Copa das Copas? í‰ possí­vel!

23 de junho de 2014

 

 

 

Por Marcio Telles* **

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Um balanço da primeira semana de Copa no Brasil já mostrava: é uma das melhores ediçíµes de todos os tempos. Talvez seja "A" Copa dessa geração. Aqueles que, como eu, nasceram nas décadas de 1970 e 1980 lembram com carinho da Copa de 1994 e de Hagi, Stoichkov, Valderrama e Tab Ramos, Romário. A geração anterior se esbalda com o mesmo gosto de Pelé, Jairzinho, Tostão, Carlos Alberto, Beckenbauer (com o braço enfaixado), Gigi Rivera e Mazurkiewicz na Copa de 1970. Arrisco-me a dizer que os nascidos entre 1990 e 2010 lembrarão com saudosismo da Copa no Brasil.

Motivos para isso não faltam! Nos 20 primeiros jogos marcou-se mais de 60 gols, uma impressionante média de três por partida.Em 37 jogos (até esta segunda-feira, 23) a bola só não entrou no sonolento Irã x Nigéria, no empate do Brasil x México – culpa do goleiro Ochoa (que, aliás, está sem clube) – e no Japão x Grécia (retrancada e com um jogador expulso) . A última Copa com uma média de gols tão alta contava com um jovem Pelé na seleção brasileira: em 1958, na Suécia. Mesmo se a média não se mantenha até o fim do torneio, já é incrí­vel.

 

Derrocada do ‘tiki-taka’ espanhol

 

Surpresa das surpresas, em apenas dois jogos a toda-poderosa Espanha carimbou o passaporte… de volta para casa. Levou sete gols e marcou apenas um, em um pênalti que não houve. A última campeã mundial a disputar um tí­tulo foi a seleção brasileira em 1998. De todas as campeãs desde então, apenas o Brasil passou da primeira fase em 2002, para cair contra a França (enquanto Roberto Carlos ajeitava o meião). Mesmo com França e Itália caindo cedo, a campanha espanhola foi a mais esdrúxula: é a primeira vez que uma campeã fica de fora sem jogar todos os seus jogos nos grupos. Iker Casillas teve duas atuaçíµes desastrosas “ como foi sua atuação na final da Liga dos Campeíµes desse ano. Xavi e Iniesta jogaram no ritmo de Douglas, ex-Grêmio e hoje no Vasco. A verdade é que a Espanha já embarcou desclassificada: o lí­der Puyol ficou de fora devido a uma lesão. A volta para casa era iminente.

A derrocada espanhola talvez seja, também, a de um modelo burocrático de futebol. Desde que a turma do Barcelona voltou a dominar os campos do Velho Continente, transformou-se 1×0 em goleada. Replicado na seleção espanhola por Vicente del Bosque, o tiki-taka de Pep Guardiola tornou-se paradigma de futebol moderno, com sua obsessão em possuir a bola e seus passes laterais sem profundidade. Nada que o Brasil não tivesse visto antes: Parreira fez do gol um detalhe na seleção de 94, com Dunga preferindo os toques por cima aos para o lado (como Xavi), e Zinho não era nenhum Iniesta, e ainda assim aquela seleção foi considerada a pior campeã de todos os tempos. A versão estrangeira da filosofia de Parreira pareceu muito mais atraente, e tentou-se imitar em gramados brasileiros a novidade de vinte anos atrás. Não pegou. Em ní­vel internacional, a adoção cega do toque-toque e da filosofia de que fazer gol é crime contribuiu para uma das Copas mais chatas de todos os tempos em solo africano.

 

Esquemas inovadores e Copa fascinante

 

Novos esquemas táticos já se apresentaram nessa Copa. Há o Chile com seus laterais jogando em profundidade, aparecendo na área para desbaratar a defesa adversária. O responsável não usa ternos caros nem se advoga o novo gênio do futebol mundial: Jorge Sanpaoli ganha menos do que Gilson Kleina no Palmeiras e quase parou no Cruzeiro antes de assumir a seleção andina. í‰ um revolucionário. Diferente de Joachim Lí¶w, da seleção alemã, que levou o esquema do falso nove (um centroavante que busca jogo na intermediária e se movimenta a frente da linha defensiva) í s últimas consequências. Seu nove veste 13 “ Thomas Mí¼ller “ e é o artilheiro dessa Copa com um hat trick (três gols em um jogo) na primeira rodada. O time joga coletivamente: sem a bola, todos ficam atrás dela; com ela, a seleção alemã é capaz de chegar na área adversária em três toques. í‰ o carrossel da Oktoberfest.

Essa Copa também está fascinante pelos resultados imprevisí­veis. A principal culpada na primeira rodada foi a Holanda, que estragou o bolão de todos logo no segundo dia de torneio ao golear a campeã mundial. Depois passou apuros na frente dos australianos em Porto Alegre. Aliás, Austrália, Grécia, Japão, Suí­ça, Coréia do Sul e Argélia, seleçíµes que causavam sonolência só de olhar na tabela, estão fazendo jogos de respeito. Não tem mais bobo no futebol mundial é a expressão repetida há vinte anos e que finalmente faz sentido. Tirando Irã e Camaríµes (que parece que vieram a passeio), todas as seleçíµes entraram em campo com a faca entre os dentes.

Talvez seja cedo ainda para afirmar que esta é a melhor Copa de todos os tempos. í‰ incontestável, porém, que os brasileiros ficaram tão encucados com os problemas extracampo – e com a certeza de que esta Copa seria um fracasso estrutural, logí­stico e polí­tico – que esqueceram de criar expectativas para o futebol jogado dentro de campo. O tsunami fora de campo provou-se apenas uma marolinha e a bola tem rolado melhor do que qualquer um seria capaz de imaginar. Que continue assim!

 

Anedota da Copa:

 

Kahn,o goleiro que odeia perder

 

 

 

(FOTO por Wikipedia)

 

                      Oliver Kahn, goleiro da seleção alemã vice-campeã em 2002, odeia perder. Certa vez, foi convidado a participar de um evento de caridade em prol de orfanatos da Alemanha. A tarefa das crianças era simples: quem fizesse um gol de pênalti no goleiro angariava fundos para sua instituição. O problema é que o tal goleiro era Kahn.

                      Kahn agarrou todas as bolas.

                      Mas a vida é sábia e a bola é redonda, já diria outro gênio alemão do futebol. Na dita final de 2002, Kahn rebateu mal um chute de Rivaldo de fora da área e largou a bola nos pés de Ronaldo. Nem importa o segundo gol feito pelos brasileiros: a partida havia sido perdida por uma falha dele, Oliver Kahn. Após o apito final, o goleiro alemão atirou-se no gramado. Precisou de seis colegas mais o árbitro italiano Pierluigi Colina e o capitão brasileiro Cafu para levá-lo ao vestiário.

                      No desembarque da seleção alemã em casa, para desespero de Kahn, uma multidão esperava para ovacioná-lo. Constrangido, ergueu o braço e sorriu amarelo: o balaio de gatos que Rudi Ví¶ller levou í  ísia chegou mais longe do que se poderia prever.

                      E assim o homem que odiava perder, Oliver Kahn, goleiro impecável e í­dolo do Bayern de Munique, entrou para a história da bola como membro da mais simpática seleção alemã derrotada.

 

*Jornalista e pesquisador, mestre em Comunicação pela UFRGS  

Adaptada da matéria publicada em 20/06 no jornal A FOLHA

 

 


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