OPINIÃO – Sobrevivendo ao rali urbano do Bairro Curtume

Para o bairro ser o que é, muita gente boa gastou a sola do sapato. Como não lembrar dos saudosos Sebastião Quincas e Pedro Xele

1 de outubro de 2026
A VOZ DOS BAIRROS Por Dani dos Santos Pereira ________________________

Se você acha que o maior desafio de Torres é subir o Morro do Farol com o vento minuano contra, é porque você nunca tentou cruzar o Curtume de carro — ou a pé — em um dia de chuva.

Morar no Curtume é viver em um estado constante de aventura. O bairro é gigante, cheio de vida, trabalhador e tem o comércio que salva a nossa pele. Mas, vamos ser sinceros: andar por algumas ruas daqui exige habilidades que a autoescola não ensina. É o verdadeiro Rali dos Bairros.

Das histórias de raiz às crateras de hoje

Quem vê o Curtume, (Jardim Eldorado hoje), pulsando e crescendo, às vezes esquece de como tudo começou. Para o bairro ser o que é, muita gente boa gastou a sola do sapato. Como não lembrar dos saudosos Sebastião Quincas e Pedro Xele? Esses pioneiros sabiam o que era poeira e barro de verdade, numa época em que tudo em Torres era mais difícil. Foram homens que fincaram as raízes das suas famílias e da nossa comunidade aqui.

O Pedro Xele foi uma figura mítica e central do desporto amador de Torres, RS. Ele ficou eternizado na história local como o histórico treinador (e um dos grandes símbolos) do Vila Nova, clube tradicional do bairro Curtume.

E a luta não parou no passado. Quem não lembra do Lázaro de Matos, um verdadeiro batalhador na presidência da Associação de Moradores? O homem gastava a saliva e o gogó cobrando melhorias, batendo na porta da prefeitura e defendendo o Curtume com unhas e dentes. Se hoje a gente reclama dos problemas, é porque teve gente gigante como o Lázaro que nos ensinou a ter voz e a exigir o melhor para o nosso chão.

A saga das crateras e o “Asfalto Frio”

Mas, voltando ao nosso rali diário… Dizem que a prefeitura andou jogando o famoso “asfalto frio” em algumas ruas. O problema é que o asfalto é tão frio que parece ter congelado de medo e sumido na primeira garoa. Quando chove, o Curtume não ganha apenas poças d’água; nós ganhamos verdadeiros pontos turísticos. Algumas valas estão tão profundas que os moradores já estão pensando em criar peixes ou cobrar entrada para o “Parque Aquático do Curtume”.

Se você vê um carro andando em ziguezague às oito da manhã na rua, não se assuste. Não é ninguém voltando da festa. É apenas um trabalhador torrense tentando salvar a suspensão do seu Celta 2012 de ser engolida por um buraco que tem ligação direta com o centro da Terra.

A Central de Inteligência do Chimarrão

Mas nem só de perrengue vive o bairro. A melhor tecnologia de segurança de Torres não está nas câmeras de monitoramento: está nas calçadas do Curtume no fim da tarde.

Basta o sol dar uma trégua para as cadeiras de praia de alumínio brotarem nas frentes das casas. É a nossa “Central de Inteligência”. Duas vizinhas conversando no portão conseguem monitorar quem passou de carro novo, de quem é o cachorro que revirou o lixo do vizinho e se a previsão vai dar praia ou vento “nordestão” amanhã. Se a CIA precisasse de informações sobre Torres, bastaria sentar na calçada do Curtume e aceitar um mate.

O Curtume tem buraco? Tem. Alaga um pouquinho? Alaga. Mas tem uma coisa que nenhum bairro de condomínio fechado tem: a história dos nossos pioneiros, a força das nossas lideranças e a capacidade de rir dos próprios problemas enquanto a água bate na canela.

Até a próxima semana, e lembrem-se: se forem passar pelo Curtume em dias de chuvas, verifiquem o estepe e levem um caiaque por garantia!




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