í‰ nas crises que sentimos na carne como funciona a hierarquia real na vida, nas coisas, na relação cidadão/Estado. Na terça-feira passada (10/7), o governo do Estado do Rio Grande do Sul anunciou aos quatro ventos que vacinou os servidores do Centro Administrativo do próprio Estado. A matéria, divulgada na capa do site do governo estadual, estava sendo publicadas no mesmo momento onde, nas cidades gaúchas, sem exceção, filas e filas se formavam nos postos e saúde por contribuintes, simples viventes civis, na busca de imunização. E, na grande maioria dos casos, estes membros da sociedade, de todas as classes sociais, mas principalmente pessoas pobres, voltavam para casa sem serem vacinadas. A desculpa? Falta e vacina e pouca possibilidade da regularização do estoque. A questão é emblemática. Mostra com provas cabais o sistêmico e crescente domínio que o Estado em geral, principalmente os governos estaduais e o federal, imprime sobre a sociedade.
O Centro Administrativo, na Capital, é, sim, um dos locais que qualquer política pública de saúde deveria elencar como uma das prioridades em vacinação. Mas existem outros vários muito mais importantes, principalmente em se tratando de uma decisão de governo, que teoricamente serve para todo o Estado. O que dizer das escolas infantis? O que dizer dos asilos de velhinhos? O que dizer das gestantes? O que dizer das escolas públicas? Mas não. O Estado cedeu í pressão corporativista e imunizou os servidores públicos da própria casa, deixando pessoas nas filas desesperadas por todos os municípios gaúchos, que sem saber em quem colocar a culpa, colocando-a em cima das prefeituras municipais, que não possuem sequer rubrica para a compra de vacina, uma exclusividade do Estado, da nação.
Certamente muito servidor que ganha o teto salarial e não possui competência sequer para ganhar um salário mínimo (como foi denunciado em matéria de ZH na terça-feira) recebeu mais um benefício do Estado. Os secretários, seus staffs e todos os funcionários que os cercam foram imunizados. Afinal, a central onde os nobres servidores trabalham recebeu imunização. Por outro lado, famílias inteiras de pessoas humildes e sem conteúdo cultural para saber o que fazer em casos agudos (como o que passamos perante a iminência de sofrermos mais uma epidemia de gripe H1N1) voltam pra casa. Sentem-se como os passageiros do subsolo do Titanic se sentiram quando em seu naufrágio. Se sentem seres inferiores, pessoas totalmente manipuladas por uma coisa que sequer sabem explicar o que seja. Sente-se, afinal, como súditos de um Estado que se diz democrático, mas que na prática é autocrático, embora ainda diga e tenha sido eleito pelo discurso de difusor de políticas públicas de igualdade.


