í‰ curioso observar que temos uma atitude dúbia em relação aos prazeres em geral: buscamos chegar neles de forma intensíssima e depois parece que temos um certo medo de exagerar no seu usufruto. í‰ como se uma cota muito grande de prazer nos estivesse sendo negada, como se fosse pecaminoso usufruir demais das delícias da vida material, especialmente os prazeres do corpo – que talvez sejam exatamente os que mais gostamos. Temos medo que uma dose excessiva de satisfação e alegria venha a nos trazer dissabores em seguida. Somos vítimas de um pensamento supersticioso, gerado no âmago de nossa vida íntima e desde muito cedo, segundo o qual uma grande alegria aumenta as chances de que algo de negativo aconteça. Assim, tendemos sempre a buscar o prazer e também a fugir dele. Na prática, ao nos depararmos com a satisfação grande, fazemos com que ela dure um tempo pequeno, o tempo que somos capazes de tolerar sem nos assustarmos demais e não ficarmos com medo de que algo negativo venha a nos acontecer imediatamente. Talvez essa seja a causa de alguns maus hábitos, segundo os quais fazemos com que nossa qualidade de vida seja um tanto inferior í quela que poderia ser. A verdade é que temos medo de um excesso de felicidade, medo de que nos traga conseqí¼ências danosas. Assim sendo, dosamos nossos prazeres dentro daquilo que nos parece suportável e não tão ameaçador.
Vivemos numa cultura que nos estimula a sentir um grande número de desejos e nos ensina que desejar, e de forma intensa, mas será que satisfazer quase que plenamente nossos desejos torna nossa vida mais gratificante e feliz?
Não deixa de ser curioso que tenhamos acreditado nisso. Afinal de contas, estar desejando corresponde a um estado de incompletude, de insatisfação pelo fato de que algo nos falta. Talvez a única exceção seja o desejo sexual, onde a inquietação que ele provoca pode ser sentida como agradável, como algo que provoca a sensação de excitação, um desequilíbrio que é temporariamente agradável. Agora, todos os outros desejos, tanto os de natureza física – fome, sede, frio, etc – como os relacionados com anseios criados pela cultura em que vivemos – desejo de possuir algum bem material, de usufruir de algum tipo de privilégio, de ser famoso, etc – só podem gerar insatisfação, frustração e tristeza. Somos ensinados a desejar porque aprendemos que, ao nos sentirmos frustrados, ganhamos uma força e uma energia extra no sentido de perseguirmos aquilo que queremos muito ter ou ser. Isso pode ativar nossa garra e competitividade, mas gera uma insatisfação muito prolongada, muito maior do que o prazer que experimentaremos quando formos capazes de satisfazer nossa vontade.
O mais grave é que a sociedade está sempre criando novos objetos de desejo, de modo que quando pensamos que temos tudo, algo novo parece essencial í nossa felicidade. Penso que vivem melhor aquelas pessoas que sentem menos desejo. Penso que o próprio desejo sexual não deveria ser estimulado ao máximo e a satisfação desse desejo não deveria ter se transformado em mais um motivo de orgulho e de competição – sendo vencedor aquele que consegue efetivar mais vezes o contato físico capaz de resolver o desejo. Penso mesmo que muito melhor do que ter muitos desejos, e conseguir realizá-los graças a esforços enormes, é não desejar tanto, é se satisfazer com o parceiro sexual que se tem – desde que seja bom, é claro – e com os bens materiais que conseguimos obter sem que tenhamos que nos sacrificar tanto.


