Os desafios da agricultura familiar (Parte 1): Soluções para o futuro

10 de julho de 2012

 

O experiente agricultor Bruno Machado, de Lajeadinho

 

Por Guile Rocha*

 

 O governo federal anunciou nesta semana que disponibilizará bilhíµes de reais em recursos para a agricultura familiar. Uma medida importante que privilegia estes pequenos agricultores, homens do campo responsáveis por produzir grande parte da alimentos que chegam as nossas mesas. Mas é preciso um olhar mais aprofundado para perceber a realidade e as dificuldades que envolvem as 4,6 milhíµes de famí­lias brasileiras que se sustentam a partir do trabalho na roça.

 

 

Investimento bilionário anunciado para a agricultura familiar

 

O ministro do Desenvolvimento Agrário, Pepe Vargas, anunciou nesta quarta-feira (4) que o governo disponibilizará R$ 22,3 bilhíµes em recursos para o Plano Safra da Agricultura Familiar 2012/2013 e aumentará os limites de financiamento para custeio, investimento e comercialização na área.

Deste total, R$ 18 bilhíµes correspondem a crédito para financiar operaçíµes de custeio e investimento do Pronaf, o Plano Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar. Esse volume, segundo o ministro, representa crescimento de mais de 400% em 10 anos. Nos dois anos anteriores, o total disponibilizado para crédito foi de R$ 16 bilhíµes. A taxa de juros para todas as linhas de financiamento será de até 4%.

O restante dos recursos será empregado em outros programas voltados para agricultura familiar, entre eles, o Programa de Aquisição de Alimentos (R$ 1,2 bilhão), o Seguro Agricultura Familiar (R$ 480 milhíµes), Assistência Técnica e Extensão Rural (R$ 542 milhíµes) e o Garantia Safra (R$ 412 milhíµes) que, a partir de janeiro do ano que vem, deixará de beneficiar apenas os agricultores familiares do semiárido e será estendido a todo o paí­s.

Os recursos anunciados se destinam ao ano agrí­cola 2012/2013 “ perí­odo que vai de julho a junho do ano seguinte. O Pronaf financia projetos individuais ou coletivos que gerem renda aos agricultores familiares e assentados da reforma agrária.

 

 

A grande importância do pequeno agricultor

 

A chamada agricultura familiar constituí­da por pequenos e médios produtores, representa a imensa maioria de produtores rurais no Brasil. No Censo Agropecuário de 2006 foram identificados mais de 4,3 milhíµes de estabelecimentos de agricultura familiar. Eles representavam 84,4% do total, mas ocupavam somente 24,3% da área dos estabelecimentos agropecuários brasileiros. Enquanto isso, os estabelecimentos não familiares representavam 15,6% do total e ocupavam 75,7% da sua área.

Dos 80,25 milhíµes de hectares da agricultura familiar, 45% eram destinados a pastagens, 28% a florestas e apenas 22% as lavouras. Ainda assim, a agricultura familiar mostra seu peso na cesta básica do brasileiro. Os dados do Censo de 2006   mostram que os pequenos produtores são responsáveis por 87% da produção nacional de mandioca, 70% da produção de feijão, 46% do milho, 38% do café, 34% do arroz e 21% do trigo. Na pecuária, a agricultura familiar também se destaca:   produz 58% do leite, 59% do plantel de suí­nos, 50% das aves e 30% dos bovinos.

As informaçíµes sobre educação na agricultura familiar revelam avanços, mas também desafios: entre os 11 milhíµes de pessoas envolvidas na agricultura familiar existiam pouco mais de 4 milhíµes de pessoas (37%) que declararam não saber ler e escrever. A maioria destes formada principalmente por pessoas de 14 anos ou mais de idade (3,6 milhíµes de pessoas).

 

 

Conversando com o secretário da agricultura de Torres

 

 

Secretário da Agricultura de Torres, José Vargas Perez

José Vargas Perez é o secretário do Interior e de Desenvolvimento da Agropecuária e da Pesca Torres, sendo ele próprio um experiente homem do campo que agora aplica seus conhecimentos para auxiliar o produtor rural de nossa cidade. O agricultor deve estar motivado, ter consciência da importância do seu papel na sociedade como produtor, pois depende do trabalho da agricultura familiar a maior parte dos alimentos que são encontrados na cesta básica. A agricultura ecológica é um outro nicho que deve continuar sendo explorado pelos pequenos produtores rurais, pois a sustentabilidade e a redução no uso de agrotóxicos são pontos que vem sendo cada vez mais valorizados.

O secretário lembra de alguns importantes métodos alternativos que estão sendo desenvolvidos na cidade relacionados com a agricultura sustentável, e que ao mesmo tempo podem possibilitar uma diversificação na produção do pequeno agricultor. Para plantaçíµes de milho, estamos indicando o uso de uma espécie de vespa ao invés de agrotóxicos. Esta vespa se alimenta dos ovos da lagarta do cartucho (praga biológica que nem os venenos conseguem eliminar) e tem tido resultados bastante satisfatórios. Ainda estamos trabalhando com o marreco de Pequim para controle de pragas nas lavouras de arroz, e a saborosa carne destes marrecos podem servir ainda como fonte de alimento. Também está sendo ampliado o número de açudes com água para irrigação, uma solução aos tempos de seca.   Nestes mesmos açudes a piscicultura vêm sendo desenvolvida, com peixes como a tilápia e a carpa sendo criados o para consumo e venda, explica.

Em busca de aumento na renda do agricultor, José Vargas Perez falou da importância de diversificar a produção e modernizar o maquinário, e citou as açíµes da prefeitura visando novas oportunidades aos homens do campo.  Todos os municí­pios tem que ter ao menos 30% da alimentação escolar sendo proveniente da agricultura familiar. Porém, aqui em Torres cerca de 70% da merenda escolar é decorrente do trabalho de pequenos produtores da cidade, sendo que todos os produtos são orgânicos. Somente neste processo da merenda, são 25 famí­lias do meio rural de Torres que conseguem um importante complemento em sua renda.   analisou   o secretário, que complementa indicando a realização de duas feiras no municí­pio, espaço onde o pequeno agricultor pode vender seus produtos e abrir novas portas para a geração de renda.

Sobre os problemas de sucessão no campo, o secretário de agricultura de Torres ressaltou a importância dos jovens valorizarem o campo como local produtivo. Muitos jovens deixam o campo com sonhos de uma vida melhor na cidade, com mais opçíµes de lazer, estudos e trabalho. Porém, ao chegar nas cidades maiores, estes jovens as vezes acabam marginalizados, trabalhando em subempregos e com condiçíµes mais precárias do que tinham na lida da roça. A realidade é que no campo o custo de vida é geralmente menor, se vive sem precisar de tanto dinheiro. Além disso, hoje mesmo as cidades mais afastadas já tem acesso a internet via rádio, sinal de telefone celular, serviços que disponibilizam mais informação e cultura aos moradores do meio rural, finaliza José Vargas Perez

 

 

 

 

A palavra de um experiente homem da roça

 

Encontrei Bruno Machado trabalhando em sua lavoura de milho na comunidade do Lajeadinho, interior de Três Cachoeiras. Aos 71 anos, ele vive no campo desde que nasceu, e lida na roça desde criança até hoje. Para mim o trabalho na lavoura é um estilo de vida, é o que sei fazer, o jeito que gosto de viver. Planto milho, cana de açucar, aipim, principalmente para a alimentação do gado mas também para o consumo pessoal. No passado eu também tinha mais terras, vendia mais   produtos. Hoje já estou aposentado e cansado, por isso trabalho menos, mas nunca paro, indica o agricultor.

Ele conta que seus filhos lhe ajudavam no trabalho da roça quando eram adolescentes. Porém, o tempo foi passando e os filhos foram para Três Cachoeiras, não se interessaram pela lida no campo pois na cidade as oportunidades são maiores.  Hoje minha filha tem uma loja, meu filho trabalha em uma empresa. A verdade é que a vida no campo é uma vida de muito trabalho, e que não oferece muitas opçíµes. Além disso, para crescer na agricultura é preciso estar sempre investindo, comprando novas máquinas, tratores, explica Bruno Machado.

Ao menos, o pequeno agricultor do Lajeadinho indica que, na atualidade, existem maior facilidades no crédito para que o homem do campo possa adquirir os tão importantes maquinários agrí­colas. Acho que, aos poucos, o trabalho na roça está sendo mais valorizado, mas continua difí­cil transformar as lavouras mais lucrativas pro agricultor. Tem que trabalhar muito, conclui Bruno.

 

 

 

*Com informaçíµes de IBGE, Embrapa e G1


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