OPINIÃO – A ANTIGA VISTA DA GUARITA

"O tempo é um grande professor. Para os que têm o privilégio de estar na Terra há mais tempo, ele se torna parceiro e, ao mesmo tempo, inimigo"

4 de março de 2026

O tempo é um grande professor. Para os que têm o privilégio de estar na Terra há mais tempo, ele se torna parceiro e, ao mesmo tempo, inimigo. Parceiro porque, quanto mais se vive, mais se aprende — tudo bem que isso não aconteça com todos, mas poderia ser a regra. Inimigo porque, à medida que o tempo passa, menos tempo se tem.

Mas não é exatamente sobre o tempo que quero falar. Quero falar sobre o aprendizado que se acumula ao longo dos anos. Muito do que sabemos resulta do estudo contínuo sobre os diversos assuntos que nos interessam — nosso ofício, nosso lazer, nosso convívio nas diferentes frentes da sociedade, enfim, a vida como um todo. Parte desse aprendizado vem do que chamamos de “tentativa e erro”, fruto inevitável da passagem do tempo. Quanto mais tempo, mais oportunidades temos de tentar e errar — até acertar, é claro — e aprender com isso.

Outra maneira — um tanto mais simples — é observar se alguém já tentou fazer aquilo que estamos pensando em fazer e se deu certo ou não. Se deu certo, ótimo. Se não deu, talvez seja melhor considerar outra alternativa.

E assim caminha a humanidade.

Aqui, em Torres, estamos vivendo uma dessas experiências. A construção civil — em forma de prédios — espalhou-se por várias zonas da cidade e, com a escassez de espaço, avança agora sobre áreas que deveriam ser protegidas para a manutenção da principal atividade econômica local: o turismo.

Na década de 1970, José Lutzenberger liderou a criação do Parque Estadual da Guarita. Era uma tentativa de proteção de longo prazo para a área mais nobre das belezas naturais da cidade. Na concepção original, o projeto previa uma área muito mais ampla de preservação — estimativas históricas apontam algo entre mil e mil e quinhentos hectares, abrangendo morros, dunas, restingas e faixas costeiras que compõem o conjunto paisagístico da Guarita. A intenção era proteger não apenas um cartão-postal, mas um ecossistema inteiro, garantindo a integridade da paisagem e dos ambientes naturais.

Lutzenberger não agia por romantismo. Ele enxergava com clareza o que estava por vir. Em uma época em que o Brasil apostava todas as fichas no crescimento acelerado — estradas abertas, loteamentos avançando, concreto substituindo dunas e restingas — falar em preservação ambiental era quase um ato de resistência. A Guarita, com suas formações basálticas únicas e o encontro dramático entre falésias e mar, era frágil. Sem proteção legal, seria apenas questão de tempo até que a especulação imobiliária alcançasse seus limites naturais.

No entanto, dificuldades de desapropriação, disputas judiciais e decisões políticas sucessivas reduziram significativamente aquela proposta inicial. Hoje, o parque possui pouco mais de quarenta hectares efetivamente protegidos. De um território pensado em escala ampla, restou uma fração. Ainda belo, ainda imponente — mas muito menor do que se sonhou um dia.

E é justamente essa redução que nos coloca diante do momento atual. Somada às decisões políticas locais, ela abre espaço para o avanço das construtoras em direção ao Parque. Já foram autorizadas construções de prédios que poderão comprometer o horizonte paisagístico do Parque Estadual da Guarita. Aquela visão da Guarita, entre a Mata Atlântica e a Serra Geral, corre o risco de ser obstruída por um, dois, três ou mais espigões. O que hoje ainda é linha limpa entre morro e mar pode transformar-se em sombra de concreto.

É claro que esta não é a primeira cidade litorânea a passar por essa transformação. Para não irmos muito longe, basta olhar para Balneário Camboriú. Ali, o crescimento vertical avançou de tal maneira que a orla se tornou um verdadeiro paredão de edifícios. Arranha-céus disputam metros de altura como símbolo de progresso e prosperidade. A cidade ganhou valorização imobiliária, tornou-se vitrine de luxo e ousadia arquitetônica. Mas também perdeu algo: o horizonte aberto. A linha do céu junto ao mar, antes ampla, hoje é recortada por torres sucessivas que alteram a paisagem de forma permanente.

Em João Pessoa, o debate tomou outro rumo. A chamada Lei do Gabarito buscou preservar o horizonte marítimo, limitando a altura dos prédios na orla. Houve disputas judiciais, pressões econômicas, discussões acaloradas. Mas ali se consolidou a compreensão de que o maior patrimônio da cidade não era apenas o metro quadrado valorizado — era o mar visível, o vento correndo livre, o sol alcançando a areia.

Esses exemplos mostram que o aprendizado coletivo não é automático. Algumas cidades permitem que o mercado dite o desenho final do céu; outras impõem limites para proteger aquilo que não pode ser reconstruído depois. Porque edifícios podem ser erguidos em poucos anos. Já o horizonte — quando perdido — não se recompõe.

Torres ainda está no momento da escolha.

O tempo ensina. Mas só aprende quem decide ouvir.

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***




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