OPINIÃO – O OCIDENTE E SUAS CIRCUNVOLUÇÕES CONCEITUAIS

A ideia de uma civilização dita ocidental vem de séculos (...) Importante registrar que o cristianismo nasce no coração do mundo judaico e tanto Jesus, como seus apóstolos, eram judeus. Depois de sua morte, porém, há uma profunda cisão no cristianismo primitivo.

21 de fevereiro de 2026

A ideia de uma civilização dita ocidental vem de séculos, mas tem-se como consenso que ela deriva do Império Romano, depois da aceitação, por Constantino (306-337 DC), do Cristianismo como religião oficial no Império. Ali teria se consagrado, então, o encontro de duas grandes influências culturais, até então avessas, o helenismo, com centro na filosofia naturalista grega e o “catolicismo”, como derivação do judaísmo. (Os judeus jamais aceitaram o “espírito Greco-romano”).

Importante registrar que o cristianismo nasce no coração do mundo judaico e tanto Jesus, como seus apóstolos, eram judeus. Depois de sua morte, porém, há uma profunda cisão no cristianismo primitivo. Pedro, um pescador, acreditava na pregação de Cristo como uma espécie de reforma do judaísmo, mantendo seus ritos e tradições, dentre elas a ideia de “povo eleito”. Paulo, porém, cidadão romano, o publicano que se converteu a caminho de Damasco, era um homem culturalmente mais sofisticado e defendeu uma visão mais ampla do cristianismo, vendo-o  como uma BOA NOVA a serviço de toda a humanidade. Daí a denominação Católico, palavra de origem grega, já usada pelos filósofos com o sentido de universalidade. Provém de katholikós, que significa “universal”, “geral” ou “segundo a totalidade”. Ela é formada pela união de kata (“sobre”, “de acordo com”) e holos (“todo”, “inteiro”). O debate entre Pedro e Paulo foi intenso e profundo e acabou se disseminando na versão fraterna universal do último. Paulo, aliás, fundou núcleos cristãos em vários pontos do Oriente Médio e até mesmo na Grécia, sendo reconhecido como o grande formulador da cristianismo que chegou até nossos dias. É essa versão ético-religiosa que se articula com a Filosofia grega (Platão) nos escritos de Santo Agostinho, o primeiro teólogo cristão,  vindo a conformar o pensamento europeu durante toda a Idade Média, até a emergência de Santo Tomaz de Aquino (1225-1274), com sua “Summa Teológica”, modernizante. As preconizações de inspiração religiosa da vertente católica influenciou a vida pública da época e desembocou, inclusive, nos programas social-reformistas que chegaram à Revolução Francesa, sendo de se destacar o papel de um certo Joaquim de Fiori, século XI.

“Suas teorias podem ser consideradas milenaristas ; ele acreditava que a história, por analogia com a Trindade , estava dividida em três épocas fundamentais:

 

  • A Era do Pai , correspondente ao Antigo Testamento , caracterizada pela obediência da humanidade às regras de Deus;
  • A Era do Filho , entre o advento de Cristo e 1260, representada pelo Novo Testamento , quando o Homem se tornou filho de Deus;]
  • A Era do Espírito Santo , iminente, uma utopia contemplativa. O Reino do Espírito Santo, uma nova dispensação de amor universal, procederia do Evangelho de Cristo, mas o transcenderia em sua letra. Nesta nova Era, a organização eclesiástica seria substituída e a Ordem dos Justos governaria a Igreja. Esta Ordem dos Justos foi posteriormente identificada com a ordem franciscana por seu seguidor Gerardo de Borgo San Donnino.

 

A ideia de Joaquim sobre a Era do Espírito Santo também influenciaria grandemente, mais tarde, o Culto do Espírito Santo, que teria um impacto considerável em Portugal e nas suas colónias nos séculos seguintes, e sofreria severa perseguição por parte da Inquisição Portuguesa .”

Muito recentemente, porém, passou-se a usar, na caracterização do “Ocidente”, a expressão “judaico-cristã”. Ela não teve um único inventor, mas popularizou-se ao longo do século XIX,, primeiro por  Friderich Nietzche, com sentido crítico,  depois por George Orwell (1939-1941), que lhe atribui uma ética comum.

Hoje, seu uso é apologético , quase corrente. Eis alguns pontos sobre esta mudança:

“Origem no Século XIX (sentido diferente): O termo foi inicialmente usado na Alemanha (jüdisch-christlich) por teólogos e historiadores no início do século XIX (como na década de 1820) para se referir a judeus convertidos ao cristianismo ou aos primeiros seguidores judeus de Jesus.

 

  • Friedrich Nietzsche: O filósofo Friedrich Nietzsche é frequentemente citado como um dos primeiros a usar o termo no sentido moderno, embora de forma crítica, para enfatizar a continuidade e a conexão entre a moral judaica e a cristã, especialmente em suas obras do final do século XIX.
  • Popularização no Século XX (Contexto Político): A expressão “judaico-cristão” como a entendemos hoje — referindo-se a uma tradição de valores compartilhados — popularizou-se na década de 1930 e 1940 nos EUA. Ela foi promovida para combater o antissemitismo, o nazismo e, posteriormente, no contexto da Guerra Fria, para contrapor os valores ocidentais ao ateísmo do comunismo.

 

Com o fim da URSS e do bloco soviético, a expressão “civilização judaico cristã” foi enaltecida como a virtude humanitária que conduziria a humanidade para uma era de paz e prosperidade sob hegemonia americana. Já em 2001, porém, a glamurização desta era, diante da atentado às Torres Gemeas em N.York, seguida de sucessivas crises financeiras, maior das quais em 2008, culminando, nos governos Trump I (2018-22) e Trump II (2025/29) , com a crescente identificação dos Estados Unidos com o Estado de Israel, o significado político da dita expressão ganhou contornos cada vez mais políticos de defesa, não do mundo, nem mesmo ocidental, tal como sugeriria a proposta “católica” da Bíblia, mas deste par- Estados Unidos e Israel, nos termos salvacionaistas americanos do “Destino Manifesto”.

Diante disso,  urge um retorno às origens das raízes “ocidentais” de forma a retomar às virtudes éticas do cristianismo universalista  e as virtudes filosóficas do helenismo. Daí a crítica ao uso atual da expressão “civilização judaico-cristã”, tal como vem sendo usada e abusada. Melhor usar “Greco-cristã”.

 

*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***




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