Canil de Torres: A luta por maior dignidade aos cães desamparados

28 de outubro de 2013

 

 

 

 

 

O cão é o melhor amigo do homem. O ditado é antigo e conhecido por todos. Porém nem todos se esforçam para respeitá-lo, e por vezes acabam abandonando seus animais de estimação nas ruas í  mí­ngua, doentes e maltratados. E para ajudar estes pobres cães desamparados, existe o canil de Torres, instituição formada e gerenciada por pessoas que amam os animais e batalham pelo seu bem-estar. O jornal A FOLHA pretende com essa matéria mostrar um pouco da realidade deste local pouco conhecido para a maioria da população, bem como os desafios enfrentados pelos que administram e cuidam do canil, na busca por proporcionar uma melhor condição de vida aos nossos amigos de quatro patas que não tem a quem pedir socorro.

 

O canil de Torres localiza-se na Estrada do Mar, em frente í  fruteira do Pelé, no mesmo complexo onde está instalada a Casa de Passagem para Menores. O acesso é feito por uma estradinha rudimentar, e abre-se uma velha porteira de madeira para adentrar no local onde estão alojados os cães desamparados de nossa cidade.

Quando chego ao local, sou recepcionado por uma orquestra de latidos. E a primeira impressão é impressionante: são muitos cachorros, dezenas deles em um pequeno espaço, latindo desconfiados ou esperançosos, latindo uns para os outros ou em busca de atenção do visitante inesperado.

Em 2008, o Jornal A FOLHA visitou o canil e atestou a precariedade de sua estrutura: tratava-se de galpão térreo de alvenaria(construí­do em 2004 com verba cedida pela prefeitura), com baias semelhantes í quelas usadas na criação de porcos, onde estão alojados algumas dezenas de cães. Além do galpão, havia no prédio do canil uma sala de cirurgia e cozinha. Ao redor desta estrutura principal, várias outras baias de diferentes tamanhos estavam instaladas, feitas de forma rudimentar e com material frágil, onde se encontravam a maioria dos cães. O chão destes alojamentos externos era na maior parte de areia ou terra, o que aumentava a chance de proliferação de doenças. A separação entre as baias dos animais também era inadequada, feita por uma frágil grade de arame. Na época, o canil era administrado por voluntários da Associação Torrense de Proteção dos Animais (ATPA), com auxí­lio financeiro da administração municipal, e já sofria pela superlotação. A parte fí­sica precisa ser reformada para que a condição de vida dos cães alojados no canil torne-se um pouco mais digna, mas a verba que recebemos ainda é escassa, havia dito Maria da Graça Nogueira em 2008, então presidente da ATPA.

 

 

Em cinco anos, pouca coisa mudou

 

Cinco anos se passaram desde então, mas a situação não parece ter mudado muito: a rudimentar estrutura do canil continua a mesma. Apenas pequenas reformas (improvisadas) foram feitas, e o número de baias aumentou, possibilitando que alguns cães a mais sejam alojados. Mas a superlotação continua sendo um problema crí­tico, e o espaço que deveria alojar no máximo 150 animais hoje conta com mais de 250. As baias foram feitas sem qualquer acabamento ou preparo para bem receber os cães. Claro que é melhor termos a estrutura que temos para cuidar dos cães desamparados da cidade do que não ter nada, mas a verdade é que a estrutura é precária ressalta Eduardo de Moraes, veterinário e responsável técnico pelo canil.

E a superlotação ainda faz com que a convivência entre os cães que lá se encontram seja menos amistosa do que o desejado. Isso porque falamos de animais territorialistas, cujo instinto í s vezes leva a proteger e brigar pelo domí­nio da área onde vivem. E se já vemos essa situação acontecer com os cães de estimação em nossos pátios, ela acaba sendo potencializado no canil de Torres. Por contarmos com um número de animais muito maior do que o canil suporta, os desentendimentos entre os cachorros acabam sendo mais constantes do que gostarí­amos. Eles eventualmente   brigam entre si, e alguns animais acabam se ferindo ou até morrendo, diz Eduardo.

Recentemente, a prefeitura de Torres assumiu o controle do canil, e esta maior responsabilidade do poder público pela questão dos animais abandonados faz reacender a esperança pela construção de um novo espaço, que seja adequado para atender as necessidades dos cachorros desamparados.  Segundo o veterinário Eduardo: O ideal seria a construção de dormitórios compatí­veis, maiores e separados por paredes de tijolos (ao invés de arame) com cerca de 1,5m de altura – para evitar o contato visual entre os cães e suas eventuais brigas. O piso destas baias também deveria ser totalmente concretado, com caimento e a presença de valetas – facilitando a limpeza e o escoamento da água da chuva. Hoje em dia, quando chove, algumas das baias ficam alagadas, e os cachorros são obrigados a circular em meio a poças d™água.

 

O Tobias, um dos xodós do canil, com sua cadeira de rodas improvisada

 

 

Contra a maldade e abandono, muito carinho e dedicação

 

Mas enquanto este novo espaço tão sonhado não chega para os cães de nossa cidade, o pessoal continua trabalhando para resgatar e auxiliar os animais que precisam de ajuda.  Gente que entende, afinal, que um cão não é um objeto descartável, ele não é uma coisa que você da para a criança e a criança enjoa, ou que você joga fora quando ele fica velho. Cachorro é um parceiro fiel, e um amigo que precisa de cuidados como qualquer ser humano. Mas muitas pessoas não entendem isso, tem muita gente safada neste mundo, lamenta Marlene Porto. Ela trabalha no canil desde julho do ano passado “ primeiro como voluntária, depois como funcionária contratada pela prefeitura.

Marlene diz que, infelizmente, as adoçíµes no canil ainda são poucas em relação ao grande número de cães desamparados que chegam. E  quando há adoçíµes, na maioria das vezes a procura é por filhotes, enquanto a maioria dos cães mais velhos acabam ficando aqui mesmo por um longo tempo, constata. Esta situação de abandono de cães se intensifica substancialmente no verão, quando muitos veranistas irresponsáveis trazem seus cães de estimação para a praia (mas não voltam com eles para suas cidades de origem). Tem também aquele pessoal que decide alugar suas casas no verão e larga seus bichinhos na rua, pensando que eles vão ser um empecilho. E tem muita gente que continua abandonando sua própria cadela quando esta fica grávida ou tem cria. No momento temos três ninhadas aqui, 16 filhotes ainda sendo amamentados por suas mães, complementa Marlene.

A funcionária do canil explica que, pelo fato de haver superlotação, apenas os cães em estado mais grave (aqueles doentes, mal-tratados ou acidentados) são recolhidos, além das cadelas prenhas ou no cio. Priorizamos a castração destas cadelas de rua que estão no cio, para assim evitar que novas ninhadas de cães sem dono se proliferem. A maioria das cadelas aqui no canil já foi ou está aguardando para ser castrada, diz Marlene.

O trabalho no canil é intenso, e muitos cães chegam ˜mais mortos do que vivos™ ao local. Já tivemos casos de horrí­veis maus tratos, mutilaçíµes por maldade ou por atropelamento, cães doentes em estado crí­tico. Apesar disso, todos os animais são tratados da melhor forma possí­vel, aqui não há caso perdido, afirma Marlene, citando o caso do Tobias, um cãozinho peludo que chegou ao canil em estado deplorável, com as patas traseiras mutiladas. Ele foi tratado e uma criativa cadeira de rodas com canos de PVC foi providenciada. Hoje, Tobias é um dos xodós do canil (apesar de ser meio briguento de vez em quando).

 

 

A busca por voluntários e o apelo por respeito aos cães

 

Para Marlene, muita gente não tem informação suficiente em relação a como tratar seus cães, bem como há um medo exagerado em relação a sarna-   uma doença contagiosa transmitida por um ácaro minúsculo, que causa coceira intensa nos cães. Faz tempo que lido com cães sarnentos e nunca me aconteceu nada. A pessoa não deveria largar seus cães na rua simplesmente porque ele pegou sarna, mas sim cuidar deles. Além da sarna, a parvovirose e sinomose são outras zoonoses comuns dos cães que chegam ao canil, doenças que são tratadas com o aval técnico do veterinário Eduardo Campos. Fazemos o melhor possí­vel, todos os cães que chegam aqui tem acompanhamento veterinário, diz ele.

No momento, há seis funcionários que se revezam com os constantes trabalhos demandados pelo canil, e novos contratados pela prefeitura devem em breve ser providenciados, aumentando a equipe que cuidará dos cães mais necessitados de Torres. Mas precisamos ter gente que se interesse em trabalhar aqui e que tenha experiência no trato dos cães. O fluxo de trabalho é intenso, temos que alimentar os cães, medicá-los, recolher as fezes, lavar as baias. O pessoal que trabalha aqui no canil se esforça, tem amor pelos animais, faz o melhor possí­vel. Mas ainda assim, deverí­amos ter mais pessoas com qualificação técnica para ajudar, revela Eduardo.

Muitos dos cachorros que estão nas ruas aqui em Torres não são realmente de rua, segundo o veterinário: são mais como cães comunitários, que recebem comida e cuidados eventuais das pessoas do bairro onde vivem, gente que se importa com os cães. Mas como tem gente que ama os animais, também tem aqueles que não veem os cães como animais de estimação, mas apenas como animais de guarda. Gente que não se importa com o bem estar do animal, que não vê problemas em maltratar seu próprio cão e depois abandoná-lo.

Eduardo diz ainda que é importante realizar um trabalho de conscientização nas escolas, para que as crianças aprendam desde cedo a valorizar a relação com os animais. Afinal, devemos perceber que os animais são seres tão cientes quanto nossa espécie humana: Seus medos, suas dores, fome, alegria, satisfação, tristeza não são muito diferentes das nossas. Eles só não conseguem falar para expressar o que sentem. A população tem que se conscientizar da guarda responsável do seu cachorro: quando alguém for adotar um cão, deve saber que ele vai precisar de um pátio ou sair para passear, vai precisar ser tratado com carinho e respeito. í‰ importante também a conscientização pela castração, seja de machos ou fêmeas.

O desafio pela adoção também foi bem abordado em nossa visita. O responsável técnico pelo canil disse que há voluntários que trabalham ativamente em busca de um lar para os cães sem dono de nossa cidade, utilizando-se principalmente das redes sociais na internet para divulgar seu intento. Ele diz ainda que gostaria que mais feiras de adoção fossem realizadas no canil, e que a população tivesse maior contato com a realidade dos nossos cachorros desamparados. Mas ele admite que o canil de Torres não é, no momento, um local muito adequado para receber visitantes, e finaliza com um apelo ao bom senso pelo respeito aos animais.  O canil deveria ser visto como uma casa de passagem, onde os cachorros doentes, feridos e abandonados são tratados e encaminhados para a adoção. O bom seria se eles ficassem apenas por um tempo aqui. As pessoas tem que tirar da cabeça que o canil é um depósito de cães, um lugar onde você pode se livrar de um animal indesejado, conclui Eduardo.

 

O veterinário Eduardo Campos e a funcionária Marlene Porto

 

 

Melhorias previstas e a situação dos gatos sem lar

 

Luiz Fernando Souza da Silva é agente administrativo na Secretária Municipal do Meio Ambiente, e um dos responsáveis pela gestão do canil de Torres. Ele diz que existe a previsão para, em breve, melhorar a estrutura do local, ampliando-se o número de baias e construindo-se uma nova clí­nica veterinária junto ao local. Além da saúde dos cães, tem sido prioridade a castração dos animais de rua de nossa cidade. Estamos realizando uma média entre 35 e 40 castraçíµes mensais, indica Luiz Fernando. Este processo de castração se intensifica atualmente, mas já vêm sendo realizado há décadas por voluntários de nossa cidade. E quanto ao resultado, qualquer pessoas que compare a Torres de hoje com a de 10 anos atrás pode perceber: embora ainda tenhamos cachorros em nossas ruas, o número destes animais sem lar diminuiu consideravelmente.

O jornal A FOLHA também perguntou sobre os gatos sem lar de nossa cidade, questionando qual a posição da prefeitura em relação a questão. Luiz Fernando informa que não há gatil municipal em nossa cidade, porém também com os gatos há um grande número de voluntários que se prontificam em acolher e buscar uma adoção. A verdade é que os gatos sem lar de nossa cidade são muito menos que os cães abandonados. E eles são, no geral, animais mais independentes. Há também procura por castração de gatos, mas muito raramente, constata o agente administrativo da secretaria do Meio Ambiente.

 

 

ATENí‡íƒO: Há vagas remuneradas de trabalho no canil

 

Luiz Fernando reforça a importância do Facebook e outras redes sociais como ferramenta para divulgar adoçíµes e encontrar eventuais cães que fogem de suas casas. Além disso, ele indica que a prefeitura está disponibilizando 4 vagas   remuneradas para novos funcionários trabalharem no canil – pessoas que tenham carinho e boa vontade para cuidar dos nossos amigos de 4 patas desamparados.

Os interessados nas vagas devem procurar a Secretaria Municipal do Meio Ambiente, localizada na rua Benjamin Constant n º 154, 2 º andar (ao lado do banco Santander). O telefone para contato é o 3664.1411 ramal 246, das 13:00 í s 19:00. E se você tem interesse em ajudar os cães desamparados de nosso municí­pio, doando alimentos, medicamentos veterinários ou até fazendo uma contribuição financeira para as castraçíµes e melhoria da estrutura do local, o endereço e o telefone são os mesmo já citados acima.   E se o interesse for pela adoção de um amigo de quatro patas, o canil está cheio de cãezinhos ansiosos por um novo lar. Acesse a página do Facebook (www.facebook.com/CanilTorres) para conhecer mais sobre o trabalho no canil de Torres.

 

 

Prisão (de 3 a 10 anos) para quem matar cães e gatos

 

Uma revisão na legislação pode tornar bem complicada a vida daquelas pessoas que pensam nos animais de estimação como objetos descartáveis.   O Projeto de Lei 2833/11 aumenta as penas para quem maltratar cães e gatos, o que inclui reclusão de três a cinco anos para quem matar esses bichos. Casos de crimes cometidos com emprego de veneno, fogo, asfixia, espancamento, arrastamento, tortura ou outro meio cruel são considerados agravantes. Nessas hipóteses, a pena de reclusão seria de seis a dez anos.

O PL está pronto para ser votado no Plenário da Câmara Federal, e a expectativa do seu proponente, o deputado Ricardo Trí­poli (PSDB-SP) é que a aprovação se dê nas próximas semanas. A proposta atende í  maioria da população brasileira que espera ver reparados os direitos dos animais, que sentem dor, frio e calor como qualquer ser vivo, afirma o deputado.

 

 

Estrutura do canil precisa de muitas reformas para melhor acolher os cães abandonados de Torres  


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