Analisando o Brasil: As incoerências da sexta maior economia do mundo

17 de janeiro de 2012

Por Guilherme Rocha*

   

Em 2011, o Brasil melhorou sua posição na maioria dos rankings internacionais que medem diferentes aspectos do desenvolvimento, e começou 2012 como a 6 ª maior economia do mundo, ultrapassando a Grã-Bretanha. Mas por trás destes avanços, o paí­s ainda tem desempenho fraco quando comparado a naçíµes do chamado mundo desenvolvido. í‰ o que se constata ao analisar algum dos principais indicadores divulgados ao longo de 2011, que vão além do Produto Interno Bruto (PIB) e inserem o Brasil em um contexto global em áreas como renda, desigualdade, corrupção, competitividade e educação.

       

Renda per capita baixa

   

Ainda que o Brasil tenha se tornado a 6 ª maior economia do mundo, o paí­s já despenca dezenas de posiçíµes quando se considera a renda per capita, resultado da divisão do Produto Interno Bruto (PIB) pela população. Nessa média, o brasileiro ganha, por ano, o equivalente a US$ 10.710. Se compararmos com os levantamentos de 2009, quando o brasileiro ganhava em média US$ 8.615 por ano, é inquestionável que houve avanços, nossa renda cresceu. Mas, segundo os últimos dados do Banco Mundial, 44 paí­ses têm renda per capita superior í  do Brasil, entre eles a própria Grã-Bretanha.

 

A renda dos britânicos, US$ 36.144, é três vezes maior do que a dos brasileiros. Essa diferença, no entanto, vem caindo. Além disso, a renda média do brasileiro continua superior í  de seus colegas dos Brics: russos recebem em média US$ 10.440 por ano, e na índia, onde a miséria reina entre as classes mais pobres, a média é de mí­seros US$ 1.475. A China (US$ 4.428) e a ífrica do Sul (US$ 7.275) também ficam atrás do Brasil neste quesito.

     

Apenas sete naçíµes apresentam distribuição de renda pior do que a do Brasil

   

Essa simples divisão do PIB pelo total da população, no entanto, sofre crí­ticas de especialistas em desenvolvimento por ignorar aspectos como a má distribuição da renda. Quando a desigualdade entra na equação, a posição do Brasil no cenário global despenca ainda mais, apesar dos avanços alcançados no paí­s nesse quesito.

 

Tomando como medida o coeficiente de Gini, que mede a desigualdade na distribuição da renda em 187 paí­ses, apenas sete naçíµes apresentam distribuição pior do que a do Brasil, segundo dados da ONU: Colí´mbia, Bolí­via, Honduras, ífrica do Sul, Angola, Haiti e Comoros.

 

Nesta comparação, quanto mais perto de 100 é o coeficiente, maior a desigualdade. O Brasil marcou 53,9 pontos, um valor altí­ssimo se posto lado a lado com a Suécia, um dos paí­ses com menor concentração de renda, com coeficiente de 25.No Brasil, o paí­s mais desigual da América Latina (juntamente com a Bolí­via), os 10% mais ricos concentram 50,6% da renda. Na outra ponta, os 10% mais pobres ficam com apenas 0,8% da riqueza brasileira.

 

O problema da má distribuição de renda afeta a América Latina como um todo. Segundo documento divulgado durante o quinto Fórum Urbano Mundial da ONU (em 2010), os 20% latino-americanos mais ricos concentram 56,9% da riqueza da região. O relatório ainda indica que "é nas cidades menores e, certamente, nas áreas rurais da América Latina, onde a população é mais pobre".

       

Ainda longe do alto desenvolvimento, mas IDH vêm crescendo

   

Apesar dessa péssima posição no quesito desigualdade de renda, o desempenho em outros aspectos do desenvolvimento (medidos pela ONU) píµe o Brasil em uma posição melhor no índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

 

O IDH do Brasil em 2011 é de 0,718 na escala que vai de 0 a 1. O í­ndice é usado como referência da qualidade de vida e desenvolvimento sem se prender apenas em í­ndices econí´micos. O Brasil tem progredido no IDH, e sua posição geral (em 84 º lugar), píµe o paí­s no grupo de alto desenvolvimento humano, mas ainda longe do grupo mais seleto com desenvolvimento considerado "muito alto". A lista de 47 paí­ses dessa elite é encabeçada pela Noruega, com 0,943 pontos, e conta com paí­ses sul americanos como o Chile e Argentina (na 44 ª e 45 ª posiçíµes, respectivamente).

       

Alta competitividade e grande mercado interno

   

O IDH engloba diversas áreas como educação, saúde, expectativa de vida, mas dados de outras organizaçíµes servem para complementar o quadro do Brasil no cenário externo.

 

A competitividade da economia brasileira, por exemplo, é medida por instituiçíµes como o Fórum Econí´mico Mundial (WEF, na sigla em inglês). No ranking do fórum, o Brasil subiu cinco posiçíµes em 2011 e passou a ser a 53 ª economia mais competitiva entre 142.

 

A organização destacou o grande mercado interno e o sofisticado ambiente de negócios como pontos fortes do Brasil, mas enfatizou o sistema educacional, as leis trabalhistas (consideradas muito rí­gidas) e o baixo incentivo í  competição como entraves í  competitividade brasileira. Pois é inegável que um microempresário brasileiro tem que batalhar muito para fazer de seu estabelecimento um negócio estável e lucrativo. A Suí­ça é a primeira nesse ranking, seguida por Cingapura.

     

Corrupção e Jader Barbalho

   

Em outros quesitos que influenciam a economia, como Corrupção, Ciência e Tecnologia e Educação, o Brasil continua mal, mas teve pelo menos algum avanço. A nota do Brasil avaliada pela Transparência Internacional sobre corrupção passou de 3,7 para 3,8. Mas apesar dessa "melhora" decimal, o Brasil caiu da 69 ª para 73 ª entre 182 paí­ses.

 

A queda se explica pelo progresso mais acentuado de outros paí­ses e pela entrada de novas naçíµes na lista da ONG. O paí­s mais bem colocado no ranking é a Nova Zelândia (com nota 9,5), seguida pela Dinamarca (com nota 9,4). Apesar da queda, o Brasil tem a menor percepção de corrupção entres potências emergentes como Rússia, índia e China.

 

"Mas o Brasil não deve se orgulhar disso. Deve ver que há muito a avançar para alcançar o ní­vel dos paí­ses desenvolvidos. Os brasileiros tem uma grande tolerância sobre corrupção. Eu vejo que í s vezes o tema é colocado em segundo plano, dentro de um contexto de muito otimismo dos brasileiros em relação ao crescimento econí´mico e do novo papel que o paí­s ocupa no mundo. Por outro lado, há iniciativas muito importantes da sociedade, como a lei da Ficha Limpa", diz o mexicano Alejandro Salas, diretor da Transparência Internacional para as Américas.

 

Apesar da lei da Ficha Limpa, os juí­zes do Supremo Tribunal Federal usam das antagí´nicas leis polí­ticas brasileiras para permitir que mestres da corrupção, como Jader Barbalho, voltem ao poder da pomposa câmara de lordes brasileira (vulgo Senado)com sua bela ficha suja.   Jader, que renunciou ao mandato de senador em 2001 (para fugir de um processo de cassação ligado a corrupção), assumiu no final de dezembro para, malandramente, receber uma ajuda de custo de R$ 26 mil. Dinheiro este que Jader (se fosse minimamente honesto) deveria recusar, pois configura claramente um desrespeito ao bolso do povo brasileiro (ainda que o dinheiro seja seu direito adquirido pelos bem pagos senadores).

 

Para piorar sua situação, Jader ainda levou a famí­lia para a cerimí´nia de posse, Seu filho Daniel Barbalho, de 9 anos, disparou caretas para todos os lados, virou piada e ilustrou o retrato de um paí­s conivente a corrupção em Brasí­lia, um circo onde os polí­ticos corruptos são os palhaços, que sabem como entreter o povo, alienado dentre tantas mentiras e mal-caratismo.

     

Engatinhando na ciência e tecnologia

   

Outra área em que o Brasil ainda tem pouca representatividade nos rankings é a de Ciência e Tecnologia. Ainda assim, um estudo divulgado em março pela Royal Society, academia nacional de ciência britânica, mostrou um pequeno progresso do Brasil. A representatividade dos estudos brasileiros teve um ligeiro aumento de 1999 para 2003. Passou de 1,3% do total de pesquisas cientí­ficas globais para 1,6%. São Paulo subiu de 38 º para 17 º lugar como centro com mais publicaçíµes cientí­ficas do mundo.

 

                      O estudo indica que existe uma diversificação pelo mundo, com alguns paí­ses demonstrando lideranças em setores especí­ficos, como a China em nanotecnologia e o Brasil em biocombustí­veis, mas as naçíµes avançadas do ponto de vista cientí­fico continuam a dominar a contagem de citaçíµes", analisou o relatório. Mas neste ponto nosso paí­s ainda tem muito a aprender. A China, por exemplo, segue em uma velocidade muito superior í  do Brasil e já superou Europa e Japão na quantidade anual de publicaçíµes cientí­ficas.

     

              As mazelas da educação

   

Na área de Educação, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento (OCDE) divulga comparaçíµes internacionais que incluem o Brasil. Os últimos dados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (PISA) pí´s o paí­s em 51 º lugar entre 65 no ranking de leitura, em 55 º no de matemática e em 52 º no de Ciências. O paí­s ficou entre os últimos, mas a nota nas três áreas melhorou em relação í  pesquisa anterior.

 

Ainda assim, o professor brasileiro de primário é um dos que mais sofre com os baixos salários, como mostra pesquisa feita em 40 paí­ses pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Organização das Naçíµes Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Um brasileiro em iní­cio de carreira, segundo a pesquisa, recebe em média menos de US$ 5 mil por ano para dar aulas.

 

 Na Alemanha, um professor com a mesma experiência de um brasileiro, ganha, em média, US$ 30 mil por ano, mais de seis vezes a renda no Brasil. No topo da carreira e após mais de 15 anos de ensino, um professor brasileiro pode chegar a ganhar US$ 10 mil por ano. Em Portugal, o salário anual chega a US$ 50 mil, equivalente aos salários pagos aos suí­ços. Na Coréia, os professores primários ganham seis vezes o que ganha um brasileiro.

 

A OIT e a Unesco dizem ainda que o Brasil é um dos paí­ses com o maior número de alunos por classe, o que prejudica o ensino. Segundo o estudo, existem mais de 29 alunos por professor no Brasil, enquanto na Dinamarca, por exemplo, a relação é de um para dez.

     

Custo de vida alto e as dificuldades com impostos

   

Na contramão dos avanços, ainda que lentos e graduais, há pesquisas como a do banco suí­ço UBS (feita em 73 paí­ses) sobre o custo de vida nas metrópoles. Segundo o relatório, o poder de compra no Rio e em São Paulo vem caindo nos últimos cinco anos, apesar da elevação dos salários. A pesquisa ilustra a tendência comparando o custo de vida no Rio e em São Paulo com o de Nova York, modelo de cidade cara para se viver.

 

Há cinco anos, o custo de vida das duas principais metrópoles do paí­s representava pouco mais da metade do custo de vida em Nova York. Hoje, representa 74% (São Paulo) e 69% (Rio de Janeiro) do custo de vida na metrópole americana. São Paulo aparece como a 10 ª cidade mais cara do mundo, subindo 11 posiçíµes em um ano. O Rio foi a 12 ª, subindo 17 posiçíµes.

 

O Brasil também piorou no ranking que tenta medir a facilidade de se fazer negócios em 183 paí­ses. Perdeu seis colocaçíµes, caindo da 120 ª para a 126 ª posição, segundo o Banco Mundial. As avaliaçíµes levam em conta dez indicadores, e se concentram no ambiente de negócios entre pequenas e médias empresas. O Brasil ficou bem, por exemplo, no item "proteção a investidores", mas mal no que avalia a facilidade para se pagar imposto. Nenhuma novidade, tendo em vista que estamos entre os maiores pagadores de impostos no globo, e as taxaçíµes são tão complicadas de se entender que fazem com que paguemos quase sem pensar.

     

Apesar dos problemas, otimismo continua

   

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, foi realista ao comentar o estudo que aponta o Brasil como a sexta economia do mundo, dizendo que os brasileiros podem demorar entre 10 e 20 anos para ter um padrão de vida semelhante ao europeu."Isso significa que vamos ter que continuar crescendo mais do que esses paí­ses, aumentar o emprego e a renda da população. Temos um grande desafio pela frente", analisou o ministro.

 

Mas entre avanços e retrocessos, o otimismo entre os consumidores brasileiros foi um indicador que manteve, em 2011, o Brasil no topo das pesquisas globais. Uma enquete da empresa Nielsen com 56 paí­ses, divulgada em outubro, por exemplo, mostrou que, apesar dos sinais de desaceleração na economia, a confiança do consumidor brasileiro foi a que mais cresceu, ficando atrás somente da de indianos, sauditas e indonésios.

 

                                      *Com informaçíµes de BBC Brasil, Folha de São Paulo, Estadão e Wikipedia                                    


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