Francisco Raupp, no livro Do alto da Torre, descreve com uma aterradora clareza o sentimento comum no litoral gaúcho quando termina a temporada de veraneio.
Eis-me espiritualmente em Torres, no jardim da minha casa. Fim de março de 1984 e é quase noite. Noto que uma transformação se opera em torno de mim. O verão estertora. Há uma volúpia incontida, quase pânico. Nenhuma promessa. […] Que estará ocorrendo? Por que essa ansiosa expectativa pelo amanhã se apossou da cidade? As casas, os bares, os hotéis, as fruteiras, estão fechados. […] A cidade foi varrida. Os visitantes foram chamados pelos seus deveres, deixando apenas os seus rastros, porque os seus rostos se diluíram na retina dos que ficam, no primeiro sol outonal. […] Imantado das dores e inquietação da minha cidade, reflito e concluo: é o fim da temporada. Agora, a hibernação, o longo sono até chegar o novo verão.
Buscando auxílio no dicionário, conceituo a palavra Hibernar como tempo de espera, inércia passageira, espera de um período que vai passar. O urso hiberna no inverno, o computador hiberna quando não é usado e o litoral hiberna após a temporada.
Muitas praias ficam realmente em um estado letárgico esperando a próxima temporada, quase morrem, mas acordam a tempo de iniciar uma nova temporada, um novo ciclo.
Torres possui aspectos de cidade e não mais se enquadra como balneário de verão, porém tem muito a fazer para se transformar em uma cidade ativa durante o ano todo.
Para quem fica o rompimento é brusco e é preciso um tempo para a readaptação ao modelo. O modelo de muitos bares/restaurantes/hotéis abertos para o modelo de poucos bares/restaurantes/hotéis abertos. O modelo de até 200 mil pessoas para o modelo de 40 mil habitantes. O modelo de ruas lotadas para o modelo de ruas quase vazias. O modelo do verão ou alta temporada para o modelo inverno ou baixa temporada
Como se vê no texto de Raupp, há 28 anos, o cenário descrito é ainda muito parecido com o cenário atual. Ainda temos muito de balneário, mas agregamos muitas características de cidade. Temos uma universidade que empresta a Torres feiçíµes de cidade universitária na hibernação da cidade balneária. í‰ pouco.
Mas muitos ainda acham que ao final da temporada a cidade é devolvida aos torrenses, e felizes vão passar suas férias em Santa Catarina. E na volta curtirão o sossego da cidade nos próximos dez meses.
Cidade o ano inteiro. Tumulto no verão. Sossego no inverno. Cidade universitária. Cidade Balneária. O que queremos? Tudo? Um pouco de cada? Ou nada?
Não há uma metamorfose, há uma cisão, um rompimento seguido de um vazio. Rompe-se o barulho com o silêncio, interrompe-se o trânsito confuso com o desfile do nada. í‰ o caos do silêncio.
Roni Dalpiaz


