Há algo de profundamente belo — e irremediavelmente triste — na imagem de uma índia que chora a morte de seu amado. Uma pena que ela chore demais e que suas lágrimas inundem o local, fazendo surgir ali uma grande lagoa.
Não fosse suficientemente fantasioso o fato, a lagoa ainda tem a forma de um violão — instrumento que seu amado tocava brilhantemente. Talvez tenha sido esse brilho, aliás, que lhe custou a vida, ao cair nas mãos — ou nos ritos — da tribo antropófaga dos carijós.
É assim que se conta a Lenda da Índia Ocarapoti. Ou, como muitos preferem, a Lenda da Lagoa do Violão. Uma entre tantas histórias que atravessam Torres, sopradas de boca em boca, como quem não quer deixar o tempo vencer.
Existem tantas outras sobre diversos locais de Torres, mas, ao que parece, esta é a mais conhecida. Talvez seja pelo fato de ela parecer mais autêntica do que as demais.
Vocês conhecem a lenda da sereia da Guarita? Ou a do homúnculo, também na Guarita? E as dos tesouros dos piratas, por lá? Se vocês fizerem uma breve pesquisa sobre lendas, no Brasil e no mundo, certamente encontrarão versões de quase todas as que escutamos aqui em Torres. A que parece mais adaptada ao nosso cenário é, justamente, a Lenda da Lagoa.
Porém, é uma lenda e, como tal, deve ser vista, escutada, apreciada e reproduzida. Pode-se dizer que a lenda é uma forma de degeneração do mito, pois, sendo repassada oralmente de geração em geração, vai se transformando com o tempo. Afinal, como bem diz o ditado: quem conta um conto, aumenta um ponto.
O livro de Ruschel descreve com detalhes algumas dessas lendas que, embora registradas e publicadas, ainda não são tão populares dentro da comunidade torrense.
Há quem tenha se dedicado a recolher essas narrativas antes que se perdessem por completo. O livro de Ruschel, por exemplo, guarda muitas delas com cuidado. Mas o curioso é que, mesmo escritas, ainda parecem distantes do cotidiano da própria comunidade. Por esse motivo, não são amplamente repassadas, nem aos moradores nem aos turistas. E talvez aí resida uma oportunidade desperdiçada.
Em uma coluna anterior, escrevi sobre a força do turismo alicerçado no patrimônio cultural — tanto material (edificado) quanto imaterial (folclore, história, costumes) —, citando como exemplo o caso de Verona e o romance de Romeu e Julieta. A lenda de Ocarapoti, assim como as outras, pode ser um importante atrativo cultural de nossa cidade.
Torres poderia utilizar melhor essas lendas em prol do turismo, materializando-as em forma de monumentos, espaços, souvenires, livros e outras iniciativas que as aproximem tanto do visitante quanto do próprio torrense.
Temos, na ponta sul da lagoa, na Praça dos Escoteiros — que pouca gente conhece —, um, digamos, monumento que representa a lenda. Quem trabalha com turismo na cidade consegue identificá-lo, mas a maioria das pessoas não sabe o que significa aquela figura vazada em concreto. Se perguntarmos aos que passam por ali, dificilmente saberão o que aquilo representa. E não se trata apenas de desconhecimento popular. Há sinais de que o próprio poder público também não percebe — ou não prioriza — o valor simbólico daquele espaço. O resultado é o silêncio. E, com o tempo, o desgaste.
Mas não seria tão difícil fazer diferente.
O que poderia ser feito? Talvez o caminho mais simples seja valorizar o local como praça que é, além de dar destaque ao monumento e à própria lenda, com identificação adequada e também reconhecimento ao artista que o criou (informação que, infelizmente, ainda não possuo). Pequenos gestos que, somados, devolvem sentido ao lugar.
Sei que alguns poderão dizer que isso é algo menor, pouco relevante diante de um universo turístico mais amplo. Pode até parecer, à primeira vista. Mas quem conhece o turismo e trabalha com ele sabe o quanto a cultura é essencial nesse contexto — e o quanto fazem falta atrativos complementares que mantenham o visitante na cidade por mais tempo.
O turismo e a cultura, antes vistos como áreas apenas convergentes, hoje caminham lado a lado, associados, gerando uma nova demanda social e espacial de consumo de serviços: o chamado Turismo Cultural.
Torres tem paisagens que impressionam. Mas também tem histórias que insistem em sobreviver. Talvez esteja na hora de escutá-las com mais atenção.
O Brasil, afinal, é um país onde o imaginário nunca foi escasso. E talvez seja justamente essa abundância de lendas que nos ajude a entender quem fomos — e quem ainda somos.

