O Moto Beach, as polêmicas e a liberdade de expressão

22 de novembro de 2011

 

Por Guilherme Rocha

   

                      Não vivemos mais numa ditadura. Somos livres para nos manifestar, dizer o que pensamos sobre o mundo. Por trás dos personagens que criamos para nos mesmos em nossos trabalhos, em nossas famí­lias e com nossos amigos, definimos um modo de pensar que é só nosso, e fortalecemos a capacidade de estabelecer uma opinião sobre os mais variados assuntos. E por mais que o senso comum estabeleça regras e valores sobre aquilo que é considerado o certo ou o errado, muitas vezes não concordamos com aquilo que é imposto pelas leis da sociedade, queremos mudar. O Moto Beach e os motoqueiros são uma homenagem a liberdade do ser-humano, e a FOLHA esteve no evento não apenas para falar sobre motos e turismo, mas também para conversar com as pessoas e retratar opiniíµes livres sobre questíµes que causam polêmica na sociedade e em nossa cidade.

       

A paixão pelas motos

 

Pilotar uma moto para mim é sentir ao máximo a independência e liberdade. Pegar uma estrada e ter o controle do destino em alta velocidade sobre duas rodas é uma sensação inexplicável. Já viajem pela Argentina, Uruguai, Chile, Paraguai e por muitos lugares com essa minha moto, que já tenho fazem seis anos. E sempre é uma sensação diferente, uma emoção nova. Fico feliz de ver um evento como esse reunindo tantos apaixonados por motos como eu aqui em Torres, cidade onde moro e que amo muito.

 

Douglas Ferreira, 34 anos, motoqueiro e funcionário público

 

 

A paixão por motos não se explica, é a mesma coisa que a paixão por algum time de futebol ou pela mulher da sua vida. Vim de Curitiba aqui para Torres para prestigiar o Moto Beach, mas mais importante que a festa é a viagem em si. Cada vez que pego minha moto é como uma aventura, não importa para onde vou, o importante para mim é estar sobre a moto. E a sensação de liberdade, é claro, ao mesmo tempo em que se aprende a conviver melhor consigo mesmo.

 Mário Luiz Grandino, 52 anos, de Curitiba

O Moto Beach e a cidade

 

O evento foi tranqí¼ilo, sem transtornos graves. Viemos para cá de Tramandaí­ afim de   compor um reforço para o evento. Os espectadores do Moto Beach estão respeitando a lei, apenas ocorreram alguns casos de desordem   em função principalmente de indiví­duos alcoolizados.

 

Bruno Caetano Soares*, Policial Militar

 

 

Um feriadão em Torres sempre é uma boa chance para incrementar as vendas, principalmente quando envolve um grande evento como o Moto Beach. Acho que é como uma marca para o começo do verão, a cidade enche de turistas que compraram bem os souvenirs, roupas e acessórios que estamos vendendo, principalmente os relacionados com as motos. Não é preciso ser um motoqueiro para aproveitar um evento como este, muito pelo contrário.  

Fernanda Gallo, artesã e vendedora de Arroio do Sal

 

 

Por mais que a festa seja divertida para alguns, o egoí­smo de algumas pessoas que não se importam em respeitar o espaço do resto da sociedade é impressionante . Na Alemanha haveria mais regras para um evento desse porte, e provavelmente muitas multas seriam aplicadas se as pessoas se comportassem como aqui.  

Samira Mathiak, 20 anos, alemã em visita ao Brasil

 

 Agora moro em Caxias, mas morei aqui em Torres até alguns anos atrás. Acho que a cidade está mal administrada. Há muitas obras para serem concluí­das e quase nada acontece. Por mais que o Moto Beach seja um evento importante, o turista que vêm de longe para a cidade e vê as ruas com tantos buracos, ou sendo reformadas sem organização, acaba ficando com uma má impressão. E o verão está quase ai, só espero que as coisas estejam menos esculhambadas.

 

Diego Boneto, funcionário do Bola Burguer

 

 

     

 

   

O barulho, o helicóptero e o turismo

   

O helicóptero pode até ser barulhento para o pessoal que mora perto da orla ou que está querendo curtir a praia sossegado. Mas muita gente que nunca tinha andado de helicóptero na vida tem essa opção agora, a possibilidade de ver Torres pelo alto, com todas as suas belezas. Fora que somos uma cidade turí­stica, e o passeio de helicóptero é uma atração que chama a atenção.  

Mariani Rodrigues, 25 anos, de Torres

 

 

Para mim foi impossí­vel dormir durante o Moto Beach, que criou uma situação muito complicada para as pessoas que estão vivendo perto do evento. Eu entendo que é um momento importante para a cidade, que depende do turismo, mas para mim pareceu ser uma festa sem muitas leis, os carros querendo aparecer com sua música ensurdecedora, os helicópteros passando a cada dois minutos como se estivéssemos em uma guerra, poluição sonora ininterrupta.    

Samira Mathiak, 20 anos, alemã em visita ao Brasil

 

 

O Moto Beach é uma oportunidade boa para movimentar a cidade e atrair os turistas, traz maior visibilidade para Torres no geral. O pessoal consumiu bastante, comprou muitos lanches e hambúrgueres, ainda que o tempo não tenha ajudado muito.  

Diego Boneto, funcionário do Bola Burguer

 

 

 Quem reclama que o Moto Beach é barulhento não deveria estar por perto, tinha que estar em algum lugar mais calmo nesse final de semana. Para mim é tempo de festa, curtição, não sabia dessa festa toda mas gostei de ver algum agito na cidade. Os jovens querem se divertir, e as vezes aqui em Torres faltam opçíµes como a do Moto Beach para atrair os veranistas e turistas.  

Marcelo Viana, estudante de Porto Alegre, 19 anos

 

 

Sou de Flores   da Cunha e veranista de Torres há mais de 10 anos. Não entendo muito de motos mas sou fã do Moto Beach, já vi o evento algumas vezes e sempre me impressiono com o que esses motoqueiros malucos fazem, principalmente o pessoal do Globo da Morte.   Torres é uma cidade linda e parece estar se tornando cada vez maior, atraindo muita gente e agito principalmente no réveillon. Ainda assim, é possí­vel ter dias de descanso no verão por aqui, diferentemente de Capão da Canoa, que está completamente tomada por prédios e lojas.  

Marcelino Monetti, empresário

 

             

A legalização da maconha

 

Sou a favor da legalização da maconha. Acho que é muita hipocrisia que não seja permitido relaxar fumando um baseado enquanto as pessoas enchem a cara e vão para a balada fazer confusão, ou saem bêbados com seus carros dirigindo como loucos e se matam nas ruas. Até mesmo o cigarro é uma coisa sem coerência, as pessoas fumam dúzias de um negócio mal-cheiroso e que está lentamente destruindo seus pulmíµes. Na noite passada (12) vi um monte de gente aqui no Moto Beach bebendo e fazendo festa de uma maneira descontrolada, e a polí­cia não fazia nada. Se eu estivesse fumando um baseado, sem fazer mal pra ninguém, ia acabar preso.  

Marcos Paulo de Sousa, 26 anos, de Torres

 

 

 

Sou contra a legalização da maconha, pois conheço muitas pessoas que fumam maconha e ficam imprestáveis, não conseguem fazer nada. Nunca experimentei a maconha, nem tive vontade. Eu bebo sim, mas apenas socialmente, e acho que a bebida não é tão perigosa quanto a maconha. Tanto que beber é permitido e fumar maconha não é, as pessoas decidiram dessa forma. Não sei como essa decisão foi tomada, mas é a lei, e eu sou uma pessoa cumpridora da lei.  

Ana Maria Hartz, funcionária pública de Porto Alegre, 43 anos

 

 

A polí­cia podia estar usando melhor seu tempo do que correndo atrás dos maconheiros. Até porque não conheço ninguém que fuma maconha e fica violento. Muito pelo contrário, penso que a maconha é uma substância pacificadora. Gosto de fumar meu baseado para ouvir música e relaxar, mas também fumo durante o trabalho. Sou metalúrgico,e quando estou chapado me foco mais em uma única atividade, melhora meu rendimento. Fora o sexo, que é ainda mais maravilhoso depois de um baseado.  

Elias Oliveira, de Caxias do Sul

 

 

Penso que o brasileiro ainda não está preparado para a legalização da maconha, falta educação e estrutura para que um panorama destes avance em nosso paí­s.E o usuário de maconha se torna perigoso principalmente se usar da droga em conjunto com o álcool. O que talvez poderia acontecer é a disponibilização de locais especí­ficos onde a pessoa possa fumar maconha de acordo com a lei.

 

Daniel Santana*, Policial Militar

 

     

Se beber, não dirija. Se dirigir, não se assuste com a blitz!

   

A intensificação da campanha Se beber, não dirija tem se propagado, e as pessoas tem cumprido mais com seu papel social, estão aprendendo o quanto é perigoso guiar um carro estando alcoolizado. As pessoas ficam perigosas quando bêbadas, perdem os reflexos e tem uma visão distorcida de sua realidade. Não se trata de uma ação de repressão por parte da polí­cia, mas sim uma forma de reeducar o povo brasileiro e evitar um hábito criminoso e  imprudente que pode custar vidas.  

Daniel Santana*, Policial Militar

 

 

Eu concordo com esta maior fiscalização no trânsito para evitar que os motoristas bebam. Estamos chegando num ponto em que dirigir um carro é estar preparado para guerra, pois a falta de educação, respeito e de atenção dos motoristas é tão grande que nos sentimos com medo ao dirigir. São milhares de pessoas morrendo todos os anos por dirigirem alcoolizados. Mas acho que a repressão policial também amedronta. Fui parada por uma blitz repleta de policiais completamente armados. Acho isso desnecessário, eles tratam o motorista como se fosse um criminoso.  

Ana Maria Hartz, funcionária pública de Porto Alegre, 43 anos

 

   

A internet e a perda da inocência

 

Os relacionamentos hoje ficaram muito fáceis com a internet, e os jovens estão entrando cada vez mais cedo para o mundo do sexo, que se tornou uma coisa banalizada. O problema é que falta uma interação social real, e o virtual está tomando conta da mente das crianças e adolescentes, e por isso os relacionamentos muitas vezes são falsos, giram em torno de aparências e dinheiro. A famí­lia também está perdendo espaço, os jovens não respeitam mais seus pais e os pais não dão atenção aos filhos.  

Bruno Caetano Soares*, Policial Militar

 

 

Acho que muitas crianças hoje em dia estão perdendo a inocência cedo demais, o que se deve em muito a falta de atenção dos pais, que dão liberdade cedo demais para seus filhos.A internet   abre um mundo desconhecido para os jovens, e ainda que o mundo virtual ofereça muitas coisas boas, também oferece perigos. Tenho uma menina de 9 anos, e de aniversário ela me pediu um celular. Falei que não, que não era hora dela ter um celular ainda. Ela ficou muito braba, mas acho um absurdo uma menina de nove anos, que deveria estar brincando com uma casinha de boneca, desejar um celular. E o pior é que muitas das amiguinhas dela já tem o celular, sinal de que muitos pais acham isso normal.

 

Mário Luiz Grandino, 52 anos, de Curitiba

 

       

O amor pela vida no Globo da Morte

 

Quatro pessoas dentro de um pequeno globo de metal, todos dirigindo suas motos velozmente, fazendo loopings alucinantes, os motores zumbindo como vespas furiosas. Os caras do Globo da Morte desafiam (e muito) as leis da fí­sica, desafiam também a morte como se estivessem em um playground, ziguezagueiam pelo curtí­ssimo espaço que possuem como se fossem participantes da mais perigosa e alucinante das danças. O foco é total, qualquer erro pode resultar num grave acidente, mas nos olhares que os pilotos trocam uns com os outros antes de começar seu incrí­vel espetáculo, não se vê medo pela morte, mas sim o amor pela vida e pela aventura.  

Eu, Guilherme Rocha, Jornalista

 

 

 

 

 

Nos não pensamos na morte para não perder o foco, sabemos que não podemos errar dentro do globo. De qualquer jeito não há tempo para se pensar, dentro do globo da morte as coisas ficam muito ligeiras, e a sincronia tem que ser perfeita. Por isso confiamos muito uns nos outros, temos que nos preocupar mais com o colega do que em nós mesmos. E ao mesmo tempo deve-se confiar que tudo vai dar certo, ter fé e controlar a adrenalina. Muita gente pensa que somos loucos, mas na verdade temos muito bem definido o senso do perigo.

Somos todos da mesma famí­lia, por isso podemos confiar um no outro. O patriarca, Claudio Rodrigues, tem 65 anos, e é o mais louco de todos. Ele já manobra no Globo da Morte fazem 40 anos. Eu, que sou genro dele, comecei doze anos atrás, junto com O Cláudio Júnior e o Guilherme Rodrigues, filhos do Claudião. Minha mãe nunca assiste aos shows porque tem medo que algo aconteça, fica em casa rezando. Mas, infelizmente, acidentes acontecem algumas vezes. Mês passado quebrei meu tornozelo depois que me desequilibrei e cai. E quando um cai, geralmente caem todos, o segredo é saber fazer que a aterrizagem seja o menos violenta possí­vel. Mas mesmo com esses cuidados eu tive azar, e duas das motos caí­ram sobre mim. Ainda assim continuo vivo, e nenhum acidente acaba com o amor que eu sinto por pilotar dentro do Globo da Morte. Meu osso ainda nem está cicatrizado, e já estou aqui de novo, fazendo o que gosto.  

Nós não treinamos, por que não temos tempo. Trabalhamos durante a semana em empregos normais, e o Globo da Morte é como se fosse nosso hobby. Mais do que isso, na verdade: é um estilo de vida. Quando estamos dentro do globo, dirigindo nossas motos, estamos fazendo o que gostamos. Viajamos o Brasil e o mundo apresentando o Globo da Morte, e as pessoas sempre se impressionam com o espetáculo, vão a loucura. Estivemos no Jí´ Soares, na SporTV. Ainda assim não temos patrocí­nio, mas fazemos o nosso show não pelo dinheiro, mas porque amamos o que fazemos.

 

Luiz Silva, participante do Globo da Morte

 

     *Os policiais militares pediram para ter os nomes alterados              
 


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