Menina teve rosto marcado com ácido por um homem e sua gangue, após recusar se casar com ele. Sua mãe e irmãs também foram atingidas, e o pai espancado
*Por Guilherme Rocha
Uma pesquisa entre especialistas da Fundação Thomson Reuters, de Londres, classificou o Afeganistão como o lugar mais perigoso do mundo para as mulheres viverem. Entre os motivos estão os altos níveis de estupro, violência doméstica, mutilação genital e ataques com ácido. E nesta semana, um novo fato no Afeganistão chocou o mundo.
Homem corta a língua da própria esposa
Mesmo após o fim do regime do Taliban, o recente crescimento no número de mulheres vítimas de violência doméstica volta a assustar o Afeganistão.Nesta semana, um homem de 22 anos foi preso no norte do país após cortar a língua da esposa durante uma discussão. A agressão ocorreu na casa do casal no vilarejo de Jangory, na região de Balkh, no norte do Afeganistão.
Policiais identificaram o nome do agressor como Saleh e afirmaram que a mulher, de apenas de 20 anos, estava grávida de sete meses. Segundo as autoridades, ela perdeu o bebê por causa do ataque. Ela foi encaminhada imediatamente a um hospital da região, onde os médicos de plantão conseguiram reimplantar a língua. Ainda não se sabe, contudo, se ela poderá voltar a falar.
Agressíµes contra mulheres são corriqueiras no Afeganistão
A agressão em Jangory é o episódio mais recente de uma série de incidentes de violência doméstica que vêm ocorrendo no Afeganistão. No início deste mês, os padrastos de Sahar Gul, de 15 anos (da província de Baghlan, no norte do país), foram condenados a 10 anos de prisão depois de serem acusados de torturá-la, aparentemente porque ela se recusava a trabalhar como prostituta.
A jovem Mumtaz, de 18 anos, rejeitou o pedido do noivo e se casou com outro homem. O ex-noivo não gostou e, com mais seis homens armados, invadiu a casa da jovem na última terça-feira, espancou o pai dela e jogou ácido nela, em suas duas irmãs e na mãe.
Há pouco mais de duas semanas, duas meninas de 10 e 13 anos se enforcaram na província central de Ghor, depois de serem descobertas vestidas como meninos, para que pudessem visitar um vilarejo próximo. Em algumas partes das zonas rurais do Afeganistão, mulheres são proibidas de viajar sozinhas ou sair de casa sem permissão. Autoridades afirmaram que as duas meninas foram submetidas a uma "pressão mental extrema" de seus parentes por, supostamente, envergonharem suas famílias.
Menino ou menina?
Três meninas usam roupas brancas e cobrem seus rostos com véus. Mas Mehrnoush, a quarta menina, veste terno e gravata. Na rua, Mehrnoush não é mais uma menina, e sim um rapaz chamado Mehran. Azita Rafhat é uma ex-parlamentar afegã, não teve filhos homens, e para evitar as provocaçíµes que famílias assim sofrem no Afeganistão, ela tomou a decisão radical de mudar a criação de Mehrnoush. "Mesmo que você tenha uma boa posição no Afeganistão e está bem de vida, as pessoas veem você de forma diferente se não tiver um filho homem. Elas dizem que a sua vida só é completa se você tem um filho", diz Azita. Rafhat, uma ex-parlamentar afegã.
Muitas meninas vestidas de rapazes andam pelas ruas no Afeganistão. Algumas famílias optam por esse caminho para permitir que elas consigam empregos em lugares públicos, como em mercados, já que mulheres não podem trabalhar na rua. Esse tipo de atitude não é incomum no país. Existe até mesmo um termo “ Bacha Posh “ para meninas que são vestidas como garotos.
A tradição existe a séculos no Afeganistão. De acordo com o sociólogo Daud Rawish, de Cabul, isso pode ter começado durante períodos de guerra no passado, quando mulheres eram vestidas de homens para poderem ajudar a combater os inimigos.
A tradição teve efeitos devastadores em algumas meninas, que sentem um conflito de identidades e acreditam ter perdido parte fundamental de suas infâncias. Para outras, a experiência foi positiva, já que elas tiveram liberdades que nunca exerceriam, caso tivessem sido criadas apenas como garotas.
Mulher, jornalista, afegã: perigo no próprio país
O Afeganistão está classificado entre os países mais perigosos para os jornalistas. As mulheres estão particularmente expostas e são, frequentemente, impedidas de fazerem o seu trabalho, quer pelos grupos religiosos, forças de segurança locais ou pelo seu próprio círculo de conhecidos e mesmo familiares: Alguns elementos da nossa família cortaram relaçíµes conosco, porque não queriam dar-se com pessoas cuja filha trabalhava em televisão, e muito menos com homens, indica a afegã Frozan Rahmani, que tem 28 anos e é jornalista há cerca de 10 em seu país natal.
Sou um produto da guerra, nasci na guerra, cresci na guerra e continuamos a viver na guerra. Ela acabou por tornar-se banal para nós, já não sinto pânico ou medo. E mesmo quando há explosíµes, em qualquer lado, ou um ataque, ou qualquer outra coisa do género, o que quero é ir para o terreno para fazer o meu trabalho enquanto jornalista, explica Frozan.
O reconhecimento profissional das mulheres, no Afeganistão, está longe de ser conseguido e o acesso ao círculo do poder ainda menos. Uma perda para o Afeganistão, segundo esta jornalista. As mulheres são seres sensíveis. E são, frequentemente, capazes de apaziguar os espíritos agressivos e violentos dos homens. E, em matéria de paz, as mulheres são competentes, finaliza Frozan Rahmani
Levante de movimentos feministas busca mais segurança
Apesar de a Constituição da era pós-Talebã promulgada no Afeganistão conferir direitos iguais a homens e mulheres, a ONU estima que a grande maioria das afegãs já foi submetida a algum tipo de violência doméstica. Por isso, grupos feministas já realizaram seguidos protestos nos últimos meses, para expressar preocupação sobre o fato de que as melhorias conquistadas até agora nos direitos das mulheres podem sofrer uma reviravolta com a eventual inclusão de representantes do Talebã em um futuro governo.
Na última quarta-feira (30-05), na capital do país, Cabul, representantes da Rede de Mulheres Afegãs – uma organização nacional de ativistas feministas – afirmaram estar preocupadas sobre o que poderia acontecer com as mulheres após a saída das tropas internacionais em 2014. Elas reivindicaram ao governo uma proteção mais ampla í s estudantes das escolas do país após uma série de misteriosos envenenamentos, que teriam sido cometidos pelo Talebã.
*Com informaçíµes de EuroNews e BBC Brasil


