MARIA HELENA TOMí‰ GONí‡ALVES
2012. Abril. Estamos em abril de 2012. O novo ano chegou e vai passando célere. Março passou chegando ao seu final sem novidades. Um mês de tempo quente e seco propício í praia, aos banhos de mar, í s caminhadas junto í orla, aos piqueniques, í s subidas nas torres de falésias, í contemplação das inúmeras tonalidades que o mar adquire ao longo de cada dia amanhecido, no meio da tarde, no final do dia e nas noites de lua cheia. Esse mar constante no seu vaivém contínuo e ininterrupto. O mar. O nosso mar de Torres. O mar das águas de março que não são aproveitadas como poderiam ser se aprendêssemos a prolongar as curtas temporadas de verão adentrando o outono com atraçíµes e eventos.
Estamos em abril, já retomamos nossas rotinas pós veraneio. Da janela da sala de ioga observo as andorinhas que voltaram em bandos e acomodam-se sobre os varais da rede elétrica, sobre o topo dos postes, í s vezes nos peitoris das janelas. Acomodam-se empoleiradas, uma ao lado da outra, muitas vezes na mesma posição como se fossem pequenas estátuas de argila, outras rebeldemente quebrando a harmonia da formação, agitando as asas, fazem pequenos ví´os e trocam de lugar espremendo-se entre as que estão paradas quietamente na fila sobre o varal. Repentinamente, não sei a que sinal obedecem, levantam ví´o em bando e mudam de estacionamento indo acomodar-se em outro fio. Nesse ví´o também se encontram as rebeldes, aquelas que ignoram a ordem e permanecem pacientemente nos lugares em que estavam.
Não sei de onde elas vem, penso que retornam do verão no sul do continente fugindo do inverno que se avizinha e dirigem-se para o calor do norte onde será verão brevemente. Param aqui para descansar e aproveitar os dias de outono, tépidos, mornos, í s vezes ainda muito quentes como nesse ano de 2012, mas sempre luminosos, dourados pela luz do sol que é menos intensa nessa época, porém mais densa, mais radiante. Observo-as e penso que seria muito bom ser migrante como as andorinhas, como os ciganos, como os veranistas de antigamente. Nos veríµes mudar para perto do mar, mudar para lugares mais quentes, porém amenos, levar a carroça com a tenda e os pertences essenciais e acampar í margem das cidades costeiras ou acomodar a bagagem no porta malas do carro e ir direto para a casa na praia. Mas eu queria mesmo fazer como fazem as andorinhas. Fugir do inverno do sul que nos enregela os ossos, nos endurece as pernas nas caminhadas, nos encolhe o corpo que se dobra a força dos minuanos e das lestadas, que se encolhe, dobra, curva, cai, arrasta-se, levanta-se, esforça-se por seguir adiante e enfrenta com cara e coragem o frio áspero e cortante dos invernos no sul. Queria mesmo debandar como elas, as andorinhas e seguir rumo í linha do Equador, no meio do planeta Terra, lá onde sempre faz calor, onde as estaçíµes se confundem e o inverno é apenas a estação das chuvas. Nunca soube por que será que não vou para o norte junto com elas a fugir do frio…
Creio que não vou para o norte porque sou um ser com raízes, custo a me locomover e quando o faço fico louca para voltar logo para casa, para Torres. Apesar do desejo intenso de fugir do frio, não quero fugir da vida aqui e das suas dificuldades, dos seus problemas, da sua conjuntura. Bastaria aprendermos a encompridar os veríµes e tudo ficaria melhor. Bastaria promover mais eventos e tornar a cidade aquecida com a presença de visitantes de outono e de inverno. Bastaria aproveitar os dias de sol e aprender a vender mais sorvete embora lá fora faça um friozinho malvado, bastaria muito pouco para vivermos bem e fazermos aqui o inverno mais quente do Rio Grande, bastaria aprender, apesar do frio, a trazer turistas para cá ao longo do ano todo. Assim, a gente ficaria em casa com mais prazer, embora esteja frio, pois teríamos que continuar atendendo as visitas cumprindo nossa vocação de hospedeiros.


