Paula Borowsky
Por que muitas vezes não conseguimos guardar um segredo?
Poderíamos considerar que seja pela inexplicável compulsão das pessoas ao controle do comportamento alheio e ao autoproclamado direito de julgar e condenar ao suplício do comentário fácil e irresponsável. Estamos falando da necessidade que as pessoas têm de comentar com senso crítico a vida dos outros; em outras palavras, fazer fofoca.
Dizem que existe fofoca pelo simples motivo de vivermos em sociedade. Para que isso seja justificativa suficiente, vale lembrar que para que um grupo de pessoas passe a ser considerado uma sociedade, é necessário que tais pessoas tenham interesse umas pelas outras. Nesse caso, é inevitável que umas comentem sobre as outras. De certa forma, ao fazer um comentário sobre alguém, estamos tentando compreender a essência da própria espécie humana, portanto estamos fazendo um exercício de autoconhecimento. Aquele que não se interessa por ninguém padece de uma sociopatia que o leva a se afastar do convívio, o que prejudica até a relação intrapessoal. Portanto, parece que todo mundo faz fofoca. O que varia entre as pessoas é a quantidade e a natureza da fofoca que fazem. Há gente muito fofoqueira como maledicência, realmente prejudicando os que são seus alvos; e há os que se divertem com fofocas inocentes. Mas todo mundo faz fofoca, é da natureza humana.
O grande mal da fofoca é a parcialidade da interpretação de quem a faz. Comentar algo sobre a vida de alguém é uma coisa, emitir juízo de valor sobre a mesma é outra. Dizer que o chefe do escritório está trabalhando demais e tem apresentado sinais de estresse é uma coisa; mas insinuar que ele fica no escritório porque, provavelmente, está brigado com a mulher e ainda por cima desconta em cima dos funcionários é outra totalmente diferente. Aliás, ambientes de trabalho são um caldo de cultura ideal para crescimento da fofoca. Nesse caso, fofoca é como estresse: não dá para evitar, mas da para administrar.
As empresas modernas estão muito interessadas em gerar bom clima organizacional, o que equivale a ter um ambiente de trabalho saudável, em que as pessoas convivem em harmonia, colaborando umas com as outras. O coleguismo ultrapassa a relação profissional, ainda que não se transforme necessariamente em amizade. Há discordância, mas também há respeito. Nesse tipo de ambiente, se houver fofoca, não será destrutiva. Mas quando as funçíµes se sobrepíµem, e o que deveria ser colaboração se transforma em competição, é quase inevitável que a fofoca venha na garupa dos cavaleiros do apocalipse corporativo. Muitas vezes ela é infundada, e leva a difamação, podendo até gerar processo judicial. O fato é que sempre estaremos ligados a fofocas, ou como vítima ou como agentes. E que, se há uma possibilidade, ainda que pequena, de que sejamos menos vítima, o caminho é sermos menos agente.
Parece que as pessoas sentem mais culpa em comentar a vida daqueles que não se metem na vida de ninguém e, ao contrário, não só as preservar como as defendem. Em outras palavras, quem não quer ser vítima de fofoca, que não fofoque. E esse alerta vale tanto para homens quanto para mulheres. Não se enganem as mulheres nem se ufanem os homens. Ambos fofocam. Podem variar o foco e a intenção, mas o princípio é o mesmo. Se você não consegue guardar seus segredos com você mesmo, então, como pode esperar que o outro não comente o que você contou?


