Tragédia de Santa Maria: Repercussões do CRIME que chocou o Brasil

2 de fevereiro de 2013

 

 

O Rio Grande do Sul foi local de uma tragédia sem precedentes na madrugado do último domingo. O incêndio na boate Kiss, em Santa Maria, tirou a vida de  235 pessoas (até quinta-feira, 31) – sendo a maioria jovens universitários –   e deixou nosso paí­s vestido em uma espécie de luto solidário e generalizado.  

 

Tragédia e crime

 

Na casa noturna Kiss, um sinalizador foi lançado por um cantor no auge de sua euforia. Faí­scas coloridas chamavam a atenção do jovem público, enquanto uma triste tragédia começava a se desenhar. Num piscar de olhos, as faí­scas transformaram-se em fogo no teto da boate, forrado por uma revestimento em espuma   (que serve para isolamento acústico) . Uma densa fumaça foi rapidamente se espalhando,   e logo um grande tumulto formou-se.  Pessoas tentavam desesperadamente encontrar uma saí­da   para fora da Boate Kiss. Mas para muitos não houve saí­da, simplesmente porque ela não existia. Um extintor de incêndio foi usado para apagar as chamas, porém o artefato falhou. A fumaça provocou pânico e, na correria, alguns jovens acabaram sendo pisoteados.Enquanto fogo e fumaça tóxica se alastravam, não havia uma iluminação de emergência para se indicar um caminho, nem sequer  um sistema de ventilação adequado.

Enquanto ainda não sabiam das proporçíµes da catástrofe, seguranças da boate barravam pessoas que tentava sair do recinto sem pagar. Apenas quando o público forçou a saí­da que os estes funcionários da casa noturna perceberam as dimensíµes do que estava acontecendo. Reconhecendo a situação de calamidade, algumas pessoas que conseguiram sair do estabelecimento tentavam ajudar: uns tentavam colocar as paredes abaixo, outros retornavam a boate buscando resgatar seus amigos, irmãos…. Mas muitos destes jovens, dotados por uma grande dose de adrenalina e heroí­smo, infelizmente não retornaram.

                      Além dos 235 mortos na tragédia, outra informação lamentável é que, segundo o Ministério da Saúde afirmou na quarta-feira (30), dos 118 feridos, 75 estão em estado crí­tico.

 

                Muitos responsáveis… mas alguém assume?          

 

O incêndio na casa noturna Kiss, em Santa Maria, começou na madrugada de domingo durante a apresentação de uma banda que usava sinalizadores para um show pirotécnico.

O QUE DIZ A BANDA – Os integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que tocava na boate Kiss, disseram em depoimento ao Ministério Público que o incêndio teria começado com uma pane elétrica em equipamentos, e não por causa dos sinalizadores. Segundo reportagem publicada pelo Uol, os dois membros da banda detidos para colaborarem com as investigaçíµes disseram que os sinalizadores usados durante o show "não tinham pólvora e não podiam incendiar material algum". Porém, a Polí­cia Civil de Santa Maria, responsável pela investigação do caso, aponta que todos afirmaram que o fogo começou no mesmo lugar, no teto, do lado direito do palco, onde o vocalista da banda fazia o show pirotécnico".

Quatro pessoas foram presas após a tragédia: o dono da Kiss, seu sócio e dois integrantes da banda Gurizada Fandangueira, que se apresentava na casa noturna.

ASSOCIAí‡íƒO DE PIROTECNIA – O presidente da Associação Brasileira de Pirotecnia, Eduardo Tsugiyama, afirma que o uso de produtos pirotécnicos em locais fechados necessita da presença de um profissional habilitado. A entidade – que representa cerca de 200 empresas do ramo em todo o Brasil – diz ser comum as pessoas ignorarem as instruçíµes de uso, que constam em todas as embalagens de fogos vendidos legalmente no Paí­s.

                      PREFEITO DE SANTA MARIA – César Schirmer entregou í  Policia Civil uma serie de documentos em que se eximiu da responsabilidade sobre o incêndio, que deixou ao menos 235 mortos (até quinta-feira). Segundo a prefeitura, o alvará de inspeção para prevenção de incêndios, que é de responsabilidade do Corpo de Bombeiros, estava vencido desde agosto do ano passado. Nesta quarta, o prefeito afirmou que sua intenção não era responsabilizar o corpo de bombeiros.

                      CORPO DE BOMBEIROS – O Corpo de Bombeiros de Santa Maria, responsável por verificar problemas em casas noturnas da cidade, teve dois meses para vistoriar a Kiss, palco da tragédia de domingo. coronel Sérgio Roberto de Abreu, comandante-geral da Brigada Militar, órgão responsável pelo Corpo de Bombeiros de Santa Maria, disse ontem que ela não foi feita por "questíµes administrativas", mas não explicou quais. "O Corpo de Bombeiros fez inspeção em 2011, e a espuma não estava lá".

A espuma que, após a combustão, liberou a fumaça tóxica que matou por asfixia os frequentadores, está lá desde agosto, segundo funcionários que trabalharam na obra. De acordo com técnicos ouvidos pela Folha de São Paulo, houve ainda outra falha dos bombeiros: liberar o funcionamento da Kiss com as saí­das de emergência existentes.

 

Desastres pirotécnicos em boates dos últimos 10 anos

 

Shows de pirotecnia em boates e em casas de show foram responsáveis, nos últimos anos, por alguns dos incidentes mais fatais já registrados.

Além do uso de pirotecnia em locais fechados, outros elementos como número limitado de saí­das de incêndio e fiscalização inadequada do cumprimento de exigências contribuí­ram para o elevado número de mortos em algumas dessas tragédias.

Veja uma lista elaborada pela BBC Brasil com alguns casos recentes:

 

2009: Santika Club, Bangcoc, Tailândia: Um incêndio causado por fogos de artifí­cio deixou 66 mortos. A casa noturna funcionava sem a licença adequada e tinha apenas uma saí­da, o que dificultou que ví­timas deixassem o local. Duas pessoas acabaram condenadas, entre elas o proprietário da boate.

 

2009: Lame Horse Club, Perm, Rússia: Uma explosão durante um show com fogos de artifí­cio deixou 150 mortos. Apenas cerca de um quarto das pessoas presentes no local conseguiu escapar. Muitas das ví­timas acabaram morrendo asfixiadas e pisoteadas.

 

2008: Boate Wuwang, Shenzen, China: O incêndio também começou com show de pirotecnia, e a tragédia foi agravada pela existência de uma única saí­da, com má iluminação. Quarenta e três pessoas morreram.

 

2004: República Cromagí±ón, Buenos Aires, Argentina: O fogo, causado por faí­sca de sinalizador usado pela banda, matou 194 pessoas. A tragédia provocou prisíµes de empresários, dos músicos, e também o impeachment do prefeito de Buenos Aires. Além disso, medidas de segurança mais rí­gidas foram implementadas para casas noturnas. Estas medidas incluí­ram mais sinalização interna das discotecas, indicando a saí­da de emergência; menos tolerância no tocante ao limite de público autorizado para cada local e a colocação de cartazes indicando a quantidade permitida de pessoas no recinto.

 

2003: The Station, Rhode Island, Estados Unidos: Fogos de artifí­cio usados no show da banda Great White provocaram um incêndio e a morte de cem pessoas. O local foi tomado pelo fogo em menos de cinco minutos.

O empresário da banda, que organizou o show pirotécnico, foi condenado a quatro anos de prisão. Duas saí­das de emergência do local não puderam ser usadas. Uma das portas estava com defeito e a outra, obstruí­da por uma parede de espuma.

 

Aliás….

 

 Porque, mundo afora as pessoas continuam insistindo em fazer shows de pirotecnia em locais fechados?   E porque as boates continuam sendo irresponsáveis a ponto de continuar permitindo isto? Porque o poder público é tão omissos e permissivos frente a situaçíµes de grave irregularidade? Porque a "poderosa mí­dia marrom do RS" se aproveita tanto da desgraça alheia para vender jornais? Por quanto tempo nós, brasileiros, continuaremos sendo passí­veis de hipocrisia e corrupção, transgredindo regras que condeamos?

 

Câmara   de Deputados e Ministério público analisam  legislação para casas noturnas

 

                              Cí‚MARA FEDERAL DE DEPUTADOSApós a tragédia em Santa Maria (RS), a Câmara dos Deputados vai começar a trabalhar em uma legislação federal para unificar em todo o paí­s a concessão de alvarás de casas noturnas e estabelecer normas de prevenção de incêndios nesses ambientes. A ideia é estabelecer um padrão mí­nimo que será exigido para liberar o funcionamento desses estabelecimentos, como sinalização da saí­da de emergência, rota de fuga, além de equipamentos de segurança contra incêndios.

                      Seriam  fixados modelos diferentes, de acordo com o tamanho e o público previsto para o local, e a responsabilização criminal para que não cumprir as normas gerais. O projeto será elaborado entre 90 e 120 dias por uma comissão externa criada quarta-feira pela Câmara, que ainda acompanha as investigaçíµes do incêndio que aconteceu na madrugada de anteontem na boate Kiss, localizada no centro de Santa Maria (RS).

 

MINISTí‰RIO PíšBLICO –  O Ministério Público irá montar um grupo de trabalho para estudar as legislaçíµes federal e estadual que regulamentam a operação de casas noturnas e locais de grande aglomeração de pessoas. O MP pretende dar sugestíµes de alteraçíµes nessas normas e incentivar a criação de leis municipais sobre o tema. Nosso objetivo é dotar o Estado e os Municí­pios de poder para interdição de estabelecimentos. Hoje a lei não deixa claro em que situaçíµes podem ser feitos pedidos nesse sentido, explica o procurador Geral de Justiça, Eduardo de Lima Veiga.

 

Todos nós somos culpados *

 

Todos nós somos culpados pela tragédia de Santa Maria.

Todos nós… que furamos o sinal vermelho.

Todos nós… que compramos produtos piratas

Todos nós … que dirigimos depois de beber.

Todos nós … que fazemos "gatos" para enganar empresa de luz e TV paga.

Todos nós… que pagamos taxinha para sermos atendidos prioritariamente.

Todos nós … que compramos peças de carro em desmanches.

Todos nós … que corrompemos e nos deixamos corromper cotidianamente.

Todos nós … que transgredimos as mesmas regras que condenamos nos outros.

Todos nós… que transformamos o jeitinho brasileiro em cultura.

 

                      Rezemos pelos mortos e transformemos essa tragédia em nossa profunda transformação, como seres humanos.

                      Sejamos melhores fiscais de nosso próprio destino, pois ele é algo não pode e não deve ser terceirizado. Outras tragédias voltarão a acontecer… mas quantas poderão ser evitadas?

                      Existem muitas outras Kiss adormecendo em tantos lugares deste nosso imenso paí­s. E outras mães, pais e irmãos voltaram a chorar. Depende de cada um de nós.

                      Vamos ter isto sempre como lição, ou vamos deixar cair na covardia do esquecimento? Pense nisso!

 

* texto de Reginaldo Santos para a Folha de São Paulo


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