Psicóloga Simone Nunes
Professora do Curso de Psicologia Ulbra Torres
Temos visto todos os dias, notícias de uma violência que já não é mais a mesma. Já não são os assaltantes e os bandidos de carteirinha que matam nas ruas. Somos nós, os cidadãos e as cidadãs comuns. Nós que temos emprego fixo. Nós que criamos filhos e filhas. Nós que saímos í s ruas e í s redes sociais clamando por justiça. Mas… de que justiça falamos? Ligamos a TV, após um dia cansativo de trabalho, com nosso jantar no colo (não sentamos mais juntos í mesa para as refeiçíµes), e nos deparamos com a âncora do noticiário nacional clamando pela justiça do povo contra o povo. Justifica-se, ela diz, o desejo de se fazer justiça quando o Estado não faz. Difícil compreender. E quando ouço alguém criticando o Estado ou a sociedade pelo mal causado ao povo, me questiono: quem é a sociedade? Quem faz o Estado? Que engrenagem é esta, da qual nos excluímos, olhamos de fora e nos damos ao desfrute de criticar como se nos fosse alheia?
Me questiono e logo me respondo: a sociedade somos nós. Quem faz o Estado, somos nós. Em tempos de Copa do Mundo e eleiçíµes, quantos de nós daremos preferência ao jogo do Brasil e rechaçaremos o horário político? í‰ importante que exercitemos a reflexão e que deixemos a zona de conforto que nos dá o ilusório direito de cobrar algo que deve partir de nós mesmos. Amarrar jovens (pobres e negros) em postes, linchar mulheres (pobres e pardas) em nome de uma justiça, baseados em suspeitas, são sinais (e devem ser vistos como tal) de uma sociedade adoentada e adormecida. Nós estamos doentes e adormecidos para a reflexão.
A violência mudou. A violência somos nós. E, ao pensar a violência como parte de nós e consequência de um já crí´nico exercício de não pensar, remeto-me a Zigmunt Bauman e sua metáfora das planárias. As planárias são seres lineares que possuem, em seus corpos achatados, uma linha imaginária que, ao ser rompida, faz nascer um novo ser. Assim vejo esta violência social da qual, queiramos ou não, fazemos parte. A violência somos nós porque ela nasce de nossa inércia: de não se solidarizar com aquele que nos é próximo, porém, diferente. Nossa violência começa quando naturalizamos os maus tratos aos animais, quando não devolvemos o troco a mais que recebemos ou quando ocupamos a vaga do estacionamento do vizinho com nosso carrinho de supermercado. A violência somos nós quando nos tornamos egoístas e iniciamos o movimento contrário, porém nocivo, de nos voltarmos para nossos umbigos e não enxergarmos o mundo í nossa volta. Pensemos nisso.


