Respeito as tradiçíµes é uma das razíµes para felicidade do povo no Butão
Por Guilherme Rocha*
Uma das naçíµes mais pobres do globo (de acordo com a ONU), o Butão também figura entre as dez mais felizes, segundo pesquisa da Universidade de Leicester, no Reino Unido. O país tem fome zero, analfabetismo zero, índices de violência insignificantes e nenhum mendigo nas ruas. Não há registro de corrupção administrativa e o povo adora o rei. Tudo baseado em valores budistas, que pregam as tradiçíµes, a paz, as boas relaçíµes com a comunidade o meio ambiente para definir a qualidade de vida não material.
História e características
O pequeno reino do Butão tem cerca de 38,4 mil quilí´metros quadrados, e é menor do que o Estado do Rio de Janeiro. Tem 72,5% de sua área coberta por florestas, 34 rios e uma biodiversidade de dar inveja a muitos países ricos. Também abriga cerca de 2000 templos e monastérios budistas.
Não há registro histórico no Butão antes do século 7. Acredita-se que o país era inabitado até o ano 2000 a.C. No século 7, o rei do Tibete construiu os dois primeiros monastérios do país, e os templos colocaram o Butão no mapa do Budismo. Até o século 20, o Butão era regido pela filosofia budista ortodoxa, que oferecia diretrizes administrativas, sociais, morais e legais. Somente em 1907, o país coroou o seu primeiro rei, dando início a uma monarquia hereditária.
Mas ainda que o rei reine, a sociedade é parlamentarista e democrática. Por decisão do quarto rei, os butaneses foram í s urnas pela primeira vez para escolher seu primeiro-ministro, Jigme Thinley, em março de 2008. Quatro meses depois, o país promulgou sua primeira Constituição. Atualmente, o rei do Butão se envolve somente com questíµes de segurança nacional. Cabem ao primeiro-ministro as demais decisíµes. Mesmo assim, a imagem do rei está presente em quase todas as casas, bares, restaurantes e prédios públicos do país.
Felicidade Interna Bruta
O salário mínimo no Butão é cerca de US$ 100 mensais, mas não parece que as pessoas se importem com a falta de dinheiro por lá. Felicidade é levada a sério no país – único do mundo a ter Gross National Happiness (Felicidade Interna Bruta) como política pública. Ao Estado cabe prover as condiçíµes necessárias para que a população possa se concentrar na busca da felicidade, por meio dos ensinamentos do budismo.
O conceito de Felicidade Interna Bruta tem quatro pilares – preservação das tradiçíµes butanesas, do meio-ambiente, crescimento econí´mico e bom governo. Instituída pelo quarto rei do país, Jigme Singye Wangchuk, em 1972, a política foi criada para se contrapor í idéia de que o Produto Interno Bruto (que é baseado em valores materiais) é o verdadeiro medidor da qualidade de vida da população.
Diferente do PIB, a Felicidade Interna Bruta não pode ser rigorosamente medida. Mas o governo usa 23 critérios para avaliar se cada uma das leis e projetos públicos em discussão pode ou não diminuir a felicidade do povo. Dependendo disso, será aprovado ou reprovado.
Primeiro país antitabagista do mundo
Os butaneses são simples, hospitaleiros e muito gentis. Não apresentam os sinais de estresse, pressa e impaciência tão comuns nas culturas ocidentais. No país antitabagista, pés de maconha crescem livremente. Por tradição, os camponeses usam a planta para alimentar porcos. Por causa do turismo e da televisão, butaneses que moram em centros urbanos, como Thimphu e Paro, já conhecem o uso da erva para fins de entretenimento, mas a prática não é comum.
Os butaneses confiam no que diz o rei, que baniu o fumo do país em 2005, proibindo a venda de tabaco. Foi a primeira nação do mundo a adotar a medida. De qualquer forma, quem consegue obter cigarros – por intermédio dos turistas ou da venda clandestina – pode fumar. Não tem punição para quem fuma, só para quem vende tabaco. Estabelecimentos que vendem cigarro clandestinamente correm o risco de ter a licença cassada.
Povo de Butão reverencia o rei, que distribui presentes: país não tem corrupção, fome, violência ou analfabetismo (Foto: Reuters)
Arquitetura, artesanato e vestuário
Casas são geralmente construídas sem projeto arquitetí´nico, mas os butaneses fazem consultas astrológicas antes de erguer suas residências, algumas com cerca de 900 anos. Os prédios e casas têm estrutura de madeira e taipa (barro amassado). As estacas são esculpidas e encaixadas umas nas outras sem a ajuda de pregos. Algumas pinturas dos prédios são verdadeiras obras de arte, com coloridos dragíµes e desenhos de flores, bolas, portais e rodas da sorte. Em muitas construçíµes, desenhos de pênis enfeitam as paredes caiadas (pintadas com pó branco, extraídos do arroz), em homenagem ao guru Drukpa Kuenley, deus da fertilidade.
O artesanato e o vestuário também têm tradição milenar. Peças de prata e cobre, tecidos criados no tear, bordados feitos a mão, dragíµes e Budas esculpidos em madeira, pinturas e desenhos de fundo religioso enfeitam todas as casas e estão em todas as lojas de suvenires do país. Butaneses misturam cores fortes e sóbrias, com um resultado sempre vibrante. As O mesmo vale para o vestuário (tanto de homens quanto mulheres), caracterizado em vestidos adornados e de um colorido vibrante
O Dragão do Trovão e a poligamia
O culto í s tradiçíµes butanesas é uma política de governo e uma questão de sobrevivência. Localizado entre dois países de culturas muito fortes – China e índia -, o Butão está suscetível a influências. Tem de preservar seus hábitos e costumes para não perder a identidade. Além disso, o país não tem seguridade social e depende dos jovens para manter seus idosos vivendo com dignidade. í‰ tradição no país que os mais novos morem na mesma casa dos pais e sustentem os mais velhos.
O pequeno reino do Himalaia é também conhecido como Terra do Dragão do Trovão. Por isso, o Butão ostenta um dragão branco em sua bandeira laranja e amarela. Butaneses acreditam que a mente, a fala e o corpo têm de estar em harmonia. Eles cultuam o budismo Mahayana, herança espiritual que o povo deve passar para as próximas geraçíµes, pregando a paz, a compaixão e a não-violência.
Os butaneses são adeptos da poligamia, e isso vale tanto para homens e mulheres. Alguns butaneses se casam com várias pessoas de uma mesma família. O quarto rei, Jigme Singye Wangchuk, por exemplo, é casado com quatro irmãs.
A sociedade tradicional butanesa é matriarcal. í‰ hábito local o homem se mudar para a casa da mulher, após o casamento. Herança também costuma ser totalmente transferida í s filhas, na maioria das regiíµes do Butão. Essas tradiçíµes têm se dissipado em virtude da influência de indianos, nepaleses e outros estrangeiros baseados em sociedades patriarcais, que se casam e vão morar no país.
Turismo cultural controlado
Para proteger seu patrimí´nio cultural e ecológico, o governo faz campanhas nas escolas rurais, treina guias turísticos e controla o turismo com mão de ferro. Oficialmente, o país abriu as portas aos estrangeiros em 1974, depois de séculos de isolamento e de muitas discussíµes sobre impacto sociocultural promovidas pelo rei e seus oficiais.
Turistas estrangeiros só entram no país depois de pagar uma taxa diária que varia de US$ 200 (julho e agosto) a US$ 250 (demais meses). A taxa contempla serviços de guia, hospedagem em hotel categoria turística, alimentação (pensão completa) e transporte dentro do país. A idéia não é frear o número de visitantes, mas desenvolver um turismo qualitativo e evitar que o número de estrangeiros seja maior do que o país pode abrigar em seus cerca de 1.900 quartos de hotel.
O Butão tem menos de 700 mil habitantes. Quase 90% de seus residentes vivem da cultura de subsistência e enfrentam problemas de infra-estrutura, como transporte precário e falta de saneamento básico. Quem visita o país deve estar preparado para longas jornadas sem banheiros ou para botar o pé na lama, quando o dia está chuvoso.
*com informaçíµes de UOL Viagem, Wikipedia e Globo Repórter


