Anunciam alguns jornais, desde quarta-feira, que Lula teria batido o martelo e quer Juliana Brizola, neta do Brizola, do PDT, como candidata ao Piratini nas próximas eleições. Claro que ainda devem ser conjecturas. De qualquer forma é um indicador de que, talvez, duas correntes trabalhistas, o PT de Lula, e o PDT , ex PTB, de Vargas e Brizola, talvez estejam começando a se entender. As divergências, sobretudo no Rio Grande do Sul sempre foram profundas e deixaram cicatrizes nos dois campos. Não obstante, há mais indicações de que Lula está revendo sua posição frente ao trabalhismo. Num livro que foi ontem lançado em São Paulo, pelo biógrafo de Vargas, o Lira Neto, sob o título “Trabalhadores do Brasil”, no qual reúne 49 discursos do ex-Presidente, Lula faz o prefácio. Nele reconhece que tinha, realmente, uma posição preconceituosa contra Getúlio mas que hoje o reconhece como uma grande expressão do pensamento e ação progressistas no país, seja pela defesa intransigente da industrialização, como, também, da soberania nacional e dos interesses dos trabalhadores. Citando a “Carta-Testamento”, o atual presidente escreve que essas bandeiras despertaram o ódio das elites. “São temas que até hoje, 80 anos depois, ainda enfrentam a oposição das forças e dos interesses contra o povo”.
Muitos representantes do PT talvez não gostem muito desta virada, já esboçada em outros pronunciamento do Lula, até em defesa dos CIEPS do Brizola – as escolas de tempo integral -, mas não há nada como tempo para curar feridas e abrir caminhos novos.
Na verdade, o rechaço a Vargas e ao trabalhismo, não foi uma atitude estritamente subjetiva de Lula, manifestada desde os tempos que Leonel Brizola o procurou em 1979, ao chegar do exílio, com vistas a incorporá-lo ao projeto de reconstrução do PARTIDO TRABALHISTA BRASILEIRO. Em reunião no Sindicato dos Metalúrgicos Brizola ouviu contrariado que “Getúlio ferrou trabalhador” e que não haveria nenhuma possibilidade de incorporar o novo sindicalismo no projeto trabalhista. O novo Partido, parido pela abertura propiciada pela Anistia, com revisão da reorganização Partidária, chamar-se-ia PARTIDO DOS TRABALHADORES. A conversa, enfim, naquele dia acabou mal e o “anfitrião” (Lula) nem se teria levantado para despedir o visitante.
Meio século depois, já tendo se consagrado três vezes como Presidente do Brasil, Lula, amadurecido pelos desafios que enfrenta, confessa que estava errado sobre o líder da Revolução de 1930. Lula, enfim, foi vítima de vários processos que levaram as novas gerações ao rechaço de Vargas. Vejamos:
- A intensa campanha difamatória levada e efeito pelo regime militar entre 1964/85, com reforço nas disciplinas escolares de OSBP e Problemas Brasileiros, todas concebidas para estigmatizar o período dos governos trabalhistas de Vargas e João Goulart;
- A ação da Igreja Católica, pré Concílio Vaticano II, um dos pilares das mobilizações Com Deus pela Família que ocuparam ruas e púlpitos contra estes governos às vésperas do golpe;
- A profunda ação de “marxistas uspianos”, como os denominou recentemente o Prof. Bresser Pereira, ao criticar a produção intelectual dos “sociólogos” da Universidade de São Paulo pela sua obstinação em combater o que denominaram como “período populista”. Prova disso foi o empenho de FHC na Presidência da República em liquidar os vestígios do varguismo na administração brasileira.
A propósito deste último ponto, um recente livro publicado pela Boitempo Editora, “Lugar Periférico, Ideias Modernas”, de autoria de Fábio Mascaro Querido, trata exclusivamente do nascimento deste grupo de intelectuais da USP, desde 1958, seu desenvolvimento, com respectivas contorções e crise, depois do mandato de FHC. A influência deles, como centro de formação de Mestres e Doutores na Filsofia e Ciências Humanas na USP alastrou-se pelo país e dominou o cenário da redemocratização, constituindo-se na crítica, “pela esquerda”, do período varguista. O livro demonstra como a obsessão pela contestação do modelo que lhe era correspondente, o “nacional-desenvolvimentismo” espalhou-se entre intelectuais e mesmo sindicalistas ao longo de décadas anulando completamente a memória do período 1930-64. Não por acaso, o bordão de Lula seria “Nunca antes na História deste país”.
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