O Sindicato Médico do Rio Grande do Sul (Simers) realizou, nos dias 12 e 13 de março, a terceira etapa da Operação Litoral Norte, dando continuidade às visitas em Unidades Básicas de Saúde (UBS’s) e postos de Estratégias de Saúde da Família (ESF’s) da região. A ação teve como objetivo ouvir os médicos e verificar as condições de trabalho na atenção primária.
A operação foi conduzida pelas conselheiras do Sindicato, Denise Affonso e Cristiane Ribas, que visitaram os serviços de saúde ao lado das assessorias jurídica e de relações governamentais da entidade médica. Anteriormente, no final de fevereiro, outras visitas
Na quinta-feira, 12, as equipes percorreram os postos de Xangri-lá, Capão da Canoa e Arroio do Sal. Na sexta-feira, 13, foi a vez das unidades de Torres. “Em parte das unidades visitadas não havia pediatra e em diversos postos não havia profissionais atendendo nas datas da ação. As agressões verbais e ameaças recorrentes foram alguns dos principais tópicos abordados pelos médicos”, salientam.
Abaixo, relatamos a situação descrita pelas conselheiras durante as visitas em Torres e Arroio do Sal
Torres (12 e 13 de março)
Na manhã de 13 de março, a equipe do Simers realizou diversas agendas em Torres. A primeira visita foi feita na ESF São Jorge, que abrange cerca de 4 mil pessoas. A média de atendimentos gira em torno de 20 por dia. Conforme informado, a equipe é composta por dois clínicos e um pediatra que atende duas vezes por semana. “O posto tem câmera de videomonitoramento. Há registro de falta de medicamentos para urgências. Os profissionais são terceirizados pela empresa Elo”.
Na sequência, a equipe se deslocou até a ESF José de Oliveira Santos. “O prédio tem paredes com rachaduras, infiltrações, falta de manutenção e não tem saída de emergência. No posto, há dois clínicos gerais e dois pediatras atuando em dois turnos. A população de abrangência fica em torno de 3,8 mil pessoas. O local tem câmera de segurança, mas não tem porteiro. Os médicos são contratados pela empresa Elo, que vem atrasando os salários. Alguns médicos relataram perdas financeiras associadas a feriados e mudanças na forma de pagamento, sem clareza sobre os critérios adotados”.
Diante dos relatos, o Sindicato indicou que iria encaminhar ofícios à gestão municipal e buscar reuniões tanto com a prefeitura quanto com a empresa responsável para esclarecer as condições contratuais e discutir melhorias nas condições de trabalho.
Visitas anteriores em Torres (final de fevereiro)
Anteriormente, no final de fevereiro, as Conselheiras do Simers haviam feito mais visitas em unidades de Torres – incluindo o Posto de Saúde Central América Muniz, que reúne uma Equipe de Atenção Primária (EAP) e duas ESFs e atende cerca de metade da população da cidade. Na ocasião (final de fevereiro), médicos PJ denunciaram atrasos salariais recorrentes, com mais de 60 dias de espera. “Segundo relatos, a empresa contratante atribui o problema à falta de repasse da Prefeitura Municipal. Também há relatos de escassez de materiais para coleta de exames”.
A violência verbal contra médicos apareceu como um dos pontos mais sensíveis, especialmente em Torres. No Posto de Saúde, a equipe do Simers presenciou um episódio de agressão verbal durante a visita. “Profissionais relataram que as médicas mulheres são alvo de desrespeito e comportamentos agressivos por parte de pacientes com mais frequência”.
Já na ESF Sadi Pipet de Oliveira e na ESF São Francisco, médicos relatavam (no final de fevereiro) atrasos salariais, falta de benefícios para PJ, demora para exames e especialistas e, em alguns casos, carência de medicamentos e agentes comunitários. “A preocupação dos médicos é relacionada ao verão: no período a demanda chega a triplicar, segundo relatos”.
Também foram apresentadas condições inadequadas para atendimentos domiciliares em áreas de praia, como Itapeva e arredores, onde consultas ocorrem em espaços improvisados, como galpões e cozinhas desativadas.

Em Arroio do Sal
Em Arroio do Sal, a primeira unidade visitada foi a ESF Centro José Elton Castro Cardoso. Com um prédio novo, recém-reformado, a unidade dispõe de quatro médicos ao todo. Na tarde de 12 de março, quem estava atendendo era uma médica da família, integrante do Programa Mais Médicos. Uma das clínicas gerais tem foco em atendimento às gestantes e a outra atua também na puericultura. Conforme averiguado na operação, a unidade não tem pediatra. “A área de abrangência gira em torno de 6,5 mil pessoas. O posto não tem vigilante nem câmera de videomonitoramento e o consultório não tem rota de fuga para o médico em uma situação de agressão, o que gera sensação de insegurança nos profissionais. A média de atendimentos gira em torno de 12 consultas por turno”.
A comitiva do Simers também esteve na ESF Figueirinha, localizada no bairro de mesmo nome, onde não havia nenhum médico atendendo no dia 12 de março. Foi apurado que o posto conta com médicos pelo menos duas vezes na semana. Ainda em Arroio do Sal, a equipe foi até a UBS Bom Jesus, onde foi informada de que duas médicas atendem três vezes por semana; contudo, no dia da operação não havia nenhum médico atendendo no local.
Já na ESF Balneário Atlântico havia uma clínica geral atendendo dia 12/03 à tarde. Ao todo, são dois profissionais terceirizados que atuam no posto em escalas. “A unidade é referência para 2 mil pessoas e também não tem pediatras. A média é de 20 consultas por dia. O local não conta com câmera de segurança na portaria nem vigilante. Segundo relatos, durante o verão houve caso de ameaça grave, que necessitou de intervenção da Brigada Militar”.
Durante as visitas às unidades de Arroio do Sal, também foram mencionadas dúvidas em relação ao acesso a serviços especializados e ao tempo de espera para consultas, o que pode impactar, principalmente, no atendimento de crianças. A falta de especialidades médicas, como neurologia, também foi citada de forma recorrente pelos profissionais.
Conclusões após a operação
A conselheira do Simers, Cristiane Ribas, comenta que, a partir da operação, foi possível observar as diferentes realidades dos postos de municípios do Litoral Norte.
“Capão da Canoa, por exemplo, está melhor estruturada para receber os usuários em termos de exames. Essa foi uma queixa que poucos tiveram, pois eles têm mais acesso. Eles têm pediatras, dermatologistas e mais especialidades de apoio que os demais municípios visitados. Outra coisa que me chamou bastante a atenção foi a presença do RT atuante, que estava atendendo em uma das unidades e nos recebeu superbem”, comenta.
Para a conselheira Denise Affonso, um dos destaques da operação foi a forma positiva com que o Sindicato foi recebido, apesar das dificuldades estruturais de alguns postos e dos desafios enfrentados pela categoria. “Encontramos muitos médicos jovens que, na maioria dos casos, não são concursados, mas terceirizados e com problemas nos honorários. Isso prejudica a longitudinalidade que, na atenção primária, representa o cuidado contínuo, com vínculo e responsabilidade ao longo da vida”, aponta.







