OPINIÃO – BALONISMO É TURISMO. NÃO É AÇÃO SOCIAL

Coluna de Fausto Jr - Jornal A FOLHA - Torres - RS - Brasil

Festival de Balonismo é somente um entre várias atividades programadas pela prefeitura de TorresFestival Internacional de Balonismo é destaque do calendário de eventos (FOTO Vagner Machado)
3 de abril de 2022
Por Fausto Júnior

Abriu-se um debate na Câmara de Vereadores de Torres sobre a cobrança de INGRESSO para acesso no 32º Festival de Balonismo, que acontece daqui a uns dias.  Dois vereadores da oposição (MDB e PT) reclamaram da cobrança para entrar no evento por torrenses, sugerindo que a atitude da prefeitura teria sido “elitista”.

E como a realização do Festival foi quase totalmente terceirizada, para uma empresa especializada gestionar e empreender no evento (com ônus e bônus), outra reclamação foi a de a prefeitura de Torres, neste governo Carlos, ter investido dinheiro no parque para evitar ter de pagar para terceiros o aluguel de estrutura montada –  ao construir áreas de circulação pavimentada e área fechada com telhado, mas que mesmo assim iria gastar com a terceirização da organização.

E outra reclamação também se refere à diminuição de pequenos negócios de pessoas estabelecidas em Torres nas operações dentro do festival de alimentação, comércio, serviços e etc.

Penso que tudo isto seria mais questionável se o Festival de Balonismo fosse feito diretamente para que moradores de Torres tivessem ao seu dispor um entretenimento para suas famílias, pago pela prefeitura. Uma espécie de política de Ação Social estratégica dentro do governo para ajudar na busca do Bem Estar Social dos torrenses em geral através do entretenimento. Seria ridículo convidar o torrense para uma festa em seu nome e na hora de entrar ele tivesse que pagar para entrar na própria festa. Mas não.

O Festival de Balonismo é um evento de TURISMO, criado lá atrás, há 32 anos, para celebrar o Balonismo sim, mas também BUSCAR PÚBLICO para Torres, fomentar o consumo dos turistas na cidade na baixa estação, tanto dentro do festival quanto fora, nos hotéis, nos restaurantes, nos supermercados e nas lojas do comércio local. E cobrar do turista para que ele faça/usufrua de alguma coisa se trata do âmago da atividade econômica. Se não houver cobrança sobre o consumo, ninguém consegue ter no turismo um meio de sobrevivência para os moradores de uma cidade turística como Torres. E a maioria das pessoas que moram em Torres depende, indireta ou diretamente, de empreendimentos de turismo para que consiga emprego e renda, além do imposto gerado pelas atividades que ajuda a realização de várias políticas públicas, inclusive de ação social.

O Festival do Balonismo não é Ação Social, é pelo Balonismo e Turismo.

 

BALONISMO É TURISMO. NÃO É AÇÃO SOCIAL…II

 

Quanto a investir no Parque – para não ter de gastar com equipamentos de habitação como piso, parede e teto – trata-se tão somente de fazer um cálculo de capitalização.  Saber se o valor gasto no Parque do Balonismo a cada edição para montar ou remontar as estruturas é maior ou menor do que o juros de aplicação do valor gasto pelo investimento. Se for maior, vale a pena investir (capitalizar), porque se estará gastando uma vez para realizar vários festivais. Portanto, não se trata de analogia inteligente comparar investimento com terceirização da operação no evento. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Torres é uma cidade que cresceu, cresce e parece sempre crescerá através da atividade do TURISMO. E um parque de eventos preparado para receber festivais e feiras diversas durante o ano é uma forma do poder público ajudar o setor de hotelaria, gastronomia, comércio, entretenimento e serviços a receber clientes e consequentemente gerar emprego, renda, oportunidades de empreendimentos e impostos para alavancar os sonhos de vida dos atuais e dos seus filhos e netos.

 

BALONISMO É TURISMO. NÃO É AÇÃO SOCIAL III

 

Quanto a ter negócios de torrenses dentro da estrutura do Parque do Balonismo, também acaba sendo uma questão técnica, uma questão que orbita em torno do conceito do evento, construído em sua base como um Festival Turístico.

Se forem os organizadores do Festival  que definem o perfil de quem vai operar a gastronomia do festival, espera-se que estes saibam muito bem o que dá certo e o que não dá certo. Dar certo em marketing é oferecer o produto ou serviço para o cliente (que paga para entrar no evento) da forma que este gosta – para que consuma, que elogie, que volte. Ninguém faz nada para que as pessoas não gostem…

Limitar somente a torrenses tradicionais as operações dentro do festival de Balonismo (por mais que tenhamos ótimos estabelecimentos em várias áreas) pode ser risco de não se ter produtos ou serviços que entregam o desejo variado dos frequentadores, o que pode fazer com que estes não voltem no próximo festival, que falem mal da organização, que fiquem comentando sobre problemas enfrentados por eles quando vieram assistir o evento, tudo o que não queremos sobre o Balonismo. Ou queremos?

A coisa funciona como CCs em prefeituras. Se o gestor escolher os CCs por critério de amizade e parentesco, corre o risco de ter uma equipe incompetente e fazer um mau governo. Mas se o gestor de prefeitura e de governos escolhe os CCs por capacidade, por competência, por provas anteriores de bons trabalhos dos contratados, o risco é de fazer um governo muito bom e desagradar a oposição.

Tiveram prefeitos em Torres que foram altamente criticados por formadores de opinião local por terem contratado como CCs secretários e diretores que eram de fora de Torres. Ora. Se não for parente do prefeito ou de um cacique do partido, contratar gente de fora mostra que as exigências buscadas pelo gestor podem ter sido limitadas pelos recursos humanos do mercado da cidade, do Estado. Não imagino qual a vantagem de um prefeito, eventualmente, contratar alguém de fora se não for por isso.

Política não deveria ser uma forma de entregar vantagens para amigos do dono da caneta. Os que optam por isto, geralmente não são reeleitos, porque contratar a melhor pessoa para aquela função é a missão de qualquer gestor, da iniciativa privada e da iniciativa pública.

 

BALONISMO É TURISMO. NÃO É AÇÃO SOCIAL IV

 

A contratação de artistas torrenses para os shows do balonismo deve obedecer à mesma lógica: a de contratar as pessoas que mostram qualidade e aceitação do público para que seja parte integrados no evento, sejam os artistas de Torres ou de fora. Política de apoio da prefeitura é de dar espaço para que os artistas locais possam mostrar seu trabalho durante todo o ano e obter fãs que vão pagar para ver seu trabalho pela qualidade; e não contratar os locais só porque são locais…

Há outra forma de trabalhar mais com o artistas locais. Mas aí a estratégia do evento (ou a estratégia de turismo da administração municipal para atrair turistas) teria de ser baseada no TURISMO CULTURAL. Neste formato, a cidade busca atrair pessoas para que estas vejam peculiaridades locais nas artes, na gastronomia, na arquitetura dos prédios e casas e etc. Mas há de haver um conceito forte nisto, para que este seja fomentado e se multiplique de forma geométrica (caso turistas optem por visitar a cidade baseado nestas características culturais locais).

Pessoas de todo o mundo vão para a cidade de Bonito, no Mato Grosso do Sul, pela fama de lá serem recebidas por guias educados que explicam e mostram (e cobram por isso) a natureza exuberante dos rios e matas preservados de forma sustentável pela comunidade local e dos arredores. Turismo feito em nome das trilhas e banhos de rios e cachoeiras que os visitantes buscam por lá, como a arquitetura “rustica chique” nos hotéis e pousadas, os alimentos serem na maioria peixes pescados nos rios da região e preparados com temperos locais e de aceitação internacional, etc.

Pessoas de todo o mundo vão a Salvador da Bahia conhecer a cultura afrodescendentes que permeia o desenvolvimento do turismo da cidade. Candomblé, Danças Afros, Capoeira, Santos católicos em sincretismo com entidades das religiões africanas e etc., são shows que se apresentam no meio da gastronomia também, com tendências regionais (e culturais)  como o Vatapá, Acarajé, Abará e etc.

Em Torres já tivemos a feira das bananas que atualmente é mostrada pela cidade de Mampituba. Já tivemos a criação de Marrecos de Pequim como instrumento ecológico nas lavouras de arroz, mas que foi proibido logo após sua implantação.

Temos a Casquinha de Siri como um prato tradicional de Torres e que poderia gerar um festival gastronômico. Mas não temos características histórica tão marcante em nosso passado de civilidade local. Não temos grandes influência portuguesa, nem alemã, nem italiana, nem indígena, embora tenhamos um pouco de cada em nossos genes. Temos a rosca de polvilho como um prato tradicional, mas não muito mais.

Então acho difícil formatar um conceito de Turismo Cultural em Torres. Nosso maior legado é o de termos nos desenvolvido ao oferecer hospitalidade (casa e comida) para que pessoas do RS e do Brasil venham passar o verão aqui – aproveitando também as belezas naturais . E isto é difícil de transformar em um diferencial cultural na busca de turistas para a cidade.




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