Maria Helena Tomé Gonçalves
Ficar fora das redes sociais de relacionamento hoje soa como estar por fora do cotidiano da vida e dos últimos acontecimentos. O normal é fazer parte de grupos de pessoas que mesmo sem se conhecerem pessoalmente consideram-se amigas, dialogam, trocam idéias, expíµem seus pontos de vista sobre os mais diversos assuntos, abrem suas intimidades, muitas vezes se expíµem mais do que deveriam, falam de suas frivolidades e de suas expectativas mais graves e importantes, falam sobre política, religião, namoro, casamento, relacionamentos, trabalho, profissão, falam do mundo que os cerca externamente e do seu mundo interior.
Repentinamente podem surgir polêmicas e opiniíµes diferentes sobre qualquer assunto e as discussíµes ficam mais acirradas do que o normal, mas nada disso deveria afetar a amizade dessa relação. O que me surpreende é um cara que pede para ser amigo de outro, é aceito, mas durante uma discussão mais polêmica sobre a forma de conduzir a administração da cidade natal de ambos, embora o segundo resida hoje em outra região permanece ligado a Torres pelos laços profundos estabelecidos desde sua mais tenra idade com a cidade que ama e da qual não se desligou definitivamente, nem pretende desligar-se, é chamado agressivamente de filhinho de papai, nascido em berço de ouro etc. e tal. Isso é lastimável.
Quando alguém pede para ser seu amigo, seja num relacionamento virtual via Internet, seja na vida real, isso implica estar aberto para aceitar o outro como pessoa, embora possam existir divergências quanto a pontos de vista, idéias e atitudes, isso implica num eu quero confiar em você e que você confie em mim, eu vou respeitar suas idéias embora não concorde com elas, mas partir para julgamentos pessoais e atribuir conceitos pejorativos í pessoa do outro é não só uma atitude deplorável, como uma total falta de respeito humano para com o semelhante.
Além disso, chamar alguém que estudou arduamente durante mais de vinte anos para tornar-se um médico, que usou boa parte dos seus dias de adolescência e juventude entregue aos livros, í s aulas, aos cursos, que embora tenha enfrentado um grave problema de visão cuja única solução na época era entrar na longa fila de espera por um transplante de córneas (que, Graças a Deus, solucionou-se mais tarde com uma técnica inovadora, mas experimental, e que, felizmente, deu certo “ implantação de Anéis de Ferrara ao redor das córneas), doença que o obrigou a afastar-se do Curso por três anos, mas não o demoveu nunca de tornar-se um médico, afastamento que lhe custou uma longa adaptação ao novo currículo do Curso e estendeu seus estudos por mais três anos além do estabelecido, que formado iniciou seu trabalho nos postos de saúde dos bairros mais pobres de Caxias do Sul no atendimento ao PSF, que faz plantíµes noturnos e em finais de semana alternados e hoje, além do atendimento diário e dos plantíµes, coordena um hospital dedicado í clientela mais carente da região serrana, chamar esse cara de filhinho de papai é desconhecer totalmente a pessoa com quem está se relacionando e demonstra uma ignorância lastimável da Língua Portuguesa e de suas expressíµes. Desse tipo de interlocutor é preciso manter distância. Todo cuidado é pouco na escolha de pessoas que se convida para nosso círculo de relacionamentos e na aceitação de pessoas que se oferecem como amigas. Por isso tudo prefiro amigos que olho nos olhos quando discuto idéias e posiçíµes. E que me querem bem apesar e acima de tudo!!!


