Milhares de argentinos, convocados pelas redes sociais, saíram í s ruas de Buenos Aires na última quinta-feira (08) para um "panelaço". Os atos reuniram pessoas em várias cidades na Argentina e também grupos no exterior, e revelou o descontentamento de parte da população com o governo e a divisão da sociedade Argentina. As principais bandeiras dos manifestos foram contra insegurança, a proibição da compra de dólares, a corrupção e a reeleição para um terceiro mandato da presidente Cristina Kirchner.
No protesto de quinta-feira, batizado de 8N (8 de novembro), a maioria dos manifestantes em Buenos Aires vestia camiseta branca, erguia bandeiras e globos azuis e brancos, cores da bandeira argentina, batia panelas, garrafas e pratos em vários pontos da capital.Eles exibiam cartazes com as frases: "Liberdade", "Imprensa livre", "Chega de inflação", "Basta de corrupção" e "Não í reforma da constituição para terceiro mandado da presidente".
Protesto multiplicado pelas redes sociais
O protesto, divulgado principalmente pelas redes sociais, não teve caráter partidário ou sindical. A multidão, salpicada, ocupou o Obelisco sob um grande cartaz com a frase "Chega de matar", em alusão a crescente violência criminal no país. O protesto também invadiu a tradicional Praça de Maio, diante da Casa Rosada, sede do governo. Balíµes azuis e brancos traziam o pedido de "Justiça independente" flutuando sobre a multidão, que interrompeu o trânsito na Avenida Corrientes, no centro de Buenos Aires.
O protesto foi acompanhado por argentinos que vivem em Nova York, Washington, Paris, Roma, Madri, Toronto e Miami. Em Londres, cerca de 150 argentinos repetiram o "panelaço" diante da embaixada da Argentina. "Quero voltar, mas como a situação está agora não é possível. Está muito complicado para todos", disse í AFP Micaela, uma jovem de 29 anos que mora há três na capital britânica, onde trabalha com pesquisa de mercado. "O mais preocupante para mim é a insegurança e a falta de liberdade. Já não há liberdade de expressão (…) e não se pode trocar dólares, as pessoas não podem poupar em dólares. Isto é uma vergonha, com um país cheio de recursos, não há explicação".
A revista Noticias, de Buenos Aires, publicou uma matéria de capa sobre a sociedade dividida, entre antikirchneristas e kirchneristas. Ou seja, os que reprovam as medidas e o estilo do governo e os que apoiam o governo nacional.
Classe média insatisfeita
Para evitar a politização das manifestaçíµes, políticos de oposição fizeram apelos para que deputados e senadores não comparecessem ao encontro."A manifestação foi espontânea e não podemos prejudicar uma bandeira que é popular", disse a BBC a deputada Victoria Donda. Vozes do governo criticaram o protesto. "í‰ coisa da ultradireita", afirmou o deputado Aníbal Fernandez, ex-ministro do governo de Nestor Kirchner
Analistas políticos ouvidos pela BBC Brasil, Jorge Giacobbe, da consultora de opinião publica Giacobbe e Associados, que observara que a maioria da população argentina é de classe média e a "atitude da presidente não é tolerada". Já Mariel Fernoni, da Management&Fit, entende que o governo não fala sobre os assuntos que preocupam os argentinos, como a inflação e a insegurança pública e esta atitude, afirmou, contribuiu para queda na popularidade da presidente.
Em debate na TV C5N, o apresentador disse: "Parece que passou a ser pecado ser de classe media na Argentina. Somos um país de classe média, mas agora o governo parece ser contra essa classe e foi ela que protestou hoje em sua grande maioria", disseram.
Kirchner: da aprovação as críticas
Kirchner chegou ao poder em 2007 e em 2011 foi reeleita para um segundo mandato, que concluirá em 2015. A Constituição argentina não permite uma segunda reeleição, mas setores do governo já falam em uma reforma ao estilo do presidente venezuelano, Hugo Chávez. Porém, a idéia é rejeitada por mais de 80% da população argentina, segundo pesquisas.
Mas a principal preocupação dos argentinos é a violência crí´nica, traduzida em assaltos, e a inflação, ainda segundo as pesquisas. As últimas pesquisas de opinião revelam uma significativa queda na aprovação de Kirchner – reeleita em outubro passado com 54% dos votos – devido ao agravamento da situação econí´mica na Argentina (provocado pela crise internacional). As eleiçíµes para a renovação da metade da Câmara dos Deputados e de um terço do Senado estão previstas para outubro de 2013, e segundo os analistas, dificilmente Kirchner obterá uma vitória capaz de lhe assegurar os dois terços do Congresso necessários para reformar a Constituição.
*com informaçíµes de BBC Brasil, G1 e AFP


