Dando continuidade a coluna da semana passada sobre aspectos da, então, Vila de São Domingos das Torres extraídos de um antigo livreto (de 1911) resgatado de seu anonimato ou esquecimento. Aí estão alguns fatos interessantes:
Indústria: A principal atividade industrial era a produção de aguardente de cana-de-açúcar. Também se produziam açúcar e rapaduras, tudo de forma artesanal, sem auxílio de máquinas. Quase toda a produção — cerca de 3.000 pipas — era enviada para Porto Alegre e para a serra gaúcha.
Aguardente e dificuldades: A vida dos produtores de aguardente não era fácil. Entre 1904 e 1906, uma grande seca assolou a região. Logo depois, entre 1906 e 1908, uma praga de gafanhotos invadiu os canaviais. Soma-se a isso os altos impostos estaduais. Sobrevivência era para os fortes.
Chapéus: Achei um dado interessante, o chapéu de palha de butiá fazia parte da atividade econômica da época, estava até na estatística. No ano de 1909 foram exportadas 84 dúzias do chapéu de palha de butiá para a capital do estado.
Guarda Nacional: Por decreto do governo da União, em 4 de novembro de 1901 foi criada a 27a. Brigada de Infantaria da Guarda Nacional, composta por três batalhões da ativa e um da reserva. O cidadão João Pacheco de Freitas, foi nomeado para comandá-la no posto de coronel. E assim surgiu o nome Cel. Pacheco, que hoje conhecemos como rua em nossa cidade.
Comércio: O comércio local era modesto, com estabelecimentos que vendiam gêneros de primeira necessidade. A feira semanal reunia moradores das zonas rural e urbana, fortalecendo o vínculo entre os produtores e a população.
Cultura: Culturalmente, a vila mantinha festas religiosas, como a de São Domingos, e algumas atividades recreativas. O teatro era raro, mas em algumas ocasiões peças eram encenadas na sede da Câmara ou em salões improvisados.
Portos, Navegação e Comunicações: Torres possuía um pequeno porto natural, utilizado para desembarque de mercadorias e embarque de produtos da terra, como couro e charque. A navegação era limitada, dependendo do clima e das condições do mar. A comunicação com outras regiões era feita por via terrestre, por caminhos de tropeiros, e por correspondência levada a cavalo até cidades vizinhas. Os rios Mampituba e Verde faziam parte da paisagem e eram navegáveis em pequenas embarcações. Serviam como rota para o escoamento da produção e para a pesca.
Fauna e Flora: A fauna da região era rica e variada: tatus, veados, capivaras, lontras e uma diversidade de aves silvestres habitavam os campos e matas próximas. Era comum encontrar tamanduás-bandeira e, nas zonas mais afastadas, até mesmo onças. A flora se caracterizava por mata atlântica densa nas encostas dos morros e restingas nas áreas de planície. Espécies como figueiras, caneleiras, araçazeiros, butiazeiros e pinheiros-do-paraná dominavam o cenário natural, ao lado de flores silvestres como bromélias e orquídeas.
Acidentes Geográficos: O principal acidente geográfico da região era o conjunto de morros conhecido como Torres — os penhascos de pedra que deram nome à vila. Entre eles, destacavam-se a Torre Norte, Torre Sul e a Torre do Meio, todas de formação basáltica, margeando o mar. Também havia o Morro do Farol, utilizado como ponto de observação.
Costumes e Vida Social: A vida social era simples e girava em torno das festividades religiosas, da igreja, da escola e das reuniões na Câmara. As famílias se reuniam em mutirões de colheita, casamentos e batizados. A música vinha de violas e acordeões, e os bailes aconteciam ao som de polcas, valsas e modinhas.
Gastronomia e costumes: A alimentação era baseada em produtos locais: milho, feijão, mandioca, carne seca, peixe e frutos nativos. O chimarrão era presença constante nas rodas de conversa, sendo tradição herdada dos povos indígenas e dos tropeiros. A hospitalidade era marca registrada dos moradores da vila, que mantinham laços fortes com suas famílias e vizinhos.
Se o leitor, como eu, gosta de escavar as camadas do tempo e imaginar a cidade em outras épocas, este tipo de documento é um verdadeiro mapa do tesouro. E, graças à iniciativa de pessoas como Tommaso, agora está ao alcance de todos. Que outras relíquias ainda nos aguardam nas estantes empoeiradas ou nas gavetas do esquecimento?
A trajetória histórica da vila de Torres revela um território marcado pela persistência de seus habitantes, pela beleza natural de suas torres basálticas e pela força de uma cultura construída entre o mar e os campos. O passado, aqui resgatado em linguagem atualizada, mostra como os primeiros gestos de organização social, religiosa e política foram fundamentais para consolidar uma comunidade que ainda hoje preserva suas raízes. Conhecer essa história é compreender a alma de Torres: um lugar onde a natureza e a memória convivem em harmonia.
Fonte: https://redeculturatorres.org/2023/09/05/memoria-historica-estatistica-e-geographica-do-muncipio-de-torres-1911/#memoria-historica-estatistica-e-geographica-do-muncipio-de-torres/46/.
