O ADEUS DO DIRETO DA TORRE – Generoso Rezende Lacerda, 1927-2010

29 de outubro de 2010

Generoso Rezende Lacerda, meu pai, autor da coluna Direto da Torre, d™A Folha, faleceu no domingo, 17 de outubro. Sei que a tristeza pela perda do neto, meu querido filho Filipe, acelerou a partida do RZ, como ele é carinhosamente chamado pela famí­lia. Aos 83 anos, após uma vida de aventuras, dificuldades e vitórias, o RZ nos deixa uma saudade que é ainda difí­cil de suportar.  

 

 Meu pai era um otimista, embora suas colunas revelassem um estilo de humor crí­tico. Ele perdeu o pai com 15 anos, quando estavam de partida para transportar gado nas rotas do Oeste Paulista e Triângulo Mineiro. O velho Lacerda sofreu um ataque cardí­aco fulminante e caiu agonizante do lombo do cavalo. Para mim, meu aví´ surge como uma herói mí­tico, que ganhava a vida recolhendo gado selvagem em Mato Grosso, no iní­cio do século XX. Após a perda do pai o RZ passou temporadas em casas de parentes até que seu irmão Roque foi para São Paulo e ele conseguiu entrar para a Força Aérea Brasileira, ainda em formação. Para quem fez Madureza Ginasial em Uberaba, foi um feito e tanto, e o iní­cio de sua trajetória intelectual. RZ dirigiu seus estudos para telecomunicaçíµes, sendo treinado nos programas de cooperação que os americanos implantaram í s pressas no Brasil, no final da Segunda Guerra. Após uma temporada trabalhando no Nordeste, veio servir no sul, onde encontrou uma linda gaúcha. Ele e Edith, minha mãe,   se casaram em Porto Alegre, em 1958. Minha irmã Karin e eu nascemos na Vila Militar da Aeronáutica, em Canoas. Em 1962 o RZ foi transferido para o Centro Técnico Aeroespacial (CTA), para cursar engenharia no ITA, em São José dos Campos, SP. Minha irmã caçula Anahi nasceu neste perí­odo.

 

No final dos anos 60, durante sua carreira na FAB, o RZ foi autor de vários artigos e apostilas. Organizou o programa de ensino do Serviço de Rotas e Proteção ao Ví´o, e seu trabalho pioneiro é a base do que ainda hoje é utilizado sobre segurança de ví´o na formação de profissionais no setor aeronáutico. No iní­cio dos anos 70 realizou estudos sobre o ILS (Instrument Landing System), o sistema de aproximação e pouso por instrumentos. Lembro que em 1972, após meses nos Estados Unidos, ele voltou empolgadí­ssimo com o que seria uma nova era na aproximação dos aeroportos. Meu interesse por tecnologia foi motivado por ele, que dedicou horas me explicando conceitos executados com grande sofisticação na eletrí´nica analógica e um grau de precisão dificil de imaginar fora das arquiteturas digitais que dispomos hoje.

 

Durante o perí­odo do ITA, ainda nos anos 60, o RZ se interessou por Direito. Com seu jeito envolvente acabou convencendo a Edith (que já era formada em jornalismo pela PUC-RS) e os dois iniciaram o curso em São José dos Campos. De volta a Porto Alegre, se formaram na turma do Direito da UFRGS de 1968. Nos anos 80, após a aposentadoria da Aeronáutica e a aquisição de uma casa de veraneio em Xangri-lá, o RZ decidiu morar no litoral e estabeleceu um escritório de advocacia em Capão da Canoa. Estudioso e interessado pelas raí­zes do Direito Romano,   nunca teve muita paciência para realmente clinicar. Acabou por abandonar a prática da advocacia após poucos anos.

 

Em 2001, em uma viagem í  Flórida, visitamos o Centro Espacial Kennedy. Passamos horas em plataformas de lançamento, salas de controle do programa Apollo, e laboratórios da Estação Espacial Internacional. Lembro do seu interesse e de suas explicaçíµes, que cobriam desde aspectos de engenharia até sua interpretação antropológica da importância dos programas da NASA para a humanidade. Ali, uma vez mais, me dei conta do enorme privilégio de ser filho dele e de compartilhar alguns de seus momentos inspirados.

 

A última paixão do RZ foi por Torres, que ele descobriu há cerca de 10 anos atrás quando adquiriu um apartamento no La Tour (a   Torre), na margem do Mampituba. Das janelas do 11 º andar da Torre o RZ recuperou uma perspectiva que o encantava na infância, quando convivia com os vastos horizontes de seu amado Brasil Central. De lá observava o nascer e o pí´r do sol, a sucessão das estaçíµes, o chegar e partir dos veranistas. Ali, o RZ e a Helena, sua companheira dos últimos anos, planejaram incrí­veis viagens. Foram de carro para Bahia, Mato Grosso, Chile, Argentina, e inúmeras vezes para o Oeste Paulista e Minas. Fizeram o mapeamento da Serra do Rio do Rastro, e fotos da dupla acabaram sendo incluí­das no Google Earth. Para quem começou como operador telegrafista em ví´o, transmitindo em código Morse da cabine de um bombardeiro B-24, a vida do RZ é quase uma narrativa da história da tecnologia. Da Torre o RZ compunha suas matérias para A Folha.   E ali ele foi feliz, mais uma vez.

 

Na madrugada do dia 17 o RZ cumpriu sua metáfora definitiva: ele dizia que um dia iria atravessar o Mampituba, iniciando sua jornada rumo a eternidade. Ele agora descansa em Comendador Gomes, uma cidade mineira, berço da famí­lia Rezende, bem ao norte do Mampituba. Nós que conhecemos o RZ sabemos que ele está além, em algum lugar do Universo, explorando novos horizontes, louco para dividir conosco suas mais recentes descobertas.

 

       Marcelo Lacerda    


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