A população percebe a presença do crime organizado no bairro onde mora; pessoas maiores de 16 anos declaram conviver com a presença de facções perto de suas casas; o crime organizado deixou de ser percebido como fenômeno restrito a áreas específicas e passou a ser reconhecido como parte da vida cotidiana. Mais do que presença, esses grupos não respeitam as autoridades constituídas, exercem influência direta sobre a vida local e nas regras de convivência, quando consequentemente funcionam como uma espécie de poder paralelo que regula normas e comportamentos.
Segurança Pública desponta como uma das principais preocupações dos torrenses. Eles esperam que o poder público possa reivindicar o aumento do efetivo para a proteção da vida e a redução da violência, enfrentar o crime organizado para além do tráfico de drogas, com atenção especial à dispersão de elementos que permanecem nas ruas próximas de escolas e que afinal trazem insegurança aos pais. Esperam então que o poder público possa combater roubos e o tráficos, que são hoje os maiores medos da população, ao criar, por exemplo, um programa estratégico de proteção social e reconstrução da confiança comunitária, com o intuito de oferecer um diagnóstico que possa embasar uma agenda programática para a segurança pública.
Medo e mudança de comportamento – Essa percepção se traduz em medo quase universal com receio ante, ao menos, uma das situações de violência como os golpes, roubo à mão armada e morte durante assalto. As mudanças mais frequentes são de os cidadãos mudarem um programa rotineiro como, deixar de sair à noite, deixar de sair com o celular. Moradores afirmaram viver em bairros com a presença de grupos criminosos ou com um elemento que comanda os demais. Eles temem ficar no meio de confronto armado, ou que um familiar se envolva com o tráfico. Evitam circular em determinados horários e frequentar certos locais; não fazem denúncias de crimes por medo de sofrer represálias e evitam falar sobre política. O medo e a violência não apenas afetam a segurança, mas também obrigam que seja reorganizada a vida cotidiana, corroem o consumo, limitando a mobilidade e fragilizando a sensação de normalidade.
Vitimização – Moradores afirmam que tiveram alguma experiência direta ou indireta com o crime e a violência. Ser vítima de um golpe e ter perdido dinheiro pela internet ou celular nos últimos 12 meses foi a situação mais vivenciada. Por exemplo, foram vítimas de fraude/desvio de recursos de aplicativos bancários ou PIX…Cruzando os dados sobre a percepção da presença de facções na localidade onde residem com os de vitimização, nota-se uma grande discrepância nas respostas de moradores de bairros nos quais se observa atuação territorial dessas organizações em relação aos locais onde essa presença não é percebida. Ou seja, a presença percebida de crime organizado no bairro aparece associada a um salto de pontos percentuais na vitimização geral. As diferenças mais significativas aparecem em um conjunto de experiências que combinam crime patrimonial, violência letal indireta e violência interpessoal. Diferenças semelhantes foram registradas em situações como celular furtado ou roubado, roubos ou assaltos na rua e residência invadida ou arrombada. Há ainda aumento no indicador de quem teve algum familiar ou conhecido morto durante assalto, confrontando com a ideia muitas vezes difundida de que o crime organizado zela pela segurança das comunidades nas quais atua.
Gênero e classe – As diferenças de gênero e classe social também são marcantes. Mulheres relatam mais medo em todas as situações, especialmente em relação à violência sexual e doméstica, enquanto homens aparecem mais vitimizados em crimes patrimoniais e de rua. As classes mais desfavorecidas estão mais expostas à violência interpessoal e territorial, enquanto as classes mais abastardas sofrem mais com fraudes digitais e financeiras. O medo não é abstrato, mas baseado em experiências concretas onde a violência direta ou indireta tornou-se elemento estruturante da cidade. Portanto, penso que a proteção da vida e de redução da violência letal devem ser prioridade, com foco territorial, metas claras e capacidade investigativa, especialmente nos contextos em que a ameaça à vida se tornou experiência cotidiana.
O enfrentamento ao crime organizado como fenômeno que não se limita ao tráfico de drogas, mas que se expressa no controle de territórios, na regulação de mercados ilícitos. E a solução não é o enfrentamento violento em locais vulneráveis, mas inteligência, coordenação, investigação e presença policial contínua nos bairros mais vulneráveis da cidade. Para proteger o cidadão na rua contra roubos, furtos e assaltos, é condição básica restabelecer as condições mínimas para que se possa circular no espaço público, trabalhar, estudar, além de proporcionar condições até mesmo do cidadão denunciar crimes, ao invés de continuar sendo atividade condicionada pelo medo, pois a gramática do crime e da violência mudou significativamente. (Fonte: UAMTOR)
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