Ele é natural de São Francisco de Paula, mas torrense de coração. O tradicionalista Ajos Dutra é referência até para Paixão Cortes quando o assunto é ser gaudério. A estampa do tradicionalismo, segundo o próprio Laçador. Ajos vive uma vida dedicada aos costumes do MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho) e hoje, aos 74 anos, é símbolo de um litoral que carrega, em suas raízes, um pedaço importante da história do povo sulista.
FOTO: Ajos com a esposa Zélia
ENTREVISTA com o tradicionalista AJOS DUTRA
A FOLHA – Primeiramente nos fale um pouco de ti: onde e quando nasceu, como foi a tua infância e juventude. Conte um pouco sobre teus pais também.
AJOS DUTRA – Nasci na fazenda do meu pai, em São Francisco de Paula, no dia 22/11/1940. Morei lá até os 20 anos, tive uma infância e adolescência típica da vida do campo, com meus irmãos e irmãs. Era uma época diferente, mais simples: a luz era de lampião, a água vinha do poço. Depois fui para o quartel, onde servi por dois anos e saí 3 º sargento do exército. Voltei quando meu pai saiu da fazenda e foi para a cidade de Caxias. Mas éramos 11 irmãos no total, daí eu e meu irmão mais velho ficamos cuidando da fazenda, enquanto os mais novos meu pai levou, pra que eles tivessem a oportunidade de ter uma educação melhor. Eu tinha apenas a 5 ª série, mas formei no ginásio e fiz um curso de contabilidade. Mas minha faculdade é a da vida campeira, o mundo foi a principal escola.
Meu pai, José Dutra Júnior, era criador de gado e viveu bastante, faleceu há cerca de 2 anos atrás aos 96. Minha mãe Alda Andrade Dutra foi sua fiel companheira, e continua firme e forte com 96 anos. í‰ um exemplo de vida.
Você é uma lenda viva do movimento gaúcho, mas nos resuma sua relação com o tradicionalismo, desde quando começou até hoje.
Já vivia uma vida típica de gaúcho antes, mas comecei oficialmente no tradicionalismo em 1961, quando eu assisti o congresso que criou a carta de princípios do MTG (Movimento Tradicionalista Gaúcho). Dali para cá tive vida sempre atrelada no tradicionalismo, ajudei a criar mais de 10 Centros de Tradiçíµes Gaúchas (CTG™s) por várias cidades, além de uns 30 a 40 piquetes. E fui coordenador do MTG região Litoral Norte por 3 mandatos (1990, 1995,1996).
O MTG tá no meu sangue, é a minha vida. A Cavalgada do Mar, por exemplo, eu participei desde a primeira (há 30 anos) até a última, geralmente como comandante geral, que é feito por mim desde a 4 cavalgada. Daí vou acompanhando com o carro de som. Hoje, o Mal de Parkinson que me atingiu não permite mais, porém no passado muito andei í cavalo, como meio de transporte como terapia.
No total recebi 361 troféus por minha participação em competiçíµes campeiras, ou por honra ao mérito e homenagens ligadas ao tradicionalismo.
E sua relação com Torres, é antiga também?
Faz 32 anos que moro em Torres. Fui um dos fundadores do CTG Querência das Torres, e participei do CTG Porteira Gaúcha (Na Vila) desde os primeiros anos dele. Vim para Torres e o povo daqui me acolheu como um filho, fico muito grato por isso. Tive a oportunidade de trabalhar e mostrar o que eu sabia fazer na prefeitura. Fiquei por 4 anos na Secretaria de Turismo, como assessor da secretária Rosane Freitas. Depois pedi para sair, fiquei de subprefeito da cidade, gerenciando o Parque da Guarita.
Em 2002 me aposentei pela prefeitura, mas continuei com um trabalho na cidade e na região focado nos ideais gaúchos: atuando nos CTG™s, fazendo palestras em escolas. Fui agraciado pela Câmara de Vereadores também, com o título de cidadão honorário de Torres.
O que achou da idéia, proposta pelo vereador Machado, de fazer uma estátua em sua homenagem?
Foi uma surpresa a ideia, mas é um reconhecimento que me deixa feliz, por ser lembrado. Vamos esperar para ver no que vai dar agora. Mas nós somos amigos a longa data, eu e o Machado. Ele já me ajudou e eu ajudei ele, é como se fosse parte da família.
E sua família, sua esposa, seus filhos e netos; Eles se mantiveram ligados as tradiçíµes gaúchas?
Toda minha família se manteve no tradicionalismo, e minha mulher Zélia sempre me deu muito apoio nessa criação gaudéria. Tive 3 filhos- as meninas são professoras e meu guri hoje é funcionário da prefeitura. Os genros se envolvem também. Todos têm seus empregos, mas continuam participando dos rodeios, mantendo hábitos típicos do gaúcho, como o chimarrão, a bombacha, o trote í cavalo. E hoje minhas netas, que tem 6 e 11 anos, já estão começando a laçar em competição oficiais nos rodeios.
Meu filho tem ainda uma equipe de rodeios (chamada Babalu) que sai pelo estado e afora, promovendo provas campeiras. Ano passado participamos de 36 rodeios – 22 em Santa Catarina e 14 no Rio Grande do Sul. Viajamos muito pelo sul, temos faz 5 anos um motorhome que é nossa casa nesses momentos. Meu filho tem um caminhão baú também, que acomoda familiares e amigos quando preciso.
Fale um pouco sobre o Rodeio no CTG Porteira Gaúcha. Desde quando você participa do CTG?
O rodeio em si tem a parte artística, com as danças e músicas, declamaçíµes. Essa parte traz muito público. E a parte campeira tem a disputa de laçadores com boa premiação em dinheiro, tem gineteadas. Fora isso tem centenas de pessoas passando a cavalo, fazendo seu churrasco, dividindo o chimarrão, contando causos gauchescos e confraternizando.
Quando vim para Torres não tinha nenhum CTG, daí fui coordenador e ajudei a fortalecer o CTG Porteira Gaúcha nos primeiros anos. E no rodeio eu fico acampado desde o começo, quase todos os anos. Vi patríµes melhores e piores passarem pelo CTG. Uma grande gestão foi a do Aldo Peretto, há uns quatro anos atrás, quando o local foi reformado. Mas o importante é que a Centelha da Tradição, carregada durante a abertura da semana Farroupilha, permanece acessa nos nossos coraçíµes (tradicionalistas) o ano todo.
Em relação ao resgate de nossa história gaúcha, como tu vê o papel dos CTGs nos dias de hoje? E a participação da juventude neles?
Os CTG™s sempre terão um papel importante, e estão bem ativos ainda. Em Torres temos com registros no MTG os CTG™s dos Piazitos (em homenagem ao doutor Ari Almeida), Porteira Gaúcha (na Vila São João) e o Rincão do Nordeste (na BR-101). O porteira Gaúcha tem cerca de 200 sócios. Alguns membros saem, outros faleceram, mas os números de associados vêm crescendo nos últimos anos. O Querência das Torres, que ajudei a fundar (no parque do Balonismo) lamentavelmente terminou, o prédio estava caindo e não teve reforma. Mas vai tornar-se em algo útil, um colégio para as crianças acho (na verdade uma UPA, segundo os últimos relatos da prefeitura).
Os jovens também estão se envolvendo mais, incentivados pelos pais vão nos acompanhando nos rodeios e cavalgadas. No mínimo temos uns 40 meninos e meninas envolvidos no CTG Porteira Gaúcha, inclusive alguns campeíµes em rodeios. Até ano passado tínhamos (o MTG) apoio financeiro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (COMDICA), e tínhamos até 100 jovens tendo aulas de práticas tradicionalistas.
Mas neste ano decidiram não contemplar nosso projeto, daí os professores para a gurizada são pagos pelo próprio CTG. Mas a vida é assim, com ou sem apoio público o interesse dos jovens é a gratificação, pois afasta eles das drogas e dos males do mundo consumista. í‰ a certeza de que o movimento irá continuar crescendo, pois o tempo passa, a vida passa e nos passamos, mas estes jovens certamente seguirão nossos passos gaúchos.
O renomado Paixão Cortes (o próprio dá Estátua do Laçador) cita o Litoral como principal polo da cultura regional. Nos fale um pouco sobre essa nossa tradição, e sua relação com Paixão Cortes.
Temos em Torres e região uma riqueza de danças e músicas do folclore gaúcho que é lembrada mundo afora. A dança do Caranguejo é daqui e tornou-se muito popular pelo tradicionalismo de todo o RS e SC. Outra muito conhecida e litorânea é a música/dança do Balaio, que as mulheres costumavam cantar para colher frutos na roça, para coser das roupas. Tem a canção Chico do Porrete, que foi passada pelo aví´ de minha mulher em São Francisco de Paula e trouxemos para o litoral. Todo o fim de semana que estou fora carrega a bandeira de Torres, levando o nome da cidade por onde passo.
O Paixão Cortes foi um professor para mim, temos longa amizade desde os tempos de São Francisco de Paula. O Barbosa Lessa ia para lá também, daí falávamos das história do tradicionalismo, de lendas, pesquisas folclóricas, Eu próprio ajudei os dois com algumas pesquisas.
Na era da internet, quais os desafios de se manter o tradicionalismo gaúcho, que é de matriz eminentemente rural, numa sociedade que é hoje eminentemente urbana?
Nós temos que evoluir, se parar no tempo estamos regredindo. A cultura de andar a cavalo como locomoção diminuiu muito, mas não foi esquecida. Não podemos esquecer da tradição, e a maioria não quer esquecer. Já vi centenas de pessoas chorarem de alegria por ver a tradição se mantendo na Cavalgada do Mar.
A cultura é uma palavra muito ampla, mas certamente a cultura gaúcha é nossa raiz (geográfica), diz de onde viemos, quem somos e o que queremos. As pessoas da cidade muito se preocupam com o dinheiro, só que esquecem que isso não deve ser o principal. Para mim tradicionalismo é família, e família é passar a tradição, de pai para filho.
O que significa ser gaúcho para você?
í‰ uma ação pela saúde tanto física como da alma, pois é uma cultura que tem princípios éticos a morais em sua base. Ser gaúcho é um estilo de vida baseado em valores simples e bons, que o mundo consumista as vezes tenta fazer desaparecer. Fico feliz em dizer que, bem ou mal, as prefeituras de Torres e região ajudaram a fortalecer o movimento gaúcho em nossas terras. E peço que Deus me de forças para continuar o trabalho com os jovens, de difundir as tradiçíµes gaúchas.
FOTO: Ajos com a filha e a neta: Família no tradicionalismo


