Sempre digo que não há nada mais incômodo do que ouvir alguém dizer: “eu avisei”.
E, no fundo, muita gente gosta disso. Gosta de poder afirmar, com um certo orgulho silencioso, que já sabia. Nem sempre é verdade, é claro. Mas, em boa parte das vezes, é.
Participo, há muitos anos, de atividades ligadas à cultura na cidade. Tempo suficiente para reconhecer certos sinais — especialmente aqueles que surgem a cada troca de prefeito ou de secretário da pasta. Não é premonição, nem adivinhação, muito menos futurologia. É experiência. Dependendo de quem assume, já se sabe que, mais cedo ou mais tarde, algo não vai dar certo.
Ainda assim, como bom brasileiro, sigo torcendo para estar errado. Acredito — ou tento acreditar — que toda mudança pode ser para melhor.
Não quero ser aquele que espera apenas o momento oportuno para dizer: “eu avisei”.
Mas há horas em que a realidade insiste.
Passamos oito anos convivendo com o problema do telhado da antiga Prefeitura — depois museu. Oito anos que viraram dez. Tempo suficiente para que o abandono comprometesse seriamente o interior do prédio. Nesse mesmo período, o acervo foi sendo vandalizado, pouco a pouco, levado por visitantes da noite. O que restou acabou armazenado em outro espaço, sem as mínimas condições de preservação: o tal Gibal (Ginásio do Balonismo).
Como se não bastasse, foi preciso a Justiça intervir para que o poder público cumprisse promessas feitas há muito tempo — e repetidas mais recentemente.
E o problema não termina aí.
O Torreão segue esperando. Espera há ainda mais tempo. O que recebe, por enquanto, são placas novas em tapumes velhos. Não de quem restaura por valorizar o patrimônio, mas de quem tenta remediar danos causados a outro patrimônio.
Enquanto isso, também aguardam: a Casa nº 1, o colégio Cenecista, a Casa das Sopas, o abrigo da SAPT. Hoje, todos escondidos atrás de tapumes, tábuas e tijolos. Impedidos de serem vistos — e, mais ainda, de serem visitados.
Esquecidos?
Pelos governantes, talvez.
Mas não por aqueles que ainda esperam. Que ainda acreditam em vê-los restaurados, vivos outra vez, úteis à cidade e à memória de quem por aqui passa.
Não sei quanto tempo ainda será preciso esperar.
Porque, quando o descaso se acumula, a cidade não se perde de uma vez só — vai ficando em pedaços.
Em retalhos.
*** A opinião dos colunistas de A FOLHA Torres é independente e não necessariamente representa o posicionamento do veículo de comunicação***
