AS DUNAS DE TORRES: O vento sempre teve palavra forte por aqui

As dunas fazem parte da história do litoral gaúcho, emoldurando cerca de 622 quilômetros de extensão, desde o Chuí até Torres. Muitas delas, contudo, foram sacrificadas no passado em nome do crescimento das cidades litorâneas.

3 de fevereiro de 2026

Foi ele, o vento, aliado ao mar e ao tempo, quem esculpiu a extensa Planície Arenosa Costeira do Rio Grande do Sul. Esses movimentos deram origem a uma imensa faixa de areia, caracterizada pela presença de dunas costeiras. Do mar vem a areia que, carregada pelo vento, se acumula ao encontrar um obstáculo. Com o crescimento da vegetação típica, essa areia vai sendo fixada, formando dunas de diferentes formatos e tamanhos. Forma-se, assim, o sistema de dunas.

As dunas mais próximas ao mar são baixas, e nelas a vegetação resiste à salinidade e às subidas da maré — são chamadas dunas embrionárias. Logo atrás, encontram-se dunas mais altas, com vegetação mais variada, de onde se pode contemplar a vastidão da praia — são as chamadas dunas primárias e secundárias.

As dunas fazem parte da história do litoral gaúcho, emoldurando cerca de 622 quilômetros de extensão, desde o Chuí até Torres. Muitas delas, contudo, foram sacrificadas em nome do crescimento das cidades litorâneas. Já em 1940, Torres sofria com a migração das dunas em direção ao centro urbano, como relata Guido Muri no livro Remembranças de Torres:

“As dunas chegavam a grande altura e tinham seu início no local onde se encontra o Colégio São Domingos, estendendo-se até a Praia da Cal […]. Ary Alves, da Secretaria da Agricultura, deu início, naquele tempo, à contenção das areias com a plantação intensiva de acácias e eucaliptos.”

O escritor Ruy Ruben Ruschel também recorda as dificuldades enfrentadas pela cidade na década de 1930, quando funcionários da prefeitura removiam, com carrinhos de mão, as areias que invadiam as casas.

As areias da Praia da Cal se soltaram entre 1910 e 1920, migrando inicialmente para os banhados do interior. Depois, avançaram em direção ao norte, por trás da torre do Farol: grandes lençóis de areia deslizavam por sua encosta, impulsionados pelo vento sul. Um extenso cômoro acabou soterrando o antigo cemitério, restando à mostra apenas a ponta do cruzeiro. A partir de então, os mortos da comunidade passaram a ser enterrados na parte alta da torre, ao lado do recém-construído farol da Marinha.

Há não muito tempo, as dunas ainda avançavam sobre o calçadão. Muitos prefeitos se sucederam, e as dunas, incólumes, permaneciam, dificultando o passeio. A luta das pás contra as areias foi vencida pelas areias.

FOTO: Margarida-das-dunas auxilia na fixação das dunas em Torres

 

Em 2009, foi elaborado um plano de manejo — uma parceria entre a Prefeitura de Torres e o NEMA (Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental) — que acabou dominando as últimas dunas “rebeldes”. O uso de galhos secos e cobertura morta foi empregado, à época, para auxiliar no trabalho de contenção das dunas. A isso se associou o plantio de quase 10 mil mudas de margaridas nas dunas, a fim de estabilizar a areia e impedir que ela migrasse com o vento.

Curiosamente — ou poeticamente — é quase o mesmo método de 1940: madeira, planta, paciência.

“Em 1940, a responsabilidade pela contenção das dunas foi transferida ao Estado, por meio do Serviço de Fixação de Dunas. Funcionários da Secretaria da Agricultura passaram a construir cercas de tiriricas nos cumes arenosos, conduzindo as dunas para os banhados.”

Hoje, as dunas — antes livres — só podem migrar no espaço que lhes foi delimitado. Porém, volta e meia, uma se desgarra e invade o calçadão para dar uma passeada.

 

Referências

http://www.nema-rs.org.br

RUSCHEL, Ruy Ruben. 'Torres tem história'. Porto Alegre: EST, 2004.

MURI, Guido. 'Remembranças: As vivências de uma comunidade. Porto Alegre': Pallotti, 1996.

 




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