Por Guilherme Rocha
Uma prova de sobrevivência interessante para um ser – humano contemporâneo: um dia sem eletricidade. O que se faz quando todas as lâmpadas estão apagadas, a televisão desligada, sem energia para computadores, ar-condicionado, microondas, secadores de cabelo. Somos uma civilização viciada em eletricidade. Estamos tão acostumados a acionar interruptores, ter as vantagens dos elétrons fluindo em uma rede invisível que se estende por quase todo lugar, que hoje nem pensamos muito mais no quanto nossa vida está ditada por essas facilidades.
Nesta última segunda-feira (27), dia de frio intenso e forte vento, uma boa parte da Zona Norte d da capital do RS Porto Alegre ficou sem luz por causa do mau tempo, das 14h í s 21h. Na opinião da dona de casa Maria Dolores da Cunha, 68 anos, a experiência é um momento para reflexão. "í‰ engraçado como tudo fica mais silencioso sem a televisão ligada na sala, ou o rádio do meu marido tocando no quarto. Mas por um lado foi bom, pois a falta de luz deu a oportunidade de que eu e meu marido conversássemos mais, mesmo que seja só por um dia". Para Maria Dolores, o problema de ficar sem eletricidade foi a falta de ar-condicionado em um dos dias mais gelados do ano até agora, com termí´metros marcando 3 graus no começo da noite. "Para nós que somos mais velhos e temos a saúde debilitada, ficar sem o ar-condicionado num frio desses pode ser até perigoso para a saúde. O jeito foi fazer uma sopa bem quente e comer enrolada nos cobertores" finalizou a dona-de-casa.
O sistema de geração e distribuição elétrica é o verdadeiro milagre da civilização moderna, amparada pela tecnologia ultra-avançada que nos trouxe ferramentas desconcertantes, desde o televisor de plasma ao iPod. Entretanto, este é um advento muito recente na história humana, incorporado í sociedade por meio do trabalho de Thomas Edison. A primeira cidade do mundo a ter uma rede elétrica foi a Nova Iorque de 1882, e a luz ainda está ausente para uma parcela significativa da população mundial nos dias de hoje, seja por isolamento geográfico, pobreza ou opção consciente. Mas num contexto de dependência tecnológica, em uma metrópole como Porto Alegre, com seus 1,4 milhíµes de habitantes, ficar sem luz pode gerar um grande caos.
Marcelo Tumelero é o administrador financeiro da empresa ísia Link Comércio Internacional, que também parou pela falta de luz nesta segunda-feira. "Foi um dia onde não havia meio de comunicação com nossos clientes, um dia praticamente sem atividades. Aproveitei para organizar minha mesa, botar em ordem alguns assuntos que independam da internet ou do telefone". Para Marcelo, trata-se de um dia atípico, que serve como teste para as capacidades de adaptação ante um estilo de vida a qual já estamos tão acostumados, onde a eletricidade esta tão presente. "Nos mais de dois anos que trabalho na empresa, me lembro de apenas de umas duas ou três situaçíµes onde faltou luz. Não é algo que ocorre muito, mas quando acontece interfere diretamente na vida de uma cidade grande. O trânsito, por exemplo, estava uma confusão com as sinaleiras sem luz, e as chances de algum acidente ocorrer são maiores dessa forma". Veranista de Torres, o administrador pensa que a falta de eletricidade num município menor também seria um grande incí´modo, mas que no contexto frenético de uma metrópole como Porto Alegre, esse incidente é sentido de forma mais estressante.
Experiência própria
O dia sem luz acabou sendo uma experiência diferente para mim também. Cheguei em casa í s 16h, e a falta de eletricidade me fez trocar o computador por um livro. Por pouco mais de uma hora fiquei entretido pela leitura, acompanhado do chimarrão e do pí´r-do-sol que entrava pela grande porta da varanda, dando uma colorida tonalidade ao frio do final de tarde. Lentamente foi caindo a noite, enquanto amigos chegam com algumas cervejas para me fazer companhia. A luz do sol já havia quase expirado, acendemos algumas velas e começamos a preparar a lareira. Em cerca de 10 minutos a lenha já estava queimando, as chamas iluminando a sala. Sem eletricidade, o fogo da lareira torna-se o centro das atençíµes, iluminando, aquecendo e servindo de entretenimento ao ambiente. O tempo ia passando, enquanto muita conversa fluía e as garrafas de cervejas se esvaziavam. Com o aparelho de som compulsoriamente desligado, a musica natural ficava por conta do violão e dos bongí´s. Assim, independente da falta de eletricidade, foi-se conduzindo a noite de forma divertida até que, por volta das 21h, a luz voltou.
Nos dias de hoje, a falta de luz elétrica acaba sendo uma volta í s raízes do ser – humano, de tempos tão simples que hoje parecem pré-história. Nossa dependência por eletricidade assume tal ponto que a vida sem os aparatos proporcionados pela geração de energia torna-se quase insustentável. Em tempos onde a comunicação está tão articulada a partir da internet, onde cada esquina tem seu poste gerando luz e os semáforos organizam o trânsito, onde o entretenimento e conforto estão vinculados ao aperto de inúmeros botíµes, o governo deve agir para que este momento atípico de falta de eletricidade torne-se cada vez mais atípico. Mas ao mesmo tempo, um dia sem luz é uma boa oportunidade para perceber que estamos nos tornando cada vez mais ligados aos luxos da tecnologia, e í s vezes esquecemos que existem muitas coisas boas no mundo que não esta ligada em uma tomada.


