Domingo, dia 4 de outubro próximo, vamos às urnas. Poucos sabem o porquê desta data, e não outra. Quando eu era (mais) moço, o dia de eleição era sempre o 3 de outubro, mas por razões mais práticas do que conceituais, acabamos transferindo-o para o domingo imediato. Portanto, lá vamos nós, com a provável ausência às urnas de mais de 20 milhões de idosos com mais de 70 anos que ficam dispensados da obrigatoriedade. Fora os relapsos, ou desinteressados da Política, que preferem pagar a multa de alguns míseros “pilas” do que sair de casa para votar. Descrentes, reiteram que nada mudará…
Já os idosos se justificam: -“Não somos ouvidos”. Com efeito, há tempos, o silêncio dos candidatos a este segmento da população é “ensurdecedor”. Esquerda e direita continuam acreditando no mito de que somos um “País do Futuro”, de jovens, expressão cunhada pelo exilado alemão que chegou, perplexo, ao Brasil, fugido da Alemanha nazista, Stepan Zweit. Nada – ou muito pouco – propõem os candidatos aos mais velhos.
Enfim, lembrando: O dia escolhido para a votação, evoca a data de uma Revolução, a de 03 de outubro de 1930 quando o “Presidente” do Estado do Rio Grande do Sul, Getúlio Vargas, candidato derrotado à Presidência da República, tendo como Vice , João Pessoa, da Paraíba, com apoio (velado) de Minas Gerais inicia um movimento sedicioso que deporá o Presidente ainda em exercício, Washington Luiz, enterrando a Velha República Oligárquica. Mas como? Cruz, credo! Então celebramos o momento crucial da democracia brasileira, votando no dia de uma sedição? Isso mesmo! Assim, como são as criaturas, são os movimentos da História: Contraditórios. A democracia não é um plano inclinado sobre o qual deslizam processos, instituições e protagonismos edificantes. É, mais bem, uma montanha russa, permeada de avanços, retrocessos, revoluções e guerras. De resto, sempre bom lembrar que “democracia”, “República”, “Liberalismo” ou “Socialismo” são, no fundo grandes arcos utópicos, apesar de sua consolidação em Doutrinas, Sistemas e Regimes ao longo da História. Constroem-se, através do tempo, a partir da crítica modelo monárquico inspirado no Direito Divino dos Reis que, bem ou mal, organizou o Poder desde os primórdios da civilização, há quase dez mil anos.
A Revolução de 1930, assim, tornou-se necessária para encerrar uma etapa de nosso desenvolvimento e dar início à outra, marcada pelo advento de uma “civilização industrial nos trópicos”, pela regulação das relações capital-trabalho, pela afirmação dos interesses nacionais diante da voracidade neocolonial, pela organização de instituições nacionais voltadas ao mundo do trabalho. Ela foi o ápice da intensa mobilização dos “tenentes” rebelados contra o Governo de Artur Bernardes que abriram caminho em armas para a modernização do país. Foi o abalo exigido pela Proclamação da República, ao cabo da luta pela abolição na década de 1880, que ainda não se havia sentido. Eclodiu em 1930. Quis o destino que o Rio Grande do Sul, naquele momento, já profundamente mudado pelas administrações republicanas – referência aos governos “castilhistas” -, muito bem demonstradas por Luiz Roberto Targa em seu livro “Gaúchos e Paulistas na construção do Brasil Moderno”, cumprisse o mandato revolucionário, instituindo um Novo Brasil.
Para se ter uma ligeira ideia do estado de espírito daquele fatídico ano de 1930, aliás, muito similar ao que hoje vivemos, veja-se o clima popular diante do que houve, naquela época, quando o féretro de João Pessoa, assassinado, chega ao Rio de Janeiro em 7 de agosto daquele ano:
*“Ouviu-se um grito assim que o ataúde chegou á praça:
‘De joelhos! De joelhos!’
Os milhares de presentes obedeceram. Alguém principiou a entoar, quase murmurando o Hino Nacional, e a massa ajoelhada imitou, com o canto a meia-voz, feito um pranto. Ao se levantar Maurício Lacerda trepou na amureta que separava a praça das dependências do cais e ficou perto da altura do poste. Carlos (Lacerda) diria ao rememorar aquela quinta feira ao lado pai: “Era um corisco falando”.
(…) Até que o orador engatou uma sequência de reverências e imprecações que tatuariam a história:
No esquife que aí vedes não está o corpo de um grande cidadão, o cadáver da nação!; se as liberdades morrem comendo o angu dos poderosos, comendo o bacalhau oficial, tu morreste quando te batias pela moralidade do regime de tua pátria!; os povos , quando se revoltam, não vingam, justiçam! Desprezando eufemismos, o deputado exortou à deposição de Washington Luiz, apontando-o como o idealizador do homicídio: ‘ E vós, Exército e Marinha, que mandastes para fora o imperador que não matou ninguém, até quando abusarás de nossa paciência, abandonando-nos nesta escravidão? Arrematou: Ajoelhe-se multidão, para deixar passar o cadáver deste Cristo do civismo e se erga, depois, para ajustar contas com os Judas que o traíram e punir os carrascos que executaram.*
(*Lacerda – Coração e Tempestade Vol I , Mário Magalhães, Cia das Letras, RJ, 2026 pg.52)

