Fé: crer faz bem?
4 de dezembro de 2010
Nos últimos anos, estudiosos têm se analisado os efeitos da fé para compreender como a espiritualidade pode oferecer apoio nos momentos difíceis, ou também nos alienar e prejudicar. O termo religião tem origem no latim religo “ ligar junto ou religar -, uma expressão que subentende tanto a relação entre a pessoa e uma entidade sobrenatural quanto a proximidade entre aqueles que praticam um mesmo culto.
A crença religiosa pode funcionar com o um organizador psíquico, embora exista o risco de instituiçíµes, dogmas e rituais exageradamente rígidos favorecerem o oposto: confusão, fanatismo e adoecimento mental. Por outro lado, a fé também pode contribuir para estabelecer a coesão social e estimular comportamentos altruístas. Em alguns casos, a adoção de uma religião pode provocar grande angústia, porque algumas crenças propíµem modelos de comportamento fortemente baseados nas noçíµes de culpa e punição. Os mandamentos ditados pelas diversas religiíµes, muitas vezes adquirem um ideal de conduta rigoroso, quase que inatingível, sobre humano, contribuindo para criar uma tensão ética. Não é desejável para um cristão, por exemplo, sentir raiva, inveja, ciúmes, ou seja, ter sentimentos humanos, que em algumas crenças de caráter mais rígido devem ser combatidos, afastados da mente, por isso geradores de culpa e necessidade controle através de rituais obsessivos e repetitivos, ou até com autofragelamento.
A nossa tradição ocidental judaico-cristã acentua o erro, a falha humana, a marca do pecado. Na abordagem psicanalítica, em geral, tenta-se relacionar a vivência religiosa, o significado atribuído í Deus, sua autoridade, como representantes da autoridade das figuras parentais: punitivas, vingativas, ou de amor, ordem e limite. Ou seja, Deus pode assumir diversas facetas: a de um ser benevolente e amoroso, que leva ao perdão, ou de uma divindade severa e violenta. Já na linha cognitivista, entende que a religião pode produzir uma vasta gama de efeitos, contribuindo para tornar os indivíduos felizes, amigáveis e cooperativos; ou infelizes, isolados e até mesmo radicais, hostis perante aqueles que não pertencem ao seu grupo.
No ensaio O futuro de uma ilusão, de 1927, Freud diz que a religião surge da fragilidade humana e do reconhecimento, por parte do homem, de que é indefeso frente í s forças naturais e aos próprios anseios, que tantas vezes não compreende. Abraham Maslow descreve a tendência do homem a viver experiências transcendentais, de caráter religioso. Especialistas concordam que, qualquer que seja a fé, a inflexibilidade e a impossibilidade de considerar e respeitar outras crenças podem ser nocivas. Eles acreditam que algumas pessoas também entram na vida religiosa com conflitos psicológicos não-resolvidos, que se manifestam, por exemplo, na obsessão por servir aos outros, em dificuldade para lidar com impulsos sexuais e na dependência química.
Mas afinal, a religião, a fé, faz bem? Podemos dizer que depende mais de quem a segue e de como é praticada. Ela é desejável não só como uma crença religiosa, mas imprescindível na vida, ou seja, acreditar, confiar no ser humano, em si mesmo, na esperança de um mundo melhor, na bondade, no amor, na felicidade. Assim diz a música:. … fé na vida, fé no homem, fé no que virá, nós podemos tudo, nós podemos mais…!


