RELATOS DA BEIRA DE PRAIA (PARTE 1) : O que acontece nas areias de Torres

28 de janeiro de 2014

 

 í‰ uma terça-feira meio nublada, o que não é suficiente para o pessoal se acanhar em vir í  beira da praia de Torres. Ao mesmo tempo, temos dezenas de ambulantes vendendo roupas, bikinis, picolés, refri, cerveja e água, óculos escuros, casquinha, algodão doce, queijo assado, pastel, churros, bijuterias, artesanato, pipas… A Praia Grande é como um shopping em constante movimento, onde os empreendedores batalham para fazer com que seu produto chame atenção do público.

 

Por Guile Rocha  

 

O vendedor ambulante de roupas, João Paulo Lopes Moreira é natural de Araçuai, em Minas Gerais, mas há 13 anos escolheu Torres como sua ˜residência de verão™, e aqui na cidade trabalha sempre na beira de praia. Já me sinto em casa aqui, quase um cidadão torrense. Passo um ciclo da minha vida por aqui entre os meses de novembro e março, e trago inclusive minha famí­lia .

Segundo ele, o clima tem contribuí­do nesta temporada. Em 13 veríµes que trabalhei na beira de praia aqui em Torres, já peguei 5, 6 dias de chuva em sequência. Eram dias de prejuí­zo   que praticamente não havia trabalho Mas neste veraneio isso ainda não aconteceu, foram mais chuvas de verão mesmo, aquela tromba d™água que dura algumas horas e passa. Moreira também se satisfez com os dias de Reveillon que passaram   quase sem chuva.

O vendedor de roupas diz que as cangas e as saí­das de praia são, com certeza, são os produtos mais vendidos por ele. São itens práticos e que são parte do vestuário de beira de praia. Neste ano há uma tendêcia por cores vibrantes e fortes, com destaque para o amarelo, que tem saí­do bastante.   Entretanto, ele ressalta que houve aumento do preço das mercadorias, e consequentementeas vendas caí­ram cerca de 30% em relação ao ano passado. O movimento parece igual, a concorrência é praticamente a mesma, mas a margem de lucro tá pequena. Pagamos mais caro para comprar as roupas e temos que passar este aumento para o preço final da venda.

Sobre os argentinos, Moreira lembra que eles só podem trazer uma certa cota em dinheiro vivo, há um controle cambial no paí­s que impede que os ˜hermanos™ venham com muitos Pesos no bolso (mesmo que queiram). E infelizmente eu não trabalho com cartão de crédito ainda, é muita burocracia para conseguir a maquininha. Mas ano que vêm espero contar com esta máquina, que vai com certeza aumentar o potencial de vendas.

 

 

O mineiro João Paulo, vendedor ambulante de roupas

 

                  Picolés: vendendo ˜como água™

 

Juarez tem 54 anos, é torrense de origem e vende picolés na beira da praia. E ele não tem motivos para reclamar das vendas: os picolés estão saindo mais do que nunca. Enquanto acompanho Juarez pela sua caminhada, são 7 picolés vendidos em menos de 5 minutos. Picolés estes que custam entre 3 e 7 reais. Isso que é uma terça-feira e o tempo e o tempo tá nublado, ruim.   Segundo recorda o vendedor, no passado preço já foi bem menor, mas o dinheiro valia mais também. Com 5 ˜pilas™ se comprava 3 picolés há 10 anos atrás. Hoje é bem diferente. Ainda assim, Juarez afirma que o público da orla já vem preparado para consumir enquanto curte a praia.   Até agora tem sido um dos melhores veríµes nos 17 anos que trabalho na areia torrense, diz ele. E a venda de picolés mostra a força dos laços familiar que a praia representa: isso porque a grande maioria dos picolés são comprados pelos pais para seus filhos, sedentos pelo adocicado refresco que o gelado proporciona. As crianças são o nosso principal público, mas os adultos acabam comprando por tabela também. í‰ difí­cil resistir ao picolé no calorão da beira de praia, não importa a idade, finaliza Juarez.

                      Já Leandro Borges tem 47 anos é de Viamão, mas também vende picolés nas praias de nossa cidade. Picolés sempre vendem bem na beira de praia. No final de semana, se estiver fazendo sol, passo dos R$ 1.000 por dia. Durante a semana é claro que o movimento diminui, mas ainda continua bom. Mas vale citar que temos também o custo com o gelo seco, que tá cada vez mais caro, explica Leandro, que é mais um dos moradores itinerantes de nossa cidade: pessoas que chegam com o veraneio para aproveitar o frescor dos ares marí­timos e, ao mesmo tempo,   ganhar uma graninha extra com os gastos dos turistas e veranistas. Vim para Torres passar um Réveillon, há uns 15 anos atrás e me apaixonei pela cidade. Primeiro comecei a passar umas férias aqui com a famí­lia, até que decidi unir o útil ao agradável e trabalhar durante o veraneio, primeiro vendendo cocos e agora picolés, diz Leandro.

 

                  O bate-bate e a nostalgia da casquinha

 

Ia andando vagarosamente pela quente areia, distraí­do e absorto na leitura de minhas anotaçíµes, quando um inconfundí­vel som me chama atenção, carregando um sentimento de nostalgia . í‰ um tec-tec ritmado, som de metal batendo na madeira que me remete a uma memória de infância: o bate-bate, que anuncia que o vendedor de casquinha está próximo.

 Me lembro que, quando era só uma criança me divertindo no Parcão de Porto Alegre, a casquinha nunca me apetecia muito. Mas ouvia o som do bate-bate e era tomado por um estranho sentimento de pena, melancolia. Acho que era a expressão sofrida dos vendedores, geralmente homens de meia idade e com bigode grosso – quase sempre com bonés cravados na cabeça “ que me fazia sentir pena. Além disso, parecia que ninguém dava bola para eles, ninguém estava interessado em comprar o produto que eles vendiam. Aí­ eu pedia: Mãe, me compra uma casquinha!; e minha mãe respondia: Mas tu nem gosta da casquinha, meu filho. No final das contas, eu acabava comprando a pipoca ou alguma coisa que eu gostava de comer. Mas eu queria mesmo comprar a casquinha para ajudar aqueles vendedores bigodudos, que em minha cabeça infantil eram seres tristes e necessitados.

                      Só que nas areias de Torres, os vendedores ambulantes de casquinha parecem não ter muito do que reclamar. Tiago, 22 anos, natural de Viamão, vende além da casquinha o popular algodão doce, cada um por 4 reais “ ou 3 por 10 reais. Ele diz que há sempre um público fiel para os dois produtos. O algodão doce é preferido pelas crianças, e os idosos gostam de comprar a casquinha para acompanhar o chimarrão. Vendemos bem, e a concorrência é pequena, então vale a pena reforça.

 

                  Sobre licenças e vendedores ilegais

 

Elias (e), o baiano João (c) e Tiago (d): amigos e trabalhadores da Praia Grande

 

Em seu primeiro verão como ambulante de beira de praia aqui em Torres, o vendedor de casquinhas e algodão doce Tiago utiliza um dos coletes que o identifica como ˜Vendedor Legal™. Apesar das taxas que tem que pagar para ter permissão de vender seu produto na orla torrense “ para conseguir a licença junto a Secretária da Fazenda Municipal – ele não é contra o pessoal que comercializa clandestinamente, sem o aval da fiscalização de tributos. Não acho injusto, acho que todo mundo tem que ganhar a vida, e tem gente que não pode pagar pela licença.

O Tiago está acompanhado de seu irmão Elias, que com apenas 14 anos já mostra estar bem informado a respeito das licenças expedidas para legalizar o trabalho dos ambulantes na praia. Para vender a casquinha e o algodão doce se paga uns R$ 180 pelo verão. Já para vender roupas é mais caro, R$ 1200, ou R$ 590 se for só para bikinis. O queijo é proibido porque dizem que pode estragar no sol, e o óculos escuros não pode ser vendido também indica o jovem Elias. Ele complementa explicando que o padrasto e a mãe também trabalham como vendedores ambulantes no verão torrense “ comercializando bebidas na Praia Grande.

Enquanto conversava com Tiago e Elias, juntou-se a eles outro adolescente: trata-se de João, que é de Porto Seguro (Bahia) e tem 15 anos. Vendedor do queijo coalho “ tão tradicional quanto polêmico no comércio de beira de praia “ ele diz não se importar muito com o fato da venda de seu produto ser proibida pela Fiscalização de Tributos Municipal. A verdade é que o pessoal sente fome e quer comprar o queijo, não tão nem aí­ se pode ou não vender. O povo não se importa, o que eles querem é comer o que gostam, responde João, num tom entre a zombaria e a despreocupação. Pergunto se ele já foi abordado pelos inspetores fiscais, se já teve seu produto apreendido. Eles até tentam me pegar, mas eu saio na corrida quando eles tão por perto, e na pernada eles sempre perdem, brinca o baiano João.

Outro vendedor de casquinhas, o passo-torrense Marcos tem uma opinião menos amistosa em relação aos ambulantes ilegais. í‰ uma injustiça, né? A gente paga uma taxa para poder trabalhar aqui, faz tudo de acordo com a lei e, no final das contas, não tem fiscalização boa o suficiente para acabar com os vendedores ilegais. Pra que serve pagar essa taxa então?.

Quando percebi, a tarde nublada que teve até algumas gotas de chuva deu algum espaço para um sol tí­mido passar entre as nuvens,e a sensação de calor aumentada abruptamente. Mas esta composição climática mostra que o sol é um enganador, porque forma aquilo que tende-se a chamar de ˜mormaço™, e que queima a pele que é uma beleza (ainda que o dia pareça meio nublado). E eu, que andava sem camiseta, fiquei me arrependendo por não ter passado protetor solar, já imaginando o torrão as minhas costas no dia seguinte.

 

A polêmica dos óculos escuros

 

 

 

Na parte mais movimentada da Praia Grande, entre as casas de salva-vidas número 5 e 6, vou até um vendedor de óculos escuros como se tivesse interesse num dos modelos, e pergunto o preço de uma imitação de Ray Ban: Este custa 45 reais, mas faço por 40 por ti. Digo que ainda está caro para meu bolso, e ele retruca. Então faço por 35 para fechar, descontão para ti. E esses óculos têm 35% de proteção UV.   A primeira coisa que pensei foi: barganhar é sempre um bom negócio.   Depois, notei que haviam imitaçíµes de várias outras marcas de prestí­gio, como Prada, Oakley , HB. Mas os óculos que custariam centenas de reais nas lojas variam entre R$ 20 e R$ 45 nas mãos do ambulante, segundo o mesmo me informou. E apesar do papo de vendedor, digo que não vou comprar o óculos e sigo meu caminho.

Posteriormente,   quando já estava de saí­da da praia, me encontrei com um sujeito refrescando-se num dos chuveiros públicos do calçadão, com o seu mostrador de óculos encostado numa duna próxima. Seu nome é Edson “ apelido Tatuagem “ natural do Rio Grande do Norte. Quando ele começou a falar, reparei que, além do carregado sotaque nordestino, ele tinha o jeito e o tom de voz muito parecido com o do Sid (a preguiça-gigante do desenho animado ˜Era do Gelo™). E não é que um monte de gente me fala isso? Tem gente que até me chama de Sid, responde ele, parecendo feliz por eu também ter percebido.

Aos 40 anos, Edson se autoproclamava um eterno viajante, e contou de suas andanças pelo Brasil. Passei por praia, metrópole e interior, do Rio de Janeiro a Cuiabá, de São Paulo a Ariquemes (Rondí´nia), da Bahia a Florianópolis. E sempre vendendo redes, uma coisa que todo brasileiro compra. Meio orgulhoso e meio constrangido, ele conta que tem uma filha de 15 anos, Wemili, que vive em Rio Branco (Acre). Mas desde que ela era um bebê nunca mais visitei ela. Este ano to querendo chegar lá e ver ela, fazer uma surpresa, diz Edson.

O vendedor diz que, nos últimos 15 anos, sua temporada de veraneio já tem Torres sempre como destino certo. Só que nesse ano decidi vender óculos, achei que ia lucrar mais e me lasquei. Não é só a fiscalização, que fica atrás da gente toda hora e apreende o produto, tem gente na beira da praia que se indigna também, não quer que a gente venda. O movimento para os óculos não tá bom, no ano que vêm volto para as redes.

Me encontrei novamente com Edson, em outro dia que estava pela Praia Grande, curtindo meu descanso. Ele me disse que havia sido abordado por policiais, que além de pegarem seu produto ainda lhe deram uma surra. Ainda assim, continuava vendendo seus óculos. Tí´ quebrado, cheio de hematomas. Mas não vou deixar de vender meus óculos, a gente faz o que pode para sobreviver, né?.


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