Chamam assim, com certo ar de drama e mistério: Cemitério dos Navegantes. A costa do Rio Grande do Sul — essa linha de areia e mar que parece calma aos olhos desavisados — já foi palco de muitas tragédias silenciosas. Tempestades repentinas, bancos traiçoeiros de areia, águas rasas que não perdoam erro de cálculo. Dizem que são muitos os naufragados entre Torres e Cidreira, cada um com sua história afundada no tempo.
Desde piá eu ouvia falar daquele navio encalhado. Da beira da praia, bastava mirar os olhos na direção da Ilha dos Lobos para ver dois cascos escuros, firmes como rochas, ali no meio do mar. Primeiro desapareceu um. Depois, o outro sumiu sem fazer alarde, tragado pelo tempo, pelas marés e pela ferrugem.
Era o Avaí. Ou Avahy, como também aparece nos livros e nos jornais da época. O navio que naufragou e ficou anos como cicatriz visível na história de Torres.
Depois de muita procura, encontrei — escondido num canto da internet — um exemplar do Jornal do Brasil, de 17 de março de 1960. Uma notinha modesta dava conta do ocorrido: “Cargueiro Avaí encalhou na costa do RGS juntamente com Tritão e Tokai Maru”. O Avaí havia encalhado na noite do dia 15, uma terça-feira, às oito da noite, bem em frente ao balneário de Torres. A notícia vinha de um correspondente do JB no Rio Grande do Sul.
O jornal informava que o Avaí era o sexto barco a encalhar na perigosa costa rio-grandense desde 1953 — e, àquela altura, o terceiro em poucos dias. Antes dele, já haviam naufragado o Tritão e o Tokai Maru. O motivo, além do mar traiçoeiro, era a falta de estrutura: um contingente naval pequeno, precário e dependente da Marinha do Sudeste.
A reportagem do JB coincide com o relato do pesquisador Roberto Venturella, no livro A História do Farol de Torres. O Avaí — ou Avahy, como escreve Venturella — era um cargueiro da empresa de cabotagem Transmar. Vinha de Rio Grande rumo a Santos, carregado de lã, óleo de soja, óleo de linhaça e outros mantimentos.
Segundo o comandante Ecilo Galvão Barcelos, era uma noite sem luar, com mar calmo e céu limpo, mas com visibilidade quase nula. Às 19h45, o navio bateu em pedras — talvez nos recifes da Ilha dos Lobos — e ficou desgovernado. Sem rumo certo, encalhou ali mesmo.
Os tripulantes lançaram foguetes de sinalização, que foram vistos por pescadores e moradores da cidade. Foram eles, gente do mar, que vieram socorrer os treze tripulantes. Todos salvos. Nenhum ferido. Só os documentos do navio sumiram, tragados pelo mar, segundo o capitão, por culpa do imediato, que os teria deixado sobre uma baleeira que se soltou no choque.
A mercadoria ficou no porão, intacta. Mas, como o navio foi abandonado, logo virou destino de visitação. Naquela época, ainda era possível desembarcar na Ilha dos Lobos — e não foram poucos os que trouxeram para casa um pedaço do Avaí como lembrança. Aos poucos, o navio foi sendo desmontado pelo sal, pelo tempo e pelos souvenires improvisados.
O Avaí ficou por ali durante uns vinte e cinco anos, dividido em dois pedaços, agarrado às pedras da ilha. Nos anos 90, finalmente desapareceu por completo. Hoje, quem sabe, serve de abrigo silencioso para criaturas marinhas no fundo do mar de Torres.
Conversando com amigos — jovens há mais tempo que eu — reencontrei a memória do naufrágio do Avahy. Os mais vividos lembravam com detalhes o espetáculo inesperado: latas de pêssego em calda chegando à beira da praia, boiando ao sabor das correntes. Também vieram fardos de lã, que secavam por dias ao sol antes de ganhar serventia, e latas de azeite que, contam, sustentaram as fritadas de peixe de muita família torrense por bons anos.
Por muito tempo, achei que aquele tinha sido o único naufrágio em Torres. Engano meu. Venturella lista ao menos dez entre Torres e Cidreira até 1963. E dois deles ficaram marcados: o Avaí, em 1960, e o rebocador São Pedro, em 1946, que encalhou nas imediações da Praia do Paraíso. Nesse último, dois morreram — o comandante e o imediato. Os demais conseguiram nadar até a areia, exaustos, mas vivos.
O São Pedro, segundo Venturella, enfrentou um temporal daqueles de envergar o horizonte. Rebocava duas chatas de Rio Grande a Itajaí quando, entre Tramandaí e Torres, o mar virou. As amarras se romperam, as chatas ficaram à deriva, e o comandante, Rui Fornier Luz, tentou resgatar. Foi até Laguna e voltou para as buscas. Mas o mar não perdoa duas vezes. A quinze milhas da costa de Torres, o temporal piorou. O rebocador encalhou na Praia do Paraíso, a dezoito quilômetros da cidade. Morreram o comandante e o imediato. Os demais nadaram até a areia, vencidos, mas vivos.
Hoje, quase não se ouve mais falar em naufrágios. Talvez porque o tráfego de navios diminuiu. Talvez porque os instrumentos modernos não deixem o mar fazer tantas surpresas. Ou, quem sabe, seja só sorte mesmo. Mas o fato é que aqueles naufrágios fazem parte da alma da cidade.
É bom lembrar. Porque é da lembrança que se faz a história. E é da história que se constrói o pertencimento.
Fontes: Jornal do Brasil, 1960; Roberto Venturella, A História dos Faróis de Torres

