os olhos da natureza, enquanto o ronco do mar vibra de alegria. Não importa que a onda me engula antes do fim, que a vaca me faça virar cambalhotas e mais cambalhotas embaixo d™água. Sempre vale a pena, sempre é um novo milagre.

Mais ondas vão mostrando suas linhas para mim, enquanto eu lentamente vou sendo levado pela corrente em direção a Prainha. Dropo mais uns dois tubos suicidas, me atiro rolando contra o lip da onda para aterrisar em algum rolo. No mar, toda a desilusão é esquecida, todas as preocupação se extinguem, só existe o surfista com a sua paz, e a certeza de que Deus existe e é bom. Atrás de mim, o céu do final de tarde vai se derretendo numa aquarela com todas as cores do arco-í­ris, enquanto o surreal sol que se píµe parece uma alaranjada bola de fogo brincando de esconde-esconde com os prédios mais altos da cidade. Alguns minutos se passam, a água vai ficando cada vez mais congelante, o mar vai se encrespando.   Decido que, enfim, é chegada a hora de partir. Escolho com carinho a minha última onda do banho, pego uma direita meio cheia e vou desenhando-a com giros de 360 graus, me deixando levar suavemente pelas espumas até a orla da Prainha. Os últimos vestí­gios do dia vão se apagando, e eis que surge no céu Vênus, a Estrela d™Alva, primeira e mais brilhante estrela do firmamento, como uma bússola que vai me indicando o caminho para casa. Vou caminhando pelas areias brancas observado por aves marinhas, ouvindo a apaziguadora voz do oceano e com aquela ótima sensação de dever cumprido, a própria consciência se alegra. Porque valeu a pena, o surf sempre vale í  pena.              

 


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