GUARITA: Só não frequenta quem não quer

12 de março de 2011

 

 

 

 

Está para acontecer aqui em Torres um evento que trará para a cidade alguns pioneiros da prática do surfe no Estado e no Brasil, pioneirismo realizado aqui em Torres, nas décadas de 1960, 70 e 80. E a praia que foi referência nestes idos foi a Praia da Guarita. Até uma comunidade na rede social Facebook foi criada em paralelo para dar um jeito de reencontrar protagonistas da época. Fotos são publicadas, textos são compartilhados e até poesias reverenciando Torres e a Guarita são postadas.      

Naturalmente algumas pessoas dizem com certeza absoluta que a Praia da Guarita não é mais a mesma. Crí­ticas e teorias são também disponibilizadas talvez para de certa forma criar uma desculpa para o abandono da praia pelos freqí¼entadores tradicionais. E a falta de cuidado público com a praia entra no cardápio. A FOLHA foi í  Guarita na última terça-feira (8). O olho clí­nico da reportagem busca colocar adiante as reclamaçíµes de antigos veranistas da praia e colocar em paralelo a situação atual do maior cartão postal do litoral sul do Brasil: a Praia da Guarita, hoje um Parque de Turismo Estadual.

   

Pequeno histórico

   

A Guarita era uma área especial da cidade de Torres para a implementação do turismo local. Era gerenciada pela administração municipal, que a tratava como mais uma praia a ser preparada para o veraneio. Até a metade da década de 1970 passada, o local era virgem. Os morros das três torres eram cercados de dunas de areia baixas. A prefeitura há época tratava tão somente de manter uma estrada que ligava o centro da cidade ao local e de cuidar da acessibilidade aos morros cobertos de grama natural. Para isto mantinha cabritos pastando nos mesmos, que tratavam de deixar a grama aparada. Um campo de golfe foi improvisado no local, em cima da Torre das Furnas. Este campo ajudou para que mais veranistas de Porto Alegre elegessem Torres como sua praia de veraneio lá pela segunda metade da década de 1950. O campo foi desativado em seguida por falta de recursos para mantê-lo.  

Nas décadas de 1960 e 1970, a praia foi a eleita para a freqí¼ência principalmente í  tarde. Muitos veranistas iam para lá para desafiar as ondas grandes que se formavam naquela praia. A beleza natural era outro atrativo. E a freqí¼ência da praia da guarita foi aumentando. Foi quando surgiu o surfe.   Famí­lias trouxeram para a praia o esporte que surgia em ní­vel mundial e o chame da Guarita aumentava, levando para lá campeonatos locais que conseguiam juntar público da várias localidades do Brasil para assistir as manobras dos corajosos surfistas, que em suas pranchas grandes desafiavam os perigos de surfar entre pedras e perderem suas pranchas em pleno alto mar, pois anda não tinham inventado a corda protetora, que segura a prancha quando os esportistas a perdem.  

Com a criação do Parque da Guarita, transformado em patrimí´nio Turí­stico do Estado do Rio Grande do Sul, na segunda metade da década de 1970, a formação da ondulação  do mar mudou um pouco. Surfistas que presenciaram as duas fases da praia são quase unânimes em afirmar que as ondas diminuí­ram em tamanho e mudaram o formato, embora ainda exista muita gente que pratique surfe por lá até os dias de hoje. A única mudança visí­vel que ocorreu foi í  transformação da área de dunas baixas localizada na parte oeste do morro das furnas em vegetação alta, o que pode ter influenciado no vento Nordeste, que quando corria mais solto, funcionava como vento Terral (de frente para as ondas) o que para os surfistas é o maior prêmio para a formação de ondas, principalmente para a formação dos chamados Tubos.

 

 

 

 

   

  Natureza ou Jardim?

   

O paisagista Burle Max foi contratado pelo governo do RS para executar uma obra de implementação de um jardim no parque de preservação turí­stica. Logo após foi contratado também o ecologista José Lutzemberger para tocar o local.   Especulaçíµes há época deram conta que houve confrontamentos conceituais entre os dois técnicos.   Mas o certo é que o atual parque da Guarita não é uma obra preservacionista por completo,  e também não ficou um jardim planejado. Talvez tenha ficado no meio dos dois conceitos.  

Os morros atualmente são deixados naturais. A não presença das antigas cabras, que faziam o papel de deixar a grama baixa,  fez com que os antigos gramados de transformassem em matas baixas, com sua concepção natural. Até espécies novas de animais têm aparecido por lá, voltando í  localidade por ela estar preservada. As trilhas abertas percorrem os morros no meio da vegetação, deixando o local mais natural que antigamente, que mais parecia um grande gramado.  

Já a parte baixa do parque efetivamente foi transformada. O conceito de paisagismo sugerido por Burle Max foi mantido pelo ecologista Lutzemberger, o que na prática  se  tornou uma área criada, embora seja formada atualmente por espécies de vegetação local.   Dunas baixas que lá existiam foram primeiramente transformadas em um imenso jardim e, após, em uma área de preservação de vários ecossistemas existentes no entorno do parque, que, é claro, sobrevivem atualmente por serem nativos.      

Para o surfe a para a beira de praia, a transformação acabou influindo em tudo. O vento nordeste não chega baixo na formação da ondulação do mar por conta da vegetação de porte médio que lá cresceu;  e a beira de praia tem pouca areia provavelmente por conta da saí­da das dunas do local e da corrente de água que as áreas de mata proporcionam para que o fluxo das chuvas chegue ao mar. Antes, com as dunas, a areia permeava as águas das enxurradas.

 

   

Manutenção está perfeita e com conceito preservacionista

 

 

 

 

 

 

 

   

O atual Parque Estadual da Guarita é gerido pela prefeitura municipal de Torres. O sistema funciona no formado de Convênio entre a secretaria de Turismo do RS e a municipalidade da cidade, que gerencia o Parque através da Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Desde sua criação, no final da década de 1970 passada, até hoje, o parque já  trocou de mão  no que diz respeito ao seu gerenciamento, entre o  Estado do RS e da Prefeitura de Torres. Nos últimos anos está sob a responsabilidade da municipalidade torrense, que assumiu novamente sua gestão em 2005, após ter perdido este direito no ano de 2004, por falta de cumprimento de cláusulas do convênio com o Estado.  

Em 2004, o furacão Catarina destruiu o restaurante que lá existia desde o projeto inicial idealizado por Burle Max e Lutzemberger. Atualmente a prefeitura municipal de Torres já possui empenhadas verbas para a construção, já iniciada  no mesmo local,  de um bistrí´ e uma espécie de Museu do Oceano. A previsão é que no final de 2011 esteja pronta a nova estrutura turí­stica para a localidade.  

 O conceito implementado no parque em sua gestão é o de preservação dos ecossistemas naturais, com intervençíµes pontuais para o uso turí­stico. Isto proporciona, ao mesmo tempo, que os visitantes conheçam ecossistemas da região intactos e usufruam dele através de trilhas orientadas.

Uma das mazelas enfrentadas pela administração do parque é a falta de aparato de segurança local durante o inverno. No verão o problema está resolvido: existem guardas espalhados pelo parque, o que minimizou a falta de segurança local. Já no inverno esta mesma segurança não existe. Há registros de assaltos feitos no parque por conta de sua proximidade com bairros pobres da cidade, ocupados na maioria por invasores.  

A infraestrutura de usufruto turí­stico atualmente é quase que perfeita.   A cobrança de ingresso dos  automóveis que lá entram fez com que houvesse uma limitação de visitantes. Os que lá vão são os que efetivamente valorizam as belezas e as possibilidades várias disponibilizadas  do complexo para o lazer. A praia é limpa, com pouca densidade de pessoas na faixa de areia, e a estrutura gastroní´mica é razoável. Dois quiosques de beira de praia e um a lancheria completa no estacionamento conseguem facilmente suprir a demanda dos visitantes.

 

 

 

 

   

Não vai quem não quer

   

Atualmente não existe desculpa coerente para que pessoas não freqí¼entem a Praia da Guarita no veraneio, fase de maior procura,  em seu conceito de pegar praia. A distância do centro é uma barreira atual, mas que já existia antigamente.  Para os surfistas, talvez o tamanho e o perfil das ondas tenham efetivamente mudado. Mas ainda existem boas ondas por lá.    

Os que reclamam da falta de manutenção estão errados. O local está limpo, civilizado e as opçíµes de contemplação estão ainda mais seguras. A prefeitura de Torres reformou as estradas de concreto de acesso í s furnas; mantém atualmente escadas que dão acesso í  torre sul, propiciando que se alcance seu topo com segurança; e mantêm as trilhas ecológicas trafegáveis, inclusive proporcionando guias para os que não conhecem o local.    

Os torrenses tradicionais que freqí¼entavam a praia nos idos do desbravamento do surfe poderiam estar lá, todos os dias. Basta quererem.

 

 

 

 

       


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