Maté ria especial – O Brasil que os jovens vêem

25 de junho de 2011

Por Guilherme Rocha

       

  Analisar a juventude é analisar nossa época pelo viés da transformação, e simultaneamente pensar no futuro que nos aguarda. O jovem brasileiro representa alguns dos anseios mais urgentes por mudanças, mas muitas vezes esse sentimento torna-se reprimido pela falta de atenção e incentivo de outros extratos da sociedade quanto ao potencial revolucionário da juventude. O caráter de indecisão também é inerente nesta fase da vida e, valendo-se do atual contexto de relaçíµes sociais globalizada, torna-se importante buscar uma sí­ntese da mente jovem.

   

  A pesquisa

   

  O estudo "O Sonho Brasileiro", divulgado neste mês, entrevistou cerca de três mil jovens de 18 a 24 anos de todo o paí­s e de todas as classes sociais, procurando dar um panorama das expectativas da juventude para o futuro. Trata-se de uma pesquisa sem viés de consumo ou fins lucrativos, visando ouvir esta nova geração global de brasileiros para compreender quais são seus valores, a forma com que enxergam o paí­s e os papeis que se propíµe a desempenhar nele.  

  Entre diversos dados, o maior desejo de 55% dos jovens brasileiros quando se fala de trabalho é ter a profissão dos sonhos. Nove em cada dez afirmaram que gostariam de ter uma profissão que ajudasse a sociedade. De acordo com a pesquisa, a possibilidade de construir uma carreira é o aspecto mais importante, seguido intenção de ter a carteira assinada. Ambos os itens se sobressaem mais do que salário e encontrar uma profissão com perfil de futuro.  

  Além disso, o estudo indica que 89% dos jovens têm orgulho em serem brasileiros e 75% acreditam que o Paí­s está mudando para melhor. Quando o assunto é educação, os participantes pensam que o diploma ainda é muito atraente e importante. Dentro dos 79% que não estão no ensino superior, 77% têm intenção de cursar.  

  Para 81% dos jovens analisados, as tradiçíµes populares e familiares têm tanta importância quanto í  escola na difusão do conhecimento. Esta nova geração já não vê muito sentido em acumular sozinho o conhecimento, pois se este fica estagnado perde o seu valor. Entretanto, os dados apontam que os jovens acessam grande parte do conhecimento de maneira informal, especialmente pela internet. 82% dos entrevistados esperam que escolas e universidades valorizem mais as experiências que trazem de suas vidas privadas.

   

  O que pensam os jovens

 

 

           

                    Anthony sonha em servir ao exército

   

  Lí­sia tem 19 anos, e atualmente é secretária no curso de idiomas Wizard. Ela teve de trancar a faculdade temporariamente, para continuar trabalhando. "Eu não tinha tempo suficiente para conciliar meu curso de fisioterapia com meu trabalho. A universidade tem aulas durante os três turnos, o que complica a vida de quem depende de um emprego".   Lí­sia, que não mora mais com os pais, pensa que é muito complicado para o jovem brasileiro ter uma vida independe enquanto cursa a faculdade, mas mesmo assim deseja finalizar seu curso de fisioterapia para fazer o paí­s melhor a sua maneira. "Acho que o Brasil ainda tem muito que crescer, e questíµes como o preconceito ainda são um grande obstáculo na relação entre as pessoas. Acho que falta coragem da população para mudar, fazer diferente e aceitar as diferenças", conclui a jovem.  

  Para a estudante Larissa Tages, 17 anos, o sonho passa por um intercâmbio no exterior. "Eu considero muito importante viver em outro paí­s, uma experiência que faz crescer possibilidades e visíµes de mundo. Aprender novos idiomas, novas culturas e ampliar os conhecimentos fazem da vida mais interessante". A estudante, que também é estagiária na Caixa Econí´mica Federal, pensa inclusive na possibilidade de cursar faculdade no exterior, mesmo sabendo do desafio que isso implica. Ainda assim, Larissa considera o Brasil um paí­s com futuro. "Se um dia tiver filhos espero que eles cresçam no Brasil, que apesar de ser um paí­s com muitos problemas a serem solucionados, continua sendo minha terra e um lugar lindo" finaliza.    

  Anthony Felipe da Silva é um exemplo da garra brasileira. Começou a trabalhar aos 12 anos. Hoje, com 17, é gerente de garçons no restaurante Sabor Praiano. "Não me formei ainda no Ensino Médio, tive que largar os estudos para trabalhar. Mesmo assim hoje moro sozinho, tenho minha independência, aprendi a me virar sem problemas. Não que a escola não seja importante, eu inclusive ainda pretendo me formar. Mas a escola não ensina tudo" O jovem indica que hoje tem um estilo de vida mais confortável, mas considera difí­cil a situação do Brasil, onde muitas pessoas têm que sobreviver apenas com o dinheiro de um salário mí­nimo. "O custo de vida é muito alto e faz com que algumas pessoas se preocupem muito com o dinheiro, mas para mim dinheiro não é felicidade". Anthony acredita que o Brasil está mudando para melhor, sonha em servir ao exército e diz que tem se preparado para isso. Mas ele não busca o exército pelo dinheiro ou por uma carreira estável. Ele quer ser militar pela adrenalina, e para fazer algo pelo povo.

 

 

     

            Larissa deseja fazer um intercâmbio no exterior

   

  Curso superior é diferencial quase indispensável num mercado competitivo. í‰ a opinião do estudante de direito da ULBRA Torres Jairo Pereira Valim, 21 anos. "O processo de formar-se na universidade prepara um especialista para uma determinada profissão e abre portas para um emprego. Mas, neste caminho, vale ressaltar a importância dos contatos, que são quem facilitam os caminhos". O universitário, que é de Três Cachoeiras, s deseja advogar quando se formar, trabalhar em favor da lei. Ele considera necessário estagiar como forma de aprendizado, mas reclama que as remuneraçíµes. "O perí­odo da universidade algumas vezes é difí­cil, mas sei que valerá a pena. Será a chave para conseguir o trabalho que quero, além de me formar como profissional qualificado em minha cidade".  

  "Por alguns anos corri atrás do meu sonho de ser publicitário. Fiz faculdade, estágios, me esforcei o quanto pude para arranjar um emprego. Mas o mercado de trabalho é muito agressivo, muitas vezes é necessário prostituir os próprios ideais para se inserir dentro dele. E isto é o que, de certa forma, eu estou fazendo agora". Essa é a opinião de Rodrigo Laefer, 27 anos, natural de Caxias do Sul e morando há três meses com a namorada em Torres, enquanto estuda para concursos públicos. Formado em publicidade, o jovem se cansou da má remuneração e dos poucos trabalhos em sua área, e em troca disso busca uma carreira estável. "Particularmente eu não me sentiria tão feliz sendo servidor público quanto sendo publicitário, mas este é o jeito para se ter um salário digno sem se preocupar com demissíµes. Hoje em dia faculdade já não garante emprego" indica Rodrigo, que alertas aqueles que buscam curso superior baseado na profissão dos sonhos. "Ainda acho que a pessoa deve estudar algo que goste na universidade, mas também é bom fazer uma pesquisa antes, para ver como está o mercado de trabalho para a profissão desejada. Por mais que seja bonito, infelizmente não há mais muito espaço para ideologias, o jovem hoje é quase obrigado a se enquadrar no sistema, sob o risco de ser marginalizado. Se tivesse que escolher hoje, faria um curso técnico para alguma área onde saiba que exista abundância de empregos", finaliza Rodrigo.

 

 

         

Lí­sia trancou a faculdade para trabalhar, mas pretende ainda

 concluir o ensino superior

     

  Análise psicológica

   

  Em uma conversa com as psicólogas Adriana Kessler e Valéria Flores Cruz, foi posto em pauta o conformismo da juventude em relação ao mundo atual. "O idealismo é menor do foi visto em geraçíµes passadas. O jovem não se motiva mais a combater os problemas do mundo, se sente acanhado em um sistema onde o consumismo é quem comanda", é o que indica Adriana, destacando ainda o individualismo latente dos jovens, que são estimulados pelos meios de comunicação a pensar mais em si mesmos do que num contexto social. "Os meios de comunicação se baseiam na sociedade de consumo, cujo objetivo principal é tornar o espectador num comprador, ao invés de um observador. Os meios são ainda por cima responsáveis pelo filtro das notí­cias, e muitas vezes escondem do público informaçíµes importantes, que seriam vitais para a formação de um olhar mais crí­tico do jovem em relação í  sociedade".  

  Valéria concorda com o ponto de vista de Adriana, e ressalta ainda as consequências de um mercado de trabalho tão competitivo na vida dos jovens. "Boa parte da juventude atual se vê extremamente preocupada com o futuro profissional. Por isso que as possibilidades da pós-graduação vêm se difundindo, fazendo com que o formando tenha um diferencial curricular ainda maior na busca por um emprego".  

  Enfim, a juventude brasileira é um retrato do povo brasileiro, se constituindo num mosaico de conhecimentos, formaçíµes e anseios diversos. Os sonhos nunca são os mesmos, cada jovem lutando para conquistar o seu espaço na sociedade de acordo com as possibilidades que a vida lhe proporciona. Os caminhos até a consolidação de um espaço na sociedade muitas vezes são difí­ceis ou tomam rumos inesperados, mas o importante é não desistir, lutar sempre pelo que se deseja. Ainda que o paí­s venha crescendo e renovando esperanças, é necessário manter a luta pelos ideais, a sede por mudança, pois temos muito que evoluir ainda quanto nação até que as desigualdades tenham fim e as injustiças sejam desmascaradas.

         


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