
Por Guile Rocha
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Era noite de 7 de julho, uma segunda-feira, e decidi ir até o Centro Municipal de Cultura para assistir, pela primeira vez em quase 3 anos, a um filme transmitido pelo Cineclube de Torres. Trata-se de uma atividade muito importante pela valorização da cultura de nossa cidade, uma vez que é a única opção para quem deseja experimentar a sensação de estar dentro de um cinema em Torres. Desde agosto de 2011, o Cineclube vem transmitindo – semanalmente e de forma praticamente ininterrupta – filmes de qualidade produzidos nos quatro cantos do mundo e com alto valor artístico e cultural. E trata-se de uma associação sem fins lucrativos, onde todas as exibições são gratuitas e abertas ao público.
Embora eu seja particularmente fascinado por filmes, por alguma razão (preguiça e esquecimento, acima de tudo) nunca havia participado de uma sessão do Cineclube Torres. Me sentindo um tanto constrangido pela demora, decidi criar vergonha na cara e comparecer: fui assistir ao filme argentino Tango. Entrei no auditório com uma sensação de nostalgia, lembrando do cinema instalado no mesmo espaço até o final dos anos 90 – época do antigo Cine Havaí. Agora, além de mim, outras 10 pessoas participaram da exibição da bela película argentina, que retrata os bastidores de um espetáculo sobre o complexo tango, juntamente com uma narrativa que mistura romance, suspense e delírio.
Filmes que estimulam o debate
Ao final da sessão, fui conversar com o italiano Tommaso Mottironi, idealizador do Cineclube Torres. Radicado na cidade há alguns anos, Tommaso viveu também em Portugal e Marrocos antes de aportar por aqui. “A experiência com o cineclubismo surgiu em meus tempos de faculdade, e quando morei em Portugal participei de um dos primeiros cineclubes do mundo. Quando vim para cá, notando que a cidade não contava com qualquer cinema, decidi junto com alguns amigos idealizar o projeto, com o objetivo de transmitir filmes diferenciados, de cunho mais autoral e artístico”.
Em 2011, a proposta do Cineclube contou com o apoio da antiga administração municipal – que disponibilizou o espaço do Centro Municipal de Cultura para a exibição dos filmes (quase sempre nas segundas-feiras, as 20h) – e a parceria se renovou com a atual prefeitura. Desde então já foram quase 150 filmes transmitidos. Outra ideia bacana do Cineclube Torres é que, a cada mês, há uma temática diferente relacionando os filmes transmitidos: musica, infância, igualdade, ditadura militar e diversidade foram alguns dos muitos assuntos tratados pela associação (que neste mês de junho tem a dança como tema).
Quanto a participação do público, Tommaso conta que os meses de verão – com a presença dos turistas e veranistas – representam a época de maior movimento no Cineclube Torres, sendo que algumas vezes o espaço ficou praticamente lotado – como na apresentação do filme Fale com Ela, do polêmico diretor espanhol Pedro Almodovar.
Já durante o inverno a situação é diferente, geralmente variando entre 10 e 30 pessoas em cada exibição. Fica dificil estabelecer um padrão para os espectadores, mas a faixa etária mais presente é dos jovens em torno de 20 anos (com boa presença de vestibulandos e alunos do EJA) e do pessoal com mais de 40 até a terceira idade. Mas o importante é que são pessoas que tem boas expectativas quanto aos filmes que passamos. Queremos que seja uma chegada consciente, que a pessoa venha pela vontade de vir acima de tudo. ” destaca o italiano, ressaltando os debates e as conversas que eventualmente ocorrem após as sessíµes como um dos pontos altos da experiência do Cineclube.
Associação cultural sem fins lucrativos
Apesar de satisfeito com a atividade que vem exercendo junto ao Cineclube de Torres, Tommaso ressalta que o espaço para a exibição dos filmes – o auditório do Centro Municipal de Cultura (no prédio da SAPT da Rua José Picoral) – não é o mais adequado. “No inverno o espaço é muito grande e frio para o público que temos, e no verão fica muito quente. Gostaríamos de proporcionar um espaço mais confortável aos espectadores, mas vamos trabalhando com o que temos e agradecemos a parceria com a prefeitura. Somos uma associação cultural sem fins lucrativos, por isso não temos recursos próprios para grandes investimentos ou para uma sala própria”.
Atualmente, o Cineclube Torres conta com 54 sócios registrados – que pagam uma anuidade simbólica de 30 reais – e possui também algumas empresas que contribuem mensalmente com a associação. Além disso, a instituição participa de outros eventos culturais de Torres, como a Feira do Livro, e recentemente foi contemplados com uma verba do orçamento participativo (sendo que um dos focos será o maior envolvimento do Cineclube com os estudantes). Tommaso, diz ainda ser totalmente favorável a volta do Cine Dunas – que até o fim do ano deve estar funcionando na cidade. “Não somos uma concorrência ao cinema comercial. Acho que é importante que se fortaleça uma integração, a ideia de uma rede de cultura municipal. A cultura geralmente é transversal, quem gosta de cinema gosta de dança, de música, literatura”.
E a partir desta premissa, o Cineclube está em busca de intervenientes na esfera cultural para lançar um projeto inédito na cidade: uma estrutura colaborativa independente do poder publico, o Plano de Cultura de Torres. “A ideia é ajudar na divulgação e na integração das várias atividades propostas, para uma eficaz ação de formação de público. Não vale se queixar da ausência de público local sem tentar reverter esse quadro, unindo os esforços de quem faz cultura em Torres”, conclui o idealizador do Cineclube Torres, convidando a população torrense a assistir aos filmes transmitidos nas noites de segunda-feira.


