Maria Helena Tomé Gonçalves (mhtome@hotmail.com)
Houve quem não concordou com minha posição sobre determinados conteúdos matemáticos constantes dos programas de ensino das nossas escolas de nível fundamental. Ninguém deve concordar com isso sem analisar amplamente o panorama brasileiro. Num jornal diário dessa semana foi apresentada uma real e dolorosa estatística sobre os índices de alfabetização do povo brasileiro: alfabetizados em nível pleno “ 26%; alfabetizados em nível básico “ 47%; analfabetos funcionais “ 27%, resultado de Pesquisa realizada pelo INAF 2011/2012, publicado em Zero Hora do dia 18 do corrente, página 30. Dos concluintes do Ensino Médio somente podem ser considerados alfabetizados plenamente 35% e dos brasileiros com formação superior 38% apresentam nível insuficiente de leitura e escrita. Vale a pena ler essa matéria e entender o quanto é injustificável serem aprovados alunos em cursos de nível médio e superior que apresentam níveis deficientes de leitura e escrita. Temos tantos analfabetos quanto alfabetizados em nível pleno. Isso somente demonstra a falência do nosso atual sistema de ensino.
Outro fato relevante que vem sendo abordado pela imprensa de forma intensiva é o endividamento do povo brasileiro. Talvez isso aconteça realmente graças ao eficiente sistema de marketing utilizado pelas empresas capaz de convencer qualquer um a comprar até vento engarrafado, porém se deve também ao fraco conhecimento de matemática financeira do nosso povo. Deve ser muito difícil a um cidadão analfabeto funcional ou alfabetizado em nível rudimentar fazer cálculos rápidos de juros e multas para não comprometer todo o seu salário em módicas prestaçíµes mensais de forma controlada e razoável. As nossas necessidades básicas, í s vezes nem tão básicas assim, mas que atendem ao nosso desejo íntimo de ter aquele objeto, extrapolam a capacidade de raciocínio lógico e de realização de operaçíµes fundamentais de somar, subtrair, multiplicar e dividir, de calcular juros e porcentagens e número de parcelas e ajustar tudo isso í renda mensal familiar. Esses são conteúdos que precisam ser trabalhados intensivamente na escola básica, pois são necessidades vitais diárias de todos os indivíduos.
Diante desses fatos questiono para que serve saber álgebra e logarítimos se muitos de nós concluímos o curso superior com deficiências até de leitura, lembrando que ler significa não só decifrar símbolos gráficos, mas atribuir-lhes significado e, fundamentalmente, entender sua mensagem. í‰ preocupante também a declaração que integra os documentos para candidatura a cargos eletivos em todos os níveis, uma declaração simplista na qual o candidato diz que sabe ler e escrever e jura estar falando a verdade, especificando também seu nível de escolaridade. Deveria ser evidente que quem não sabe ler e escrever não pode absolutamente candidatar-se. Isso não é discriminação, isso significa aceitar a inscrição de candidatos possuidores de um instrumental mínimo para o exercício do cargo: ler e escrever correntemente. Por isso, a candidatura deveria pautar-se também sobre um mínimo de escolaridade, pelo menos, ensino fundamental completo. Na era pós Lula pode ser considerado até ofensivo dizer que quem não possui um mínimo de escolaridade não pode exercer cargos públicos eletivos, pois o nosso ex-presidente faz questão de salientar o fato de não ser um Homem de Estudos, mas de Vivências e que, mesmo assim, chegou ao cargo mais alto do país.
Quando o francês De Gaulle no passado, disse que o Brasil não era um país sério, ficamos ofendidos porque ouvir isso de um estrangeiro é, no mínimo, constrangedor, além de ser uma deseducada falta diplomática e também comprovar o enorme pedantismo e a falsa superioridade do povo europeu sobre o resto do mundo. Mas o homem tinha razão, se fí´ssemos sérios, nosso sistema educacional usaria os atuais nove anos de escolaridade obrigatória como forma exponencial de inclusão social através do verdadeiro preparo para a vida de cidadão.


