Finalizando este ciclo de textos sobre a implantação do Parque Estadual da Guarita (CLIQUE AQUI PARA LER O TEXTO ANTERIOR), é impossível não prestar uma homenagem mais do que merecida a José Lutzenberger, o homem sem o qual esse parque, muito provavelmente, não existiria.
O nome oficial do Parque da Guarita é Parque Estadual José Lutzenberger — e não poderia ser diferente. Ele foi a principal voz do ambientalismo gaúcho e quem travou, com palavras, argumentos e uma convicção inabalável, a batalha para convencer o governo a preservar aquela faixa de litoral. Sua luta impediu a ocupação desenfreada que ameaçava engolir dunas, falésias e a mata nativa de Torres sob uma interminável linha de concreto.
Lutzenberger não enxergava a natureza como cenário ou mero recurso. Para ele, ela tinha valor intrínseco — existia por si mesma, independentemente de qualquer utilidade que o ser humano pudesse lhe atribuir. Essa visão, influenciada pela filosofia da Ecologia Profunda, fazia com que dunas, falésias e espécies vegetais da orla gaúcha fossem, aos seus olhos, inegociáveis. Não havia desenvolvimento econômico que justificasse sua destruição.
Foi essa mesma convicção que o levou a um diálogo extraordinário com Roberto Burle Marx, o maior paisagista brasileiro. Lutzenberger o convenceu de que o projeto paisagístico do parque não deveria impor uma estética externa à natureza do lugar, mas nascer dela — utilizando a vegetação nativa do entorno como linguagem. O resultado foi um trabalho raro: intervenções mínimas, quase invisíveis, que guiavam o olhar e os passos do visitante sem jamais competir com a grandiosidade da paisagem. A ciência e a arte, naquele encontro, falaram a mesma língua — e escolheram o silêncio como forma de respeito.
É por isso que caminhar hoje pelo Parque da Guarita, observar as falésias vermelhas sobre o mar e sentir o vento entre os butiazeiros e as bromélias é também, de alguma forma, caminhar pela obra de Lutzenberger. Um homem que, nascido em Porto Alegre, filho de imigrantes alemães, agrônomo de formação e ex-vendedor de agrotóxicos da BASF, encontrou no litoral gaúcho — e em si mesmo — uma razão para mudar de lado.
Porque às vezes basta um homem decidir enxergar diferente para que uma paisagem inteira continue existindo.
José Lutzenberger (1926–2002) — O Profeta da Ecologia

Nascido em Porto Alegre, José Lutzenberger era agrônomo de formação, mas sua trajetória começou de um lugar improvável: durante anos, trabalhou na multinacional química BASF vendendo defensivos agrícolas. No final dos anos 1960, porém, viveu uma virada dramática de consciência ao perceber de perto o dano que esses produtos causavam ao solo e à vida. A partir daí, tornou-se um dos maiores nomes do ambientalismo brasileiro.
Em 1971, fundou a AGAPAN — Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural —, uma das primeiras ONGs ambientais do Brasil, inaugurando um modelo de ativismo organizado que seria seguido por muitas outras iniciativas ao longo das décadas seguintes.
Seu pensamento ia além da defesa pontual do meio ambiente. Lutzenberger era adepto da chamada Ecologia Profunda: para ele, a natureza não era um recurso a ser explorado pelo homem, mas um sistema vivo e integrado — a Gaia — do qual somos apenas uma parte, e não os donos. Essa visão filosófica dava a seu ativismo uma dimensão quase espiritual, rara para a época.
Seu legado é vasto. Ocupou o cargo de Secretário Especial do Meio Ambiente da Presidência da República e recebeu o Right Livelihood Award, conhecido como o “Prêmio Nobel Alternativo”. No litoral gaúcho, sua atuação em Torres foi decisiva para barrar a destruição das dunas e falésias pela urbanização desenfreada — uma batalha que moldou a paisagem que ainda hoje define a cidade.
