EDITORIAL – Polêmica dos Camelí´s: um aprendizado para a sociedade

16 de novembro de 2013

 

A sentença da justiça de Torres que obriga que os Camelí´s e donos de pontos comerciais fixos de rua da cidade saiam se seus espaços, por um lado gera muita ansiedade em várias pessoas da cidade. Umas, os próprios sentenciados, não sabendo o que será de seu futuro com esta decisão final, além de poderem se sentir uma espécie de criminoso que está sendo apontado pela justiça de forma estampada, o que não são, definitivamente.  Do outro lado, os moradores da redondeza e segmentos que concordam com a sentença judicial.  Eles ficam ansiosos por se sentirem também uma espécie de entrave na vida de muitas famí­lias que podem ser desalojadas dos locais onde trabalham por decisão da justiça, onde suas opiniíµes possam ter pesado no veredicto do juiz. Sentem-se, também, culpados, mas não são, definitivamente.

Sempre é bom que uma sociedade ainda em fase de formação de civilidade avançada como a nossa do Brasil passe por este tipo de impasse, onde ambos os lados têm razão, mas ambos os lados também se sentem culpados. í‰ este o espí­rito da democracia moderna: as leis maiores são feitas para atenderem interesses institucionais utilizando sempre o princí­pio da igualdade, moralidade e retidão, mas a aplicação coletiva destas mesmas leis acaba influenciando individualmente cidadãos ou influenciando uma categoria inteira, muitas vezes de forma negativa e até mexendo em temas vitais de cidadãos, como a sobrevivência. Os culpados de tudo isto foram as autoridades, que historicamente preferiram não enfrentar o problema de vez e que deram para incautos cidadãos o que não tinham competência legal para dar, pelo menos do jeito que fizeram e pelo menos após a promulgação de nossa nova constituição em 1988.

Mas outro tema que a sociedade deve se alertar para este impasse é a dissonância que existe entre um comerciante considerado comum pelas leis brasileiras e um comerciante considerado uma categoria que necessita de vantagens públicas para sobreviver, como a dos Camelí´s. Pelas leis brasileiras, uma pessoa que empreende em uma loja deve pagar aluguel (ou adquirir o imóvel); é exigido dela uma enormidade de burocracias fiscais para que opere dentro das leis federais, estaduais e municipais; obriga-se a respeitar de forma peremptória as leis trabalhistas, sob pena de ter seu negócio inviabilizado por sentenças que recuperam os direitos dos trabalhadores empregados de forma errí´nea, além de terem como fornecedores o mercado formal, na maioria das vezes: se é formal, compra-se também de quem é formal, assim diz a lei.

Já a categoria de Camelí´s, em todo o território nacional concorre de maneira de certa forma covarde com seus pares formais. Ganham os pontos das prefeituras (da sociedade); não precisam pagar impostos de forma direta; e muitas vezes se utilizam de mercados informais para comprar suas mercadorias. O resultado é que conseguem operar com preços muito mais baixos que os comerciantes considerados incluí­dos no sistema brasileiro de comércio.

 A cidade de Torres tem um exemplo atí­pico e que serviria para estudos das autoridades sobre esta concorrência que submerge vantagens claras que dão diferenciais somente para um lado. í‰ que o chamado Camelódromo da cidade é conhecido em todo o Estado do RS, muitas vezes até em algumas cidades de outros estados federativos, como sendo um excelente centro de compra. São os consumidores que dizem isto e provam enchendo o espaço local durante praticamente todos os finais de semana do ano e durante todos os dias do veraneio.  Se existe procura tão grande, nada mais justo que a sociedade concordar que os Camelí´s prestam bons serviços e vendem bons produtos. O conceito clássico de marketing diz que fazer um bom marketing significa obter resultados através da SATISFAí‡íƒO DO CONSUMIDOR. E o consumidor busca sempre qualidade e preço baixo. Se o Camelódromo de Torres recebe milhares de pessoas durante o ano, pode-se dizer que eles (camelí´s) estão de parabéns. Conseguem trabalhar baseados na chamada retenção que têm em seus clientes: eles provavelmente compram e voltam a comprar, além de indicar para amigos e parentes o conceito de nosso Camelódromo. Uma estratégia comercial vencedora, sem sombra de dúvida.

O aprendizado que os governantes deveriam tirar deste imbróglio todo que está sendo gerado com a iminente retirada dos Camelí´s de seu Camelódromo é o de que eles poderiam pensar o contrário. Ao invés de exterminar com uma categoria que está satisfazendo sua clientela e ajudando que uma cidade turí­stica como Torres tenha gente aqui comprando e gerando emprego & renda, dentre outras vantagens, poderiam os governantes planejar transformar as lojas tradicionais em empresas similares as informais bancas de Camelí´s. í‰ claro que se trata de tarefa do governo federal e estadual.

 Se os governos baixarem impostos, diminuí­rem burocracias, baixarem a alta carga trabalhista dos contratos de trabalho de pequenas empresas; e permitirem que haja uma abertura maior na possibilidade de escolha de fornecedores por parte dos comerciantes chamados de tradicionais, a sociedade trabalhará de forma mais agressiva e todos acabarão ganhando: comerciantes, camelí´s, sociedade consumidora e governos, pois mais volume traz mais imposto. Neste caso, não haveria mais tanta diferença entre vendedores formais e vendedores informais: o mercado poderia escolher melhor onde comprar sem ter de escolher o lado informal como preferência.

 


Publicado em:







Veja Também





Links Patrocinados