A sentença da justiça de Torres que obriga que os Camelí´s e donos de pontos comerciais fixos de rua da cidade saiam se seus espaços, por um lado gera muita ansiedade em várias pessoas da cidade. Umas, os próprios sentenciados, não sabendo o que será de seu futuro com esta decisão final, além de poderem se sentir uma espécie de criminoso que está sendo apontado pela justiça de forma estampada, o que não são, definitivamente. Do outro lado, os moradores da redondeza e segmentos que concordam com a sentença judicial. Eles ficam ansiosos por se sentirem também uma espécie de entrave na vida de muitas famílias que podem ser desalojadas dos locais onde trabalham por decisão da justiça, onde suas opiniíµes possam ter pesado no veredicto do juiz. Sentem-se, também, culpados, mas não são, definitivamente.
Sempre é bom que uma sociedade ainda em fase de formação de civilidade avançada como a nossa do Brasil passe por este tipo de impasse, onde ambos os lados têm razão, mas ambos os lados também se sentem culpados. í‰ este o espírito da democracia moderna: as leis maiores são feitas para atenderem interesses institucionais utilizando sempre o princípio da igualdade, moralidade e retidão, mas a aplicação coletiva destas mesmas leis acaba influenciando individualmente cidadãos ou influenciando uma categoria inteira, muitas vezes de forma negativa e até mexendo em temas vitais de cidadãos, como a sobrevivência. Os culpados de tudo isto foram as autoridades, que historicamente preferiram não enfrentar o problema de vez e que deram para incautos cidadãos o que não tinham competência legal para dar, pelo menos do jeito que fizeram e pelo menos após a promulgação de nossa nova constituição em 1988.
Mas outro tema que a sociedade deve se alertar para este impasse é a dissonância que existe entre um comerciante considerado comum pelas leis brasileiras e um comerciante considerado uma categoria que necessita de vantagens públicas para sobreviver, como a dos Camelí´s. Pelas leis brasileiras, uma pessoa que empreende em uma loja deve pagar aluguel (ou adquirir o imóvel); é exigido dela uma enormidade de burocracias fiscais para que opere dentro das leis federais, estaduais e municipais; obriga-se a respeitar de forma peremptória as leis trabalhistas, sob pena de ter seu negócio inviabilizado por sentenças que recuperam os direitos dos trabalhadores empregados de forma errí´nea, além de terem como fornecedores o mercado formal, na maioria das vezes: se é formal, compra-se também de quem é formal, assim diz a lei.
Já a categoria de Camelí´s, em todo o território nacional concorre de maneira de certa forma covarde com seus pares formais. Ganham os pontos das prefeituras (da sociedade); não precisam pagar impostos de forma direta; e muitas vezes se utilizam de mercados informais para comprar suas mercadorias. O resultado é que conseguem operar com preços muito mais baixos que os comerciantes considerados incluídos no sistema brasileiro de comércio.
A cidade de Torres tem um exemplo atípico e que serviria para estudos das autoridades sobre esta concorrência que submerge vantagens claras que dão diferenciais somente para um lado. í‰ que o chamado Camelódromo da cidade é conhecido em todo o Estado do RS, muitas vezes até em algumas cidades de outros estados federativos, como sendo um excelente centro de compra. São os consumidores que dizem isto e provam enchendo o espaço local durante praticamente todos os finais de semana do ano e durante todos os dias do veraneio. Se existe procura tão grande, nada mais justo que a sociedade concordar que os Camelí´s prestam bons serviços e vendem bons produtos. O conceito clássico de marketing diz que fazer um bom marketing significa obter resultados através da SATISFAí‡íƒO DO CONSUMIDOR. E o consumidor busca sempre qualidade e preço baixo. Se o Camelódromo de Torres recebe milhares de pessoas durante o ano, pode-se dizer que eles (camelí´s) estão de parabéns. Conseguem trabalhar baseados na chamada retenção que têm em seus clientes: eles provavelmente compram e voltam a comprar, além de indicar para amigos e parentes o conceito de nosso Camelódromo. Uma estratégia comercial vencedora, sem sombra de dúvida.
O aprendizado que os governantes deveriam tirar deste imbróglio todo que está sendo gerado com a iminente retirada dos Camelí´s de seu Camelódromo é o de que eles poderiam pensar o contrário. Ao invés de exterminar com uma categoria que está satisfazendo sua clientela e ajudando que uma cidade turística como Torres tenha gente aqui comprando e gerando emprego & renda, dentre outras vantagens, poderiam os governantes planejar transformar as lojas tradicionais em empresas similares as informais bancas de Camelí´s. í‰ claro que se trata de tarefa do governo federal e estadual.
Se os governos baixarem impostos, diminuírem burocracias, baixarem a alta carga trabalhista dos contratos de trabalho de pequenas empresas; e permitirem que haja uma abertura maior na possibilidade de escolha de fornecedores por parte dos comerciantes chamados de tradicionais, a sociedade trabalhará de forma mais agressiva e todos acabarão ganhando: comerciantes, camelí´s, sociedade consumidora e governos, pois mais volume traz mais imposto. Neste caso, não haveria mais tanta diferença entre vendedores formais e vendedores informais: o mercado poderia escolher melhor onde comprar sem ter de escolher o lado informal como preferência.


